Crítica: Moses Sumney e o desejo de se encontrar na solidão
NOTA8.5

A voz de Moses Sumney, cantor de R&B baseado em Los Angeles, é capaz de atingir diretamente corações solitários, desesperados, melancólicos, apaixonados. Sua capacidade de criar conexões é comparável a nomes como Nina Simone e Milton Nascimento (artistas dos quais é fã declarado). Aromanticism, seu álbum de estreia, traz canções que inspiram meditação, autorreflexão. Pode-se resumir que é um disco sobre a solidão, ou, talvez das dificuldades em se conectar com o outro.

Em “Doomed”, o single de estreia, ele questiona esse arquétipo do amor romântico, que é uma pressão enorme. As músicas, longe de levarem a uma tristeza, instigam um amor próprio, o reconhecimento de quem se encontra. É o mesmo sentimento percebido em “Preciso Me Encontrar”, de Cartola, em que ele traz um tom de despedida e isolamento em busca de uma descoberta necessário sobre si. Talvez Moses nunca tenha ouvido o sambista, mas ele absorve esse sentimento como poucos hoje na música. Uma de suas músicas, “Stoicism” é meio que uma carta de intenção. O estoicismo foi criado em Atenas, no período helênico, por Zenão de Cício, e pregava a fidelidade ao conhecimento desprezando os sentimentos externos como a paixão, a luxúria e outras emoções. Hoje é