Filme do cineasta pernambucano Josias Teófilo lota o segundo dia do Cine PE e contou com plateia fanática

A chuva deu a tônica da segunda noite do Cine PE. O festival, que um dia foi aquele com o maior no Brasil, estava apinhado de espectadores, demonstrando que, apesar das críticas, mantém uma certo fascínio. Esperado pelo público, a noite foi do longa O Jardim das Aflições, do pernambucano Josias Teófilo, título homônimo ao livro do filósofo brasileiro, Olavo de Carvalho.

Quando subiu ao palco para contar a história do filme, prestigiar seus correligionários e reverenciar o evento, Josias foi ovacionado pela plateia com gritos ensurdecedores. Vestidos com camisas estampadas com os slogans Bolsonaro Presidente e Direita Pernambuco, uma juventude maciça foi ao delírio ao encontrar o quase pop star Josias. Tal sucesso, talvez, advenha do maior crowdfunding já elaborado na história do cinema nacional. Mais de 5 mil pessoas investiram na obra, levantando R$315 mil pela plataforma Catarse, superando a meta inicial de R$252 mil.

Outro ponto relevante do sucesso vem dos detratores do jovem Josias, que, com 29 anos e muito carisma, divertiu quem estava atento ao que acontecia no icônico Cinema São Luiz. Depois de tentar participar de diversos festivais no Brasil, o filme acabou sendo aceito no Cine PE e como resposta, sete cineastas decidiram retirar suas obras da amostra, causando alvoroço, reagendamento do evento e diversas críticas nos jornais de grande circulação e nas redes sociais. Os cineastas alegaram: “um discurso partidário alinhado à direita conservadora e a grupos que compactuaram e financiaram o golpe ao Estado democrático de direito ocorrido no Brasil em 2016”.

Olavo de Carvalho: faltou falar mais do homem por trás das frases. (Foto: Divulgação).

A bem da verdade, a ação acabou ajudando a distribuição. A produção está sendo exibida em cinemas de diversas cidades no Brasil e nos Estados Unidos com sessões quase sempre lotadas, segundo a produção do longa. Mas vamos ao filme.

O documentário procura condensar os principais pensamentos elaborados por Olavo de Carvalho, um frasista de mão cheia, sempre às voltas com frases de efeito retiradas da cartola. Do início ao fim, Carvalho esmiúça sua gaveta de guardados, exibe sua biblioteca, seu refinamento pseudo-aristocrático, fala da vida, da sua vida, da vida dos outros, da política e daquilo que nos funda: nossa própria consciência.

Questionando a real liberdade do homem contemporâneo, Carvalho faz uma reflexão sobre o pensamento crítico hoje e procura conduzir o espectador, principalmente, o brasileiro, a compreender o que ele julga ser o meandro das questões que assolam o núcleo duro do poder no País.

Em suas reflexões, Carvalho vai de Epicuro a Heidegger em uma única sentença. Fala de Platão, Aristóteles, a Bíblia, faz uma ode à Igreja Católica e desembucha sobre uma série de outros pensadores para construir a sua batalha contra o que ele entende como comunismo. Em uma das cenas centrais do documentário, ao entrar em seu escritório, um Olavo de Carvalho meio titubeante, deixa escapar o cartaz escondido atrás da porta com dizeres semelhantes ao epíteto “we want you”, pregando um ataque ao socialismo.

Em outro momento Olavo chama atenção à sua biblioteca mostrando toda a obra de Marx, Engels, Trotsky, Lenin, Stalin, Gramsci e dispara: “se os comunistas lessem sobre o comunismo, não acreditariam nele”. Se é verdade ou mentira, não é fácil de se responder. A única sentença possível é bradar que trata-se de Olavo de Carvalho e sua mania em forjar pensamentos críticos em no máximo cinco palavras (incluindo as preposições que usa em abundância).

No filme, que poderia resumir-se a uma grande palestra, é possível encontrar os principais pensamentos de Carvalho, mas o mais curioso, sua vida pessoal, passa ao largo da obra. Se se propõe ser biográfico essa é uma faceta que não poderia faltar no prisma de construção da narrativa. Falta sabermos mais sobre o homem por trás de suas citações. Conseguimos compreender um pouco dele, quando sua companheira fala de o quanto o poeta Bruno Tolentino foi importante “na vida do Olavo”; ou quando vemos a tela invadida por jovens que supomos serem filhos e parentes de Carvalho.

O jantar à mesa dá mais detalhes sobre a família simples que come macarrão com batata palha e frango em cubos com molho de queijo. Talvez uma fina iguaria da Virgínia, estado que é venerado por Carvalho, como quem fala de um milagre de Deus. Quando fala do lugar onde mora ele nos faz lembrar avós e sua mania de viver em bairros mais pacatos. Seu verdadeiro fascínio pelo Estado é por ter sido palco da Guerra Civil Americana, sobre a qual fala com desenvoltura da campanha sulista pela independência.

Foto: Lana Pinho.

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