Grupo recifense traz elementos da ancestralidade e religiões africanas em suas peças e tornou-se espaço de resistência negra. Mas luta contra a falta de investimentos

Os grupos teatrais nos últimos anos vêm resistindo em meio ao tempo, às transformações e inovações. O Poste Soluções Luminosas, composto por Samuel Santos, Naná Sodré e Agrinez Melo – iluminadores e formados em artes cênicas na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), é um desses exemplos. O trio mantém um espaço de fomento cultural e, sobretudo, de afirmação das matrizes africanas em um prédio localizado na Rua da Aurora, bairro da Boa Vista, no Recife.

O grupo existe desde 2004, com o trabalho de pesquisa em iluminação cênica – arte, técnica e ciência de projetar a implementação de fontes de luz, a sua focagem, temperatura de cor e respectiva intensidade ao longo dos espetáculos de teatro. No ano de 2009, com a chegada do ator Samuel Santos, O Poste passa a desenvolver atividades mais cênicas, essencialmente artísticas. De lá para cá, após entrada e saída de outros integrantes, em 2014, o grupo conquista uma sede. “O ambiente físico surgiu da vontade que a gente tinha de ter quatro paredes para exercitar as nossas atividades e pesquisas”, afirmou Naná. “Antes utilizávamos o espaço de outros grupos de teatro, mas eles foram se fortalecendo e, a partir daí, ficou difícil ter uma parceria a longo prazo devido aos compromissos que eles tinham”, completou.

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“Nós precisávamos de um lugar grande para realizar espetáculos, fazer atividades corporais, discutir projetos e reuniões. Então chega uma hora que se você tem um grupo forte na cidade, institucionalizado, e está frutificando, é necessário concretizar por meio de um espaço onde você possa chamar de seu”, disse Agrinez Melo. Mas a conquista do local não se deu tão facilmente. Foi bem difícil encontrar um ambiente que pudesse desenvolver atividades teatrais. “Se for para teatro eu não quero. Porque vocês não vão conseguir me pagar, nos falavam”, relatou Naná. O grupo ficou durante dois meses entrando em contato com o proprietário do atual espaço.

Em setembro de 2014, O Poste Soluções Luminosas inaugurou o local, como atividade cultural, com o show da cantora Isaar e o monólogo tragicômico intitulado A Receita – interpretado por Naná Sodré, com direção de Samuel Santos. Depois de seis meses, o espaço começou a realizar as atividades com oficinas e aulas de teatro. Em pouco tempo, o local foi transformado em um espaço alternativo cênico rodeado por paletes, inclusive pregado nas paredes. O chão de cerâmica foi substituído por madeira naval, revestido também por paletes para dar sustentação. As três portas do espaço foram trocadas por uma material mais resistente e que desse um efeito acústico para isolar o som externo. Além disso, compraram e receberam refletores, mesa de luz e pedestais. Atualmente, o local conta com uma capacidade para receber 44 pessoas e 60 se os assentos estiveram no formato de círculo. Nesses últimos três anos, mais de 20 apresentações foram realizadas.

Samuel Santos, Naná Sodré e Agrinez Melo, de iluminadores a artistas de resistência. Foto: Ricardo Maciel.

Além das apresentações do grupo, o espaço recebe outros espetáculos. “Geralmente são companhias que nos procuram para fazer temporadas e descobriram que teatro não é feito só em palco. Tem muita gente pensando suas obras em outros conceitos. O Poste Soluções Luminosas é um lugar cultural que abarca todo tipo de arte”, diz Samuel Santos. Empresas também já realizaram parcerias com o grupo, como o Serviço Social do Comércio (SESC), que em 2015, por meio do Palco Giratório – projeto desenvolvido com o objetivo de difundir as artes cênicas brasileiras, promoveu um intercâmbio com o grupo Ninho de Teatro (CE).

“Já recebemos também presenças ilustres de grandes nomes do teatro mundial, como Eugênio Barba e Júlia Varley”, lembrou Naná. “O Poste é um espaço que em três anos já conquistou muitas coisas, que vem fomentando as artes cênicas no Recife e em Pernambuco”, concluiu.

Cena da peça A Receita: poucos negros em cena e na plateia. (Divulgação).

Negros em movimento

O grupo realiza um trabalho de pesquisa teatral voltado para as raízes africanas. Para Agrinez Melo, essa é uma necessidade da companhia de se conhecer, se afirmar e falar, de fato, sobre ela. “Um grupo formado por negros. Logo, fazemos questão de colocar o negro como protagonista de suas ações. Nenhuma equipe antes de nós tinha tido esse pensamento, nem colocado à questão da ancestralidade e da religião africana, que é culturalmente muito forte, em pauta”, afirmou. “Independente de falar das questões raciais, estamos em cena produzindo e levantando essa bandeira. Essa é a nossa identidade”, completou Agrinez. A partir da pesquisa, O Poste Soluções Luminosas realiza, além do teatro físico, as peças com um viés antropológico.

