Foto: Montagem sobre Reprodução/ONordeste.com.

Capiba e Nelson Ferreira, ícones do frevo. (Foto: Montagem sobre Reprodução/ONordeste.com).

Resolvemos parafrasear Caetano Veloso quando exprimiu todo seu sentimento emocionado pela bossa-nova no hit “A Bossa Nova é Foda”. Na seleção abaixo fomos atrás das histórias dos frevos mais famosos de todos os tempos. O gênero, que completou 108 anos em 2015, segue como um dos mais originais da música popular brasileira e está intrinsecamente ligado ao Carnaval desde as suas origens.

Nomes como Nelson Ferreira, Capiba e Alex Calder ajudaram a tornar o ritmo popular. E hoje, artistas como Alceu Valença (que lançou disco no ano passado) e Spok seguem reverenciando o estilo e dando novos significados. Ao final do post fizemos uma seleção com os frevos indispensáveis para quem quer conhecer o estilo (e para ajudar nas festas de Carnaval). [Pela Equipe da Revista O Grito!]

“Roda e Avisa”
[J. Michiles]

Imortalizado na voz de Alceu Valença, este frevo-canção foi criado por J. Michiles, um dos últimos compositores de frevo imortalizados no imaginário popular. Ele criou outros clássicos, como “Diabo Louro” e a marcha “Recife, Manhã de Sol”, que o tornou famoso nos anos 1960 ao vencer um concurso de canção. Michiles, como se não bastasse, ainda criou a música do Bloco da Saudade, ultimato do frevo melancólico-saudosista, que evoca compositores carnavalescos antigos.

“Hino do Batutas”
[João Santiago dos Reis]

O recifense João Santiago tinha apenas 17 anos quando começou a tocar no bloco Batutas de São José, uma das agremiações mais antigas de Pernambuco (nasceu em 1932). Vamos combinar que ele teve incentivos de sobra em casa, já que seu pai era o maestro e compositor José Felipe. Santiago tornou-se espécie de cronista do bloco e contou histórias do cotidiano da agremiação nos frevos que inventou. É o caso de “Edite e o Cordão”, que fala da figura feminina mais famosa do bloco, “Reminescência”, sobre Osmundo, um barbeiro que sempre foi o reco-reco do bloco; “Escuta Levino”, que homenageava o compositor Levino Ferreira; entre vários outros. O refrão do “Hino do Batutas” acabaria traduzindo a essência do Carnaval de rua de Olinda e Recife: ” Deixe o frevo rolar / Eu só quero saber, se você vai brincar/ Ah! Meu bem sem você não há carnaval/ Vamos cair no passo e a vida gozar. (grifo nosso)

“Último Regresso”
[Getúlio Cavalcanti]

Saudade é matéria prima para a construção de grande parte dos frevos. A sua quintessência pode ser percebida em “Último Regresso”, uma das músicas mais famosas do compositor Getúlio Cavalcanti. Conhecido como cantor da extinta TV Rádio Clube, ele é também autor de “Boi Castanho”, outro sucesso. “Último Regresso” também é bairrista como todo bom pernambucano, como fica claro nos versos “É lindo ver o dia amanhecer / Com violões e pastorinhas mil / Dizendo bem / Que o Recife tem / O carnaval melhor do meu Brasil. Quem vai duvidar?

“Três da Tarde”
[Lídio Macacão]

Também chamado de Conde de Guadalupe, mas nascido Lídio Francisco da Silva, Lídio Macacão é o mais famoso compositor de frevos olindense. Ele é autor de diversas músicas, entre elas, “Campeão de 26”, feito para o bloco Vassourinhas de Olinda. “Música, Mulheres e Flores” acabou se tornando o clássico-mor do Carnaval das ladeiras da Cidade Alta. É dele também “Música, Mulheres e Flores”. Morreu em 1961, tempo insuficiente para aproveitar os louros da sua importância para o Carnaval de Pernambuco.

“Olinda Nº 2 (Hino do Elefante)”
[Clídio Nigro e Clóvis Vieira]

Este é o mais famoso frevo de Olinda de todos os tempos. Ponto. Se duvida, basta ler os versos a seguir para a música aparecer na sua cabeça: “Ao som dos clarins de Momo / O povo aclama com todo ardor / O elefante exaltando as suas tradições / E também seu esplendor / Olinda, este meu canto / Foi inspirado em teu louvor…. Nigro escreveu ainda outros frevos famosos como “Banho de Conde” e “Marim dos Caetés”, em parceria com Fernando Neto.

“Bate-Bate Com Doce”
[Alex Caldas]

O olindense Alex Caldas entrou para a história com esse hino do bloco Pitombeira dos Quatro Cantos. Fundada em 1947, a troça inovou por trazer participantes que desfilavam sem camisa, segurando apenas galhos de pitombeira, “fruta besta”, vendida por qualquer tostão em todas as feiras (é assim até hoje). Era um claro contraponto às ricas fantasia e ornamentos de muitos blocos e troças, sobretudo o igualmente antigo Elefante. Com o tempo a proposta se perdeu e hoje o bloco é uma das agremiações mais icônicas das ladeiras e desfila com ricas fantasias e estandarte. A letra, no entanto, ainda celebra o básico do Carnaval, que é um bando de malucos afim de se divertir. “Nós somos da Pitombeira / Não brincamos muito mal / Se a turma não saísse / Não havia carnaval.”

“Evocação Nº 1”
[Nelson Ferreira]

Nelson Ferreira, chamado carinhosamento de Moreno Bom, foi um dos mais importantes compositores populares do Brasil. E entrou para a história por ter sido o primeiro a registrar em disco um frevo, “Borboleta Não é Ave”, gravado ainda em ritmo de samba, na Odeon, em 1924. Mas ele entraria dentro do imaginário popular com sua música “Evocação Nº 1”, onde rememora nomes conhecidos da cena cultural à sua época, além de agremiações como o Bloco das Flores. A música também registra o sentimento do Carnaval de rua, que segue praticamente intocável até hoje. Sua contribuição para a cultura pop pode ser percebida também por seu ativo envolvimento como maestro, compositor e maestro. Ele é tido como um dos responsáveis por levar o frevo para as diversas camadas sociais.

“Madeira Que Cupim Não Rói”
[Capiba]

Capiba (nascido Lourenço da Fonseca Barbosa) é o mais famoso compositor de frevos do Brasil. Mas isso você já sabe. O que talvez não saiba é que o artista de Surubim começou a carreira em uma banda de jazz, a Jazz Band Acadêmica, em 1931. Versátil, Capiba escreveu para vários estilos, mas acabou ficando famoso por seus frevos. “Madeira Que Cupim Não Rói”, de 1964, tornou-se a faixa mais tocada em todos os carnavais desde então e foi feita para o bloco Madeira do Rosarinho, da Zona Norte do Recife. É também uma evocação do próprio Recife e de sua cultura. A tal madeira indestrutível é uma alegoria do próprio carnaval pernambucano até hoje impassível a intervenções que modifiquem sua essência.

Fontes: Fundação Joaquim Nabuco, blog Frevo.com e o livro Nelson Ferreira – O Dono da Música, de Ângela Belfort.

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