Da Revista O Grito!, em Nova York

Entre as artes visuais, o cinema, pela sua natureza, é a expressão que mais instiga o observador do espetáculo por ele produzido. Convida o espectador a se apropriar das narrativas nele contidas, dando asas às suas histórias pessoais e aos devaneios da imaginação. Mas, por isso mesmo, também pode ser, ao mesmo tempo, o que mais deixa o espectador preguiçoso, acomodado e satisfeito apenas em reverberar em si o que as imagens em movimento determinaram. Portanto, nada mais interessante e saudável do que nos deparamos com exposições do campo das artes plásticas que nos arrancam dessa relativa letargia proporcionada pelo cinema.

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E essa foi a sensação que experimentei diante de duas exposições, atualmente em cartaz no Metropolitan Museum of Art, de Nova York, Delirious: Art at the Limits of Reason 1950-1980 (Delirante: Arte nos Limites da Razão), coletânea com diversos artistas que, desencantados com o racionalismo opressivo do período, partiram para uma arte interessada no fantástico e nas experiências alucinatórias; e David Hockney, retrospectiva do artista inglês, cuja obra está ligada ao universo da pop-art e a uma sensibilidade queer irreverente e lúdica. Ambas, me fizeram mergulhar nos muitos caminhos percorridos pelas artes visuais na segunda metade do século 20 e vivenciar, a partir das imagens exibidas, as buscas empreendidas por esses artistas por novas formas de percepção do mundo.

Os anos pós-Segunda Guerra Mundial foram assolados pela agitação social e política e, por todo planeta, proliferaram conflitos militares. É um período também de industrialização, urbanização desenfreada e de produção em massa. A reação a esse contexto explodiu nos movimentos de contracultura, nas manifestações estudantis e encontrou eco nos muitos artistas que incorporaram em suas obras o absurdo, o nonsense, a desordem e a desorientação, reinventando os processos de criação e abrindo espaço para estados extremos da mente, das emoções e do corpo. Delirious reúne 63 artistas europeus, norte-americanos e sul-americanos que abraçaram a irracionalidade para criar suas obras e que nos dão um panorama bem representativo dessas rupturas.

Os artistas presentes na exposição – entre os quais os brasileiros Helio Oiticica, Lygia Clark, Ana Maria Maiolino, Darcílio Lima, Artur Barrios, Ivan Serpa e Abraham Palatnik – exploraram desde os efeitos alucinatórios das drogas psicodélicas até o potencial expressivo da ciência e da tecnologia para abominarem a ascensão do racionalismo e do culto da uniformidade e da eficiência, gerando obras que desorganizam as estruturas lógicas e desestabilizam o espaço e a percepção. Percorrer a exposição é compartilhar dessas experiências e sentir de perto como a arte pode espelhar uma sociedade desfeita pelo caos e pela injustiça e também nos conduzir ao limiar de um estado físico e emocional que revela as suas contradições.

A inquietação vivida pelos autores das obras nos impacta e nos faz pensar na vertigem provocada pelos acontecimentos no espírito desses criadores como vislumbramos em Criminal Being Executed (1964), de Paul Saul, onde ele condena explicitamente a loucura da sociedade americana, ou no vídeo In-Out Antropofagia da série Fotopoemas (1973-1974) de Ana Maiolino, com imagens de bocas de homens e mulheres, fazendo movimentos e caretas acompanhadas por ruídos como se fossem vozes estranguladas, referência à censura imposta pela ditadura militar no Brasil.

Essa angústia e o confronto com o irracionalismo pode também ser mensurado nas experiências com o peiote, mescalina e outras substâncias alucinógenas protagonizadas pelo americano Wallace Berman e visto em Semina 3 (1958), em Mescaline Drawing (1958), do francês Henri Michaux, e nas imagens do americano Bruce Cornan que ilustram o livro The Psychedelic Experience: a manual based on The Tibetan Book of the Dead (1972), de Timothy Leary, Ralph Metzner e Richard Alpert.

Mas, se os artistas incluídos na Delirious optaram por incorporar nos seus trabalhos o absurdo ou até mesmo a repetição para, nesse processo, provocar a desorientação, o britânico David Hockney, ao contrário, parte da ideia de desfrutar o mundo com otimismo e alegria. Seus quadros de cores vivas, com corpos bronzeados, piscinas de águas num azul cristalino, remetem a um universo sensorial de prazer para os olhos. Todavia, não devemos nos determos numa leitura superficial de sua obra. Sobretudo em sua fase inicial, nos anos 1960/1970, nos deparamos com um artista que rompe com os padrões vigentes sobre identidade sexual ao introduzir em seus quadros representações de sujeitos masculinos e amor homoerótico.

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Em Cleaning Teeth, Early Evening (1962), pintado numa época em que a felação entre homens era uma prática ilegal (na Inglaterra a descriminalização da homossexualidade só aconteceu em 1967), Hockney representa o ato de forma ousada e substitui a genitália masculina por tubos de creme dental. No período em que morou na Califórnia, fantasiou sobre a vida em Los Angeles e enquanto dava aulas de desenho na UCLA conheceu um jovem estudante de arte de quem se tornou companheiro inseparável e que foi retratado em quadros como The Room, Tarzana (1967) onde vemos um rapaz apenas de camiseta e meias deitado em uma cama.

Hockney fez ainda uma série de duplos retratos, inspiradas em fotografias tiradas por ele, com duas figuras em modos distintos, compartilhando o mesmo espaço. Em alguns desses quadros ele implementa a técnica de diluição da tinta acrílica em água e sabão para tornar a cor mais límpida como fez quando inclui piscinas nas pinturas, algo que pode ser visto, por exemplo, em Portrait of an Artist (Pool with two Figures) (1972). A partir da década de 1980, Hockney dedicou-se a pintar paisagens com referencias ao cubismo e à arte chinesa e hoje, aos 80 anos, continua trabalhando com pinturas desenvolvidas em suportes digitais.

Uma das mais conhecidas obras de Hockney: olhar queer inovador. (Foto: Alexandre Figueirôa/O Grito!).

O mundo hoje continua enfrentando transtornos políticos e o retorno de uma crescente cultura de guerra e do pensamento conservador. Olhar para esse passado nem tão distante sem dúvida nos leva a pensar na necessidade de restaurar o confronto com as forças dominantes e trilhar narrativas que desconcertem os poderes hegemônicos. A pintura de Hockney e o delírio dos artistas da contracultura podem ser ótimas fontes de inspiração.

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