AS TARAS DO GÊNIO
Depois de passagem controversa por Paraty, Robert Crumb tem livro lançado pela Conrad em que esmiuça sua relação com o sexo oposto

Por Paulo Floro*
Editor da Revista O Grito!

Dentes grandes, ventre avantajado, nádegas firmes, coxas grossas e pernas musculosas. Essa mulher ideal povoa as fantasias e taras de cartunista e quadrinhista Robert Crumb, que tem novo livro lançado no Brasil, Meus Problemas Com As Mulheres (Conrad). A obra não é propriamente um trabalho inédito, mas pode-se dizer que é uma espécie de “obra de formação” do autor, que tem um jeito bastante característico de desenhar o sexo oposto. Crumb esteve em Paraty neste mês de agosto, onde participou da Flip. Acompanhado de sua mulher, a também desenhista Aline, ele não lembra nem de longe o ousado e controverso artista que várias vezes foi acusado de misógino.

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Mas é nisso que reside a relevância (e beleza) de Crumb. Se hoje este autor americano recebe convites para conferências literárias, antes tinha o nome associado a quadrinhos sujos da contracultura, produtos que não tinham lugar em lares de famílias direitas. Atualmente, ele conserva apenas a fanfarronice daqueles tempos. Morando na França, Crumb vive recluso em suas fantasias, enfurnado em sua coleção de discos. Mas sua obra precede seu nome e ainda continua a causar polêmica. A reportagem da Revista O Grito! o encontrou em um bar nas ruas de Paraty, no início deste mês. Antipático, ele ainda foi bastante criticado em sua palestra, onde dizia não entender o fatos dos quadrinhos estarem nos museus hoje em dia.

Reverenciado por velhas e novas gerações de leitores, Crumb parece inquieto com essa faixa de segurança e notoriedade que vive hoje sua obra. Títulos como Minha Vida e o recente Gênesis figuram entre aquelas obras de quadrinhos que tem passe livre para frequentar prateleiras ao lado da literatura mais “tradicional”. Contestador, Crumb construiu seu sucesso em algo oposto a isso.

Se o establishment o adotou, esse Meus Problemas Com As Mulheres lembram que o porque Crumb vai causar choque.

Tara e culpa
Esta edição é uma coletânea do que melhor Crumb publicou sobre seu tema preferido, as mulheres. Parte já foi lançado no Brasil em 1990, pela L&PM com o título “Minhas Mulheres”. São quadrinhos feitos entre 1960 e 1990, onde o autor escreve sobre suas fontes de desejo, mulheres gigantes, propositadamente desproporcionais, lascivas e muitas, tão lascivas quanto estúpidas.

O porte físico das mulheres crumbeanas já deu origem a diversas teorias. A mais recorrente é que a culpa católica do autor, causada pela educação rigorosa tenha ocasionado esse tipo de obsessão. Em uma passagem da obra, ele conta detalhes de seu colegial, quando encarnava o típico loser norte-americano ignorado pelas garotas e repudiado pelos ‘machos-alfa’. A espiral de sexo para dar vazão às taras bizarras só vieram nos anos 1960, quando no embalo das viagens de LSD passou a ser popular entre as hippies que viviam em comunidades ou estudantes universitárias louconas.

Olhando em perspectiva, a obra de Crumb fala diretamente sobre àquela juventude, vendo com cinismo um dos períodos mais politizados do mundo ocidental. Também é sua contribuição à contracultura e aos quadrinhos underground, ainda que com o tempo tenha se tornado sinônimo desse gênero. No mundo politicamente correto de hoje, Crumb seria enxotado, caso não estivesse com o aval literário conquistado pelos quadrinhos de forma geral. Passagens dessa HQ são de fazer cair o queixo de feministas.

Uma delas mostra como seria o mundo de Crumb se fosse rei, quando as mulheres tentam forçar uma insurgência para depois serem derrotadas e cederem aos caprichos bizarros do monarca. Outra sugere pedofilia ao mostrar uma criança amedrontada sob os olhares de desejo de um homem espreitando na porta. Os destaques do livro são as pin-ups, estudos de desenhos, cartuns e ilustrações que Crumb fez nas últimas décadas, que mostram um lado pouco conhecido do criador de Zap Comix e outras obras mais “sujas”.

Ele faz desenhos das mulheres que se interessa, tem relações ou simplesmente deseja. Algumas sugerem um lado mais sentimental, mas o momento é breve. Só a mente de alguém como Crumb poderia retratar sua própria mulher em momentos tão diferentes. Recebendo sexo oral, em uma HQ em que ela o apresenta a outras mulheres e em uma ilustração mostrando suas pernas. A história de abertura que mostra o que deixa Crumb feliz mostra a genialidade do autor em brincar com sua fama de ranzinza.

Depois de retomar os lançamentos do autor com Gênesis, a Conrad promete mais obras para breve, incluindo HQs inéditas do Brasil de sua mulher Aline Crumb, que acompanhou o marido em sua recente passagem pelo Brasil.

* Com reportagem de Fernando de Albuquerque, enviado especial a Paraty (RJ)

MEUS PROBLEMAS COM AS MULHERES
Robert Crumb (texto e arte)
[Conrad, 106 páginas, R$ 49,90]

NOTA: 7,0

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