“Percebemos que a grande história é a questão da visibilidade, mas só agora que isso está sendo discutida. Os negros foram e são invisíveis. O nosso objetivo é tornar os negros visíveis, por isso mesmo, é importante afirmarmos que somos três negros”, justificou Naná. “Alguém tem que falar em algum momento sobre isso. É muito importante o grupo estar se apresentando e mantendo o espaço para resistir e dar voz aos negros”, concluiu Naná. Nas atividades desenvolvidas pelo grupo, eles contam que recebem poucos alunos negros e também atuando, assim como, na plateia assistindo aos espetáculos. “Somos convidadas ainda para interpretar um papel de doméstica no filme ou como a prostituta”, relatou Agrinez.

O trio também se define como “os negros em movimento”. Para eles, a partir do momento que um grupo direciona o seu trabalho, nesse momento ele está fazendo parte de um movimento. “As pessoas às vezes cometem um equívoco achando que em todos os espetáculos vamos fazer oferendas. No entanto, essas interpretações são signos que no momento da apresentação eles saltam. Se o público tiver um olhar mais apurado, percebe isso”, contou Naná.

Por defenderem uma estética e um conceito, as apresentações foram julgadas e banalizadas. “De um tempo para cá, fomos relevando as críticas. Hoje conseguimos perceber quem é que gosta da nossa proposta”, relatou Samuel. “Existe aqueles que gostam, frequentam, apoiam e colaboram ou mesmo, alguns que respeitam e já entenderam, mesmo com suas formações sincréticas e ideológicas, que o nosso trabalho tem um valor e um porquê”, completou.

“Percebemos que a grande história é a questão da visibilidade. Os negros foram e são invisíveis”

O espetáculo O Cordel do Amor Sem Fim é um exemplo do trabalho de pesquisa teatral realizado pelo grupo. A peça estreou em 2009, com direção de Samuel Santos e a montagem do texto de Claúdia Barral, contando a relação dos ancestrais, mitos brasileiros e africanos – o mesmo espetáculo vai em breve fazer temporada no Uruguai. Já a segunda peça aconteceu 5 anos depois, com Anjo Negro do escritor e jornalista Nelson Rodrigues, tratando mais uma vez da questão racial, onde os negros não se assumiam negros; passando uma temporada. Logo em seguida, o espetáculo “Umbela” foi montado, seguindo em cartaz com duas temporadas – texto apresentado em português e umbundu – língua angolana.

Para Samuel existe uma carência de representatividade nos grupos. “Não vemos no Recife textos africanos sendo montados. A verdade é que não se conhece autores africanos, como Manuel Rui, por exemplo. Apesar de não ser um texto de teatro, mas tem potencial para ser levado à cena”, afirmou.

Assim como a necessidade de reafirmar a cultura africana, o grupo sente a carência de investimentos. “A falta de incentivo público ou mesmo privado é a nossa principal dificuldade”, afirmou Naná. “O mercado não credibiliza muito as ações afirmativas culturais, sobretudo, o teatro”, completou. Para o trio, esse ano vai ser definitivo quanto ao futuro do espaço. “Vivemos de recursos oriundos de editais e com a circulação dos nossos espetáculos, oficinas e projetos individuais. Quando os recursos não são aprovados, ficamos com os pés e mãos atadas”, relatou Agrinez. “Manter o espaço só com os cursos que a gente oferece e os espetáculos não é suficiente”, concluiu.

Cena da pela Ombela: Grupo sente a carência de investimento. Foto: Thaís Lima.

Futuro do Poste

A última apresentação do grupo de Teatro O Poste Soluções Luminosas foi em dezembro do ano passado, desde então outros grupos têm se apresentado no espaço. Atualmente, eles estão escrevendo projetos para editais e realizando oficinas teatrais. Em maio o grupo vai participar de um festival em Aracaju, com as peças A Receita, Umbela, e A Partida, além de uma mesa que vai abordar o trabalho desenvolvido pelo grupo O Poste.

“Estamos planejando também criar a primeira Escola de Antropologia teatral da região, que funcionará durante 6 meses, duas vezes por semana, com aproximadamente 6 professores. A conclusão resultará na culminância de um espetáculo. “A nossa ideia é fazer a escola dentro da nossa estética, que aqui em Recife não existe. Os cursos de teatro eles abordam determinados períodos da história de teatro, dentro das aulas teóricas, de 1960 para cá, mas quando tratamos de um teatro mais contemporâneo, não tem. Essa iniciativa seria uma forma de unir uma vontade nossa com a oportunidade de manter o espaço”, explicou Samuel Santos.

Elementos da ancestralidade e religiões africanas estão presentes nos espetáculos. Foto: Thaís Lima.

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