O suor nas mãos, o arrepio na nuca, a tensão no olhar. Esse conjunto de reações tão biológicas são acompanhadas da surpresa, depois negação, que resulta, finalmente, na entrega completa. Passo a passo do ideário romântico do primeiro amor está instalado, ponta a ponta, no filme Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me By Your Name). A obra cinematográfica do italiano Luca Guadagnino tem inspiração no livro de mesmo nome de André Aciman e fisga o espectador pelas boas lembranças que evoca. A produção foi exibida no primeiro dia do festival Janela Internacional de Cinema do Recife, no Cine São Luiz, nesta sexta (3).

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São nas coisas corriqueiras que a paixão vai se alicerçando. Elio Perlman (interpretado com nuance e profundidade por Timothée Chalamet) é um jovem de 17 anos que passa os verões na casa de campo da família, no norte da Itália. Seu pai, um professor universitário estudioso da cultura grega, recebe todos os anos um jovem doutorando para lhe ajudar nas pesquisas. É quando entra em cena o Oliver (Armie Harmmer, aqui em seu melhor papel), norte-americano de 24 anos que chega para iniciar os estudos.

O primeiro olhar, sorrateiro, de relance, desinteressado, a espera à mesa, a companhia para o retorno para casa. Elio não aguenta de furor ao primeiro toque de Oliver durante um jogo de vôlei e corre para o refúgio dos pais. Elio não aguenta de curiosidade e corre para o quarto contíguo para vê-lo dormir. Novamente ele corre atrás de Oliver até a cidade e aguarda calmamente o leve e alto antropólogo ir até a loja local e reclamar das novas “páginas digitadas”.

“A metáfora da água do rio, não diz respeito à mudança contínua, mas sim àquilo que permanece o mesmo diante de tantas mudanças”, a frase de Oliver desatina Elio. O tempo todo o norte americano fala do significado da paixão e do amor que a juventude de Elio nega a qualquer custo. Por não saber lidar, por nunca ter sentido tanto furor e pelo medo da perda que circunda os sentimentos mais belos.

Sr. Perlman consola o filho, como quase nenhum pai no mundo já o fez. Pede que ele não mate o amor que sente no peito, que continue acalentando aquele sentimento, cuidando com carinho daquilo que foram. “Eu nunca cheguei perto de sentir isso”, dispara Sr. Perlman. Oliver sempre terá um lugar marcado no peito de Elio. Aconteça o que acontecer. Elio sempre será uma promessa de amor incondicional dentro da consciência de Oliver, mesmo que as circunstâncias os levem para caminhos totalmente opostos. A certeza da permanência no peito é que vale. Sem cobranças, sem rancor, sem as coisas comezinhas que acabam assolando os encontros meramente carnais.

Mas vamos ao filme. O norte da Itália e toda sua paisagem verdejante é o pano de fundo para Me Chame Pelo Seu Nome. A sinopse é simples: de férias com os pais na casa de campo, Elio Perlman, conhece Oliver, ex-aluno e amigo de seus pais, apaixona-se, entrelaça-se. A história nos conta o primeiro amor de um homem. O significado do paixão que Guadagnino nos lança a contemplar está deitado na tripé desejo, satisfação e beleza, demonstrado ao longo do filme, mas não nesta mesma ordem.

Elio acorda acometido pela recepção calorosa que seu pai dá ao ex-aluno e colega de pesquisa Oliver. Fitando a cena da janela a câmera passa pelos braços e corpo fino de Elio. Trajando um short azul e uma camisa magenta, ele nada mais é que um homem em formação.

A câmera deriva e vemos Oliver de camisa azul celeste, óculos escuros, bermuda, cinto caramelo, olhar penetrante e eloquência. A antítese de Elio. A camisa aberta deixa pelos e a estrela de Davi saltarem de seu busto. A sequência destaca a vontade de pobreza (Elio) ao encontrar recurso (Oliver), sintetizando o conceito de desejo que devemos seguir, colocando espectador de pés bem fundos na filosofia platônica e aristotélica. A sequência de abertura só reafirma as pistas da abertura do filme: uma série de fotogramas de esculturas neoclássicas tomam conta do pano de fundo dos créditos.

Ao espectador que tem alguma dúvida sobre onde se deve colocar os pés, Oliver dispara: “Eu tenho 1,85 e peso 100 quilos”.” A frase em que Oliver se gaba diante de Marzia e suas amigas, jovens adolescentes da localidade, é direcionada diretamente para Elio, que do alto de seu corpo franzino, vê que só cabe desejo e vontade de ter e estar com aquele que capitaliza um atletismo quase perfeito. Pobreza atesta que já não poderá seguir em frente sem recurso.

Recurso é condição sine qua non para pobreza que num ímpeto de desqualificá-lo, zomba do linguajar, se desinteressa e se distância. Troca de lugares. Impede o contato, mas finalmente colapsa. “Later”, ele ouve dizer. É como se Oliver não estivesse em lugar algum. É a deixa para que pobreza faça uso de recurso.

