A música popular brasileira hoje vive um momento importante de assumir corpos, pensamentos, posicionamentos e atitudes que confrontam uma ideia limitada de diversidade. Mas isso só acontece com muita resistência. Linn da Quebrada, de São Paulo, é um dos expoentes desse sacolejo conceitual que o pop BR vive. Bicha, preta, trans e periférica, ela constrói sua própria narrativa através de um som que une letras cadenciadas do rap e batidas pesadas do funk. Ela é uma das principais atrações do No Ar Coquetel Molotov, que acontece neste sábado (21), no Caxangá Golf Club.

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Linn acaba de lançar seu novo disco, Pajubá, sua estreia em um álbum cheio, que traz seus hits “Enviadescer”, “Bixa Travesty”, lançadas anteriormente e que ajudaram a viralizar a presença da cantora no cenário musical, além do novo single, “Bomba Pra Caralho”. É um disco com letras que trazem um ponto de vista silenciado por décadas e que agora chega com os dois pés na porta para ser ouvido (e celebrado). “Celebro a vida de todas que são iguais a mim e isso vem da nossa (r)existência, de construir novas narrativas pra nós mesmas. O posicionamento vem daí, dessa recusa de seguir a lógica de uma sociedade falocêntrica”, diz Linn.

Natural do ABC Paulista, Linn da Quebrada foi construindo sua carreira em apresentações nas periferias até ir conquistando novos espaços. Formada na Escola Livre de Teatro de Santo André, a MC estudou ballet clássico e dança contemporânea. Sempre esteve envolvida na militância LGBTQ+, sendo uma das responsáveis pela formação da da ONG ATRAVESSA (Associação de Travestis de Santo André). “Na minha quebrada eu encontrei minhas manas, bixas travestys e translesbixas que resistem diariamente para seguirem vivendo como são e gostam”, explica.

Batemos um papo rápido com Linn sobre sua vinda ao Recife.

Você se autodefine como bicha, preta, trans e periférica. Hoje a representatividade tem aparecido com mais força na música brasileira que em tempos recentes, me parece. Para você, qual a importância de se posicionar?
Na minha música este ‘se posicionar’ é inevitável. E não porque eu esteja cantando para apontar o dedo de alguém, mas justamente porque celebro a minha vida, o meu corpo. Um corpo negro, feminilizado, periférico. Celebro a vida de todas que são iguais a mim e isso vem da nossa (r)existência, de construir novas narrativas pra nós mesmas. O posicionamento vem daí, dessa recusa de seguir a lógica de uma sociedade falocêntrica e no lugar dar foco e potência total às mulheridades.

Ao mesmo tempo em que temos a liberdade de se posicionar, de dizer quem somos, existe hoje no Brasil um aumento muito grande de ataques reacionários, que muitas vezes parte para agressões físicas e psicológicas. Como você lida com isso? Já sofreu algum ataque mais sério desde que começou a atuar como artista?
Tudo que é diferente, assusta e incomoda. Mas, principalmente, tudo aquilo que não se curva diante a ereção ou a oração, isso incomoda ainda mais. Acho que essas questões todas elas ultrapassam a arte em si, porque a raiva, o ódio, vem a partir de quem não segue mais essas ideias. Isso é o que causa mais revolta, a criação de novas linguagens e possibilidades, que é o que busquei fazer em Pajubá.

Como homem branco e gay percebo que meu lugar é muitas vezes privilegiado em relação a pessoas negras e periféricas, ainda que eu sofra discriminação pela orientação. Mas falando da periferia, como foi construir sua persona artística na Zona Leste?
Na minha quebrada eu encontrei minhas manas, bixas travestys e translesbixas que resistem diariamente para seguirem vivendo como são e gostam. Foi na quebrada que encontrei tudo o que crio hoje em dia: as vivências cotidianas, a falta de afeto dos amores vividos pelos cantos, mas também o fortalecimento feminino entre todas que se sentem preteridas. Foi na quebrada que encontrei o funk. Por isso que sempre digo: minha música é feita da quebrada, para a quebrada. É pra ela que sempre volto todos os dias, até hoje.

Qual a memória mais recente de você querer trabalhar com música, se apresentar?
Na fase em que morei em Santo André [ABC Paulista], com minha tatá Liniker. Foi a ouvindo cantar, a vendo compor que eu senti que também queria isso, que também tinha muita coisa enlatada por aqui e que eu precisava tirar de mim de algum jeito.

Gênero e identidade é algo muito caro à sua música e vejo que existe um diálogo hoje na música popular brasileira de se falar sobre o assunto. Existe um diálogo entre você e artistas como Liniker, As Bahias, Rico Dalasam, etc?
Existe um diálogo no sentido de que estamos reinventando narrativas, tirando os boys da zona de conforto e colocando nossos corpos e essências feminilizadas em primeiro lugar.Estamos cantando nossas vidas a partir do nosso ponto de vista. Em termos de música somos diferentes e isso é ótimo: cada uma se encontrou num estilo específico, mas a mensagem, ela vem de vivências e sentimentos muito próximos.

Seu trabalho transita entre o funk e o rap. Você acha que sua música possa mudar algum entendimento (ou ideias pré-concebidas) sobre esses dois gêneros musicais?
Mudar o entendimento é algo muito complexo e grande, mas acho que minhas letras podem trazer mais ideias dentro do próprio funk, é ocupar mais um lugar de fala que até então não tínhamos.

Como foi o processo de produção deste seu primeiro álbum de estúdio?
Foi especial demais! Eu e minha gig passamos dias em estúdio criando, gravando, regravando. A direção musical da BadSista foi algo muito importante pra mim, ela me apresentou diversas possibilidades durante todo o processo. Reinventamos músicas já conhecidas e criamos algumas do zero, buscando musicalidades diferentes, do global gueto ao funk, misturando vogue, pagode…

Como é sua relação com as bandas e artistas da cena musical atual? Tem alguém com quem você sonha em trabalhar, colaborar ou mesmo conhecer?
Este ano conheci a Mulher do Fim do Mundo, Elza Soares, para um ensaio fotográfico. Sou muito fã dela, a admiro demais e sinto um imenso orgulho e respeito por viver e cantar na mesma época que ela. Foi muito especial pra mim.

Quais as expectativas de tocar no Coquetel Molotov? Vi que você foi um dos nomes mais comemorados nas redes sociais quando saiu a programação
Primeira vez em Recife, néam? As bixas daí devem estar tão ansiosas de me ver quanto eu estou para conhece-las. Me disseram que é uma cidade muito quente, Hellcife, como dizem. Adoro assim, porque faço show pra todo mundo sair com o corpinho suado, então se já faz calor, isso vai ficar melhor ainda.

Foto: Lucas Silvestre.

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