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Um assunto importante para a cena de quadrinhos tomou forma enquanto estávamos em um pequeno recesso de final de ano. Instigado pelo quadrinhista Wagner Willian foi iniciada a campanha pela inclusão da categoria “quadrinhos” no Prêmio Jabuti, autoproclamado como “o mais tradicional prêmio do livro no Brasil”. Até o momento um abaixo-assinado na plataforma Change.org mais de 1.900 assinaturas em poucos dias.

Escrito por Willian em parceria com Ramon Vitral (do Vitralizado) e o tradutor Érico Assis, o abaixo-assinado destaca a aquecido e pujante produção de quadrinhos brasileiros no Brasil hoje. “A melhor comprovação que temos desta pujança está nas premiações que começam a aparecer para livros em quadrinhos brasileiros no exterior”, diz o texto. É o caso de Dois Irmãos, de Fábio Moon e Gabriel Bá, contemplado no Harvey Awards e no Eisner Awards, ambos dos EUA e Tungstênio, de Marcello Quintanilha, que ganhou prêmio em Angoulême, na França.

Hoje, dos dez maiores grupos editoriais do Brasil, nove publicaram quadrinhos nesta década, sendo que quatro possuem selos dedicados exclusivamente a essa arte. O fato é que, ainda que no Brasil as HQs sempre estivessem ligadas às bancas de jornais, nunca se viu tanto quadrinhos nas livrarias como agora. Basta entrar em sites como PublishNews e Amazon e ver a lista dos mais vendidos: sempre tem uma HQ no meio. Além disso os quadrinhos são publicados no formato livro desde o início do século 20.

Criado em 1958 e organizado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), o Jabuti tem uma relação errática com o segmento. Já premiou quadrinhos em categorias como “Didático e Paradidático”, “Adaptação” e “Ilustração”, ignorando todos os elementos artísticos que são próprios da linguagem das HQs. E em 2015 homenageou o mais famoso quadrinhista do país, Maurício de Sousa.

O pedido para inclusão dos quadrinhos no Jabuti tem um aspecto bem prático, quase pragmático. Ainda que exista um debate infrutífero sobre se HQs são ou não literatura, o fato é que não podemos negar que se tratam de livros. “Não é uma questão de legitimar as HQs enquanto literatura, e sim enquanto livro. O Jabuti refere-se ao livro: ‘O maior diferencial em relação a outros prêmios de literatura é a sua abrangência: além de valorizar escritores o prêmio destaca a qualidade do trabalho de todas as áreas envolvidas na criação e produção de um livro'”, me explicou Wagner Willian, um dos responsáveis pelo abaixo-assinado.

Em seu regulamento atual, o Jabuti considera como livro uma “obra intelectual impressa e publicada, com ISBN e ficha catalográfica, impressos no livro.” Baseado nisso o prêmio tem hoje categorias como “Arquitetura e Urbanismo, Artes e Fotografia”, “Direito”, “Gastronomia” e “Reportagem e Documentário”. Para esses, claro, nunca houve debate sobre ser ou não ser literatura, etc.

Trecho de "Bulldogma": quadrinhos são "quadrinhos" e não só "ilustração".

Trecho de “Bulldogma”: quadrinhos são “quadrinhos” e não só “ilustração”.

Mas qual a importância do Jabuti para os quadrinhos? “Para o mercado editorial, o Prêmio Jabuti tem imensa importância nacional e internacionalmente. A carta surgiu para dar peso a essa importância frente à CBL. O reconhecimento do Jabuti será a confirmação de como esse mercado mudou nos últimos anos, de como as narrativas visuais cresceram não apenas em número, mas em relevância artística”, diz Wagner.

Quadrinhos como o de Wagner Willian, autor de Bulldogma, e de nomes como Laerte Coutinho, os já citados Bá e Moon, LoveLove6, Bianca Pinheiro, Marcelo D’Salete e muitos outros, mostram que a linguagem dos quadrinhos tem um valor artístico que não cabe em nenhuma categoria “improvisada”. Basta dar uma olhada em nossa lista de melhores quadrinhos do ano, que mistura obras estrangeiras e brasileiras, para ver como a produção está diversificada e forte. Quadrinhos são quadrinhos e isso é ótimo. Além disso, a inclusão das HQs no Jabuti trará ainda mais relevância ao prêmio, que agora se conecta com uma produção rica e de apelo internacional.

A repercussão da campanha está superando expectativas. E tudo começou com uma conversa no Facebook iniciada por Wagner ainda no finalzinho de 2016. “Nunca fiz nada parecido. Não sei julgar se isso é muito ou pouco. Só sei que para mim está sendo foda ver tanta gente assinando, compartilhando e divulgando como você agora. Cada esforço desse é uma braçada em direção ao lugar onde a nona arte pode se despir de qualquer preconceito e irradiar por toda a orla a beleza que lhe convém.
Espero que a gente consiga”, disse. “E alguma coisa me diz que este é só o começo.”

O que temos até aqui

Em contato por e-mail com a assessoria do Prêmio Jabuti recebi o seguinte comunicado assinado por Luís Antonio Torelli, presidente da Câmara Brasileira do Livro: “O Prêmio Jabuti nasceu em 1958, com apenas duas categorias (melhor autor e editora do ano), e seguiu crescendo e se consolidando como o mais tradicional prêmio do livro no Brasil. Hoje, já contamos com 27 categorias, além da escolha dos livros do ano de ficção e não-ficção. Receber um pedido como esse, para incluirmos HQs no Jabuti, comprova a importância do prêmio para todo o mercado editorial. No decorrer dos anos novas categorias foram contempladas e não descartamos a criação de “História em quadrinhos” como uma delas. A CBL receberá com muito carinho este pedido e encaminhará para a curadoria do prêmio.”

É, sem dúvida, uma resposta positiva e de certa forma um reconhecimento para a produção nacional.

Além disso a carta ganhou atenção até mesmo fora dos círculos tradicionais da cobertura de quadrinhos, com matérias na Folha de S. Paulo, Publishnews, OGlobo, entre outros. O blog Página Cinco, do UOL, entrevistou vencedores do Jabuti sobre quais quadrinhistas merecem ser indicados ao prêmio. As expectativas são boas e acredito que 2017 seja um ano ainda mais interessante para os quadrinhos nacionais.

Veja abaixo a carta aberta na íntegra e clique aqui para assinar:

CARTA ABERTA DE QUADRINISTAS BRASILEIROS PROPONDO A INCLUSÃO DA CATEGORIA ‘QUADRINHOS’ NO PRÊMIO JABUTI 2017

“Criado em 1958, o Jabuti é o mais tradicional prêmio do livro no Brasil.”

A frase acima é encontrada no website do próprio Prêmio Jabuti. Como profissionais atuantes no mercado editorial, reconhecemos e subscrevemos: o Jabuti é, indubitavelmente, o mais tradicional prêmio do livro no Brasil.

Em seus 59 anos de história, vimos o Prêmio Jabuti criar categorias para contemplar segmentos diversos do mundo editorial. Na configuração atual, o Prêmio inclui categorias como “Arquitetura, Urbanismo, Artes e Fotografia”, “Didático e Paradidático”, “Direito”, “Gastronomia” e “Reportagem e Documentário” – focadas e devidamente regulamentadas para inscrição e premiação de livros exclusivos destes segmentos. As categorias, a nosso ver, respeitam a expansão constante do mercado editorial brasileiro.

Neste sentido, o propósito desta carta é realizar uma solicitação: A criação da categoria Quadrinhos no Prêmio Jabuti em 2017.

Embora tenham nascido nos jornais e tenham permanecido grande parte de sua história nas bancas de jornais e revistas, os quadrinhos são publicados no formato livro, no Brasil, desde o início do século 20. De coletâneas de tiras de jornal até reproduções de álbuns estrangeiros, os quadrinhos estiveram presentes nas livrarias brasileiras, mesmo que em grau reduzido, ao longo do século passado.

Neste século 21, não se pode mais falar “em grau reduzido”. Basta entrar em qualquer livraria física de médio a grande porte, ou nas livrarias digitais, e identificar que todas possuem seções dedicadas aos quadrinhos.

Dos dez maiores grupos editoriais no Brasil(1), nove publicaram quadrinhos na década corrente – e quatro possuem selos exclusivamente dedicados ao segmento(2). Há editoras de pequeno a grande porte exclusivamente dedicadas a quadrinhos(3). Quadrinhos aparecem com regularidade em Listas de Mais Vendidos (categoria Geral) como a do website PublishNews, assim como em resenhas em jornais e revistas nos seus cadernos de literatura. Livrarias já empreendem categorização interna e necessária ao segmento, classificando os quadrinhos em “autobiográficos”, “super-heróis”, “humor”, “infantis”, “adaptações literárias” e outras rotulações.

Como o Prêmio Jabuti enfoca a produção editorial nacional, cabe lembrar que – a exemplo do restante do mercado editorial brasileiro – boa parte das publicações de quadrinhos no Brasil é de material estrangeiro. Contudo, a proporção de material nacional, produzido por quadrinistas brasileiros, é pujante e crescente. A melhor comprovação que temos desta pujança está nas premiações que começam a aparecer para livros em quadrinhos brasileiros no exterior(4).

Independente de todos estes fatores, os livros em quadrinhos já satisfazem a regra do Prêmio Jabuti do que define um livro, conforme o regulamento geral da premiação: “considera-se livro obra intelectual impressa e publicada, com ISBN e ficha catalográfica, impressos no livro.”

O Prêmio Jabuti inclusive já elencou e premiou quadrinhos em categorias como “Didático e Paradidático”, “Adaptação” e “Ilustração”. Em 2015, o Prêmio homenageou o mais famoso quadrinista nacional, Maurício de Sousa.

No entanto, quadrinhos são uma forma de expressão artística com linguagem e histórico próprios. Com base nisto e em todos os argumentos de relevância artística e mercadológica apresentados acima é que reiteramos nossa solicitação:

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