A performance Retomada conecta os rituais ancestrais às lutas do presente

Está em cartaz no Teatro Arraial, até o dia 27 de maio, mais um trabalho do Grupo Totem. O coletivo teatral desta vez nos apresenta a performance Retomada, fruto de extensa pesquisa realizada junto aos índios Pankarurus, Xucurus e Kapinawás, resgatando, desses povos, rituais que representam a sacralidade das terras indígenas.

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Na trajetória do Totem, os temas ligados às forças da natureza e às raízes telúricas do ser humano sempre foram destaque e com esse novo espetáculo, percebe-se a maturidade da trupe liderada pelo encenador Fred Nascimento. Retomada é marcada pela delicadeza, pela força e por uma perfeita harmonia entre o desempenho das performers, as coreografias, os elementos plásticos e visuais e a música, executada ao vivo.

Segundo Fred, a cena ritual criada pelo grupo, não representa ou reproduz rituais vividos nas aldeias. “Através do teatro performático manifestamos nossa identificação com o sentimento de resistência dos povos indígenas. Sendo este um ato ritual único, onde os corpos entoam a força coletiva e invocam as vozes silenciadas nas páginas do tempo”, afirma.

A performance reflete esse sentimento, colocando apenas mulheres em cena, realizando uma ode à mãe geradora e mantenedora de tudo e fazendo delas espíritos aguerridos que defendem o espaço sagrado pelo qual esses povos lutam. As coreografias tem elementos das danças dos índios, mas estabelece uma ponte entre as forças ancestrais e uma energia que se concretiza no presente.

Todo o trabalho tem uma forte carga simbólica. Os cantos e gestos evocam uma paisagem real e ao mesmo tempo imaginária e buscam estabelecer um diálogo com a plateia para mostrar o sentido de pertencimento e o direito ao bem comum de uma população constantemente ameaçada pela invasão e roubo de suas terras. A bela performance construída pelo Totem faz do encantamento dos rituais indígenas um ato de luta, algo muito necessário nesses tempos sombrios.

Apresentação do grupo no último festival Trema. Foto de Alexandre Figueirôa.

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