Se Oliver é fonte de desejo para Elio, este é o campo de satisfação para o primeiro. “O que tem para se fazer por aqui no verão”? pergunta para Elio, que responde “Esperar o verão acabar”. Mas Oliver não é homem de esperar, sobe na bicicleta e foge para a cidade. No café da manhã sua pressa estraga o ovo mollet e dispara: “Eu me conheço, se como o primeiro, já quero o segundo e o terceiro”. Oliver apresenta-se, assim, como um verdadeiro discípulo de Epícuro em busca constante da “aponia”, o ápice do prazer. E não pára.

Em quase todas as cenas Oliver está indo para algum lugar, sempre com pressa, fazendo tudo ao mesmo tempo. Ele joga vôlei e oferece massagem. Ele dança e beija. Joga cartas, lê, distingue peças romanas das helenísticas. Se em Epícuro a amizade é o um dos principais prazeres, a casa antiga rodeada de paisagens de tirar o fôlego é o “jardim” perfeito para as satisfações de Oliver que está rodeado pelo prazer do sábio, a quietude da mente do Sr. Perlman e o domínio das emoções simbolizados pela mãe de Elio. Mas a satisfação de Oliver não está completa. Falta o prazer do corpo. O único prazer viável. Elio é o seu salvo-conduto para a satisfação.

Se em Epícuro o prazer primeiro é o do corpo e se o saber do espírito nada mais é do que reminiscência do prazer corpóreo, a satisfação de Oliver está incompleta. Se o espírito abunda na descoberta de uma escultura em um navio há séculos habitante do fundo do mar, se na biblioteca é possível catalogar peças há pouco descobertas, seu corpo carece de satisfação e de prazer. Em uma das sequências, Oliver faz um boquete em Elio só para confirmar se seu objeto ainda está ali, guardado. E confirma a síntese da existência de sua alma com a ereção de seu parceiro.

Outro tema recorrente na obra de Guadagnino é a beleza, cujo conceito está bem fundamentado na beleza aristotélica, em que o belo produz catarse, purificação da alma e das ideias, produzida somente na tragédia. Tal acepção fica clara quando Elio possuído por um desejo dissoluto come o pêssego, espalha o caldo sobre seu corpo e seu pênis. Masturba-se com o fruta fincada em seu falo. Se para Aristóteles a beleza causa catarse, o pêssego que permite Elio chegar ao prazer máximo pensando em seu amado é a consubstanciação da complexidade dos sentimentos que estava acometido. Simboliza a contradição de seus desejos furiosamente saciados.

A beleza e a suculência do pêssego desfigurado pela volúpia de Elio é a promessa iminente de decadência do seu amor que na cena seguinte já está de partida.

Na viagem que fizeram juntos Elio e Oliver se completam. Ímpeto e harmonia contemplando a beleza de uma queda d’água, revistando as coisas que nunca mudam, mesmo estando diferentes. Assim é o amor dos dois. Sempre existirá, apesar de tudo. Elio ama Oliver, mesmo sabendo que ele se casará. Os pais de Elio estão felizes, mesmo sabendo que o telefonema de Oliver pode ser a ruína de Elio.

A narrativa paternal saúda a necessidade de sentirmos tudo como devidamente deve ser sentido: “Nós arrancamos muito de nós mesmos para sermos curados das coisas mais rápido do que devemos que estamos falidos aos 30″ e emenda com: “But to feel nothing is not to feel anything — what a waste.” Elio aceita. Sempre amará Oliver, apesar de tudo.

O filme encerra com a mesa sendo posta, Elio chorando, sorrindo, sentindo em frente a lareira da sala sob o som de “Visions of Gideon”. Gideão, o guerreiro, o libertador de Israel, o trabalhador, um homem exemplo de fé e perseverança, homem que libertou os filhos de Israel dos nômades árabes que haviam invadido o sul da palestina. Talvez uma poderosa mensagem de que só é possível dar cabo num conflito com o amor mais puro e sincero entre iguais.

No mais, Me Chame Pelo Seu Nome chega a ser meio ascético. O roteirista do filme, James Ivory, chegou a reclamar da falta de nudez frontal, do tom pudico do sexo. Além disso, todos os personagens são brancos, ricos, usando roupas esvoaçantes, peles alabastrinas e bem hidratadas. Todos presos em um lugar onde a sensualidade abunda, o vinho nunca acaba, a compreensão é sempre premente, a consciência está sempre cheia de riquezas intelectuais. Algum lugar na Itália onde a imagem do “Dulce” é apenas uma alegoria na casa de senhorinhas caricatas, e falar de política é coisa para gente histriônica.

ME CHAME PELO SEU NOME
de Luca Guadagnino
[Call Me By Your Name, FRA/ITA/EUA/BRA, 2017]
Com Thimothée Calamet, Armie Hammer

Estreia comercial no Brasil marcada para dia 18 de janeiro.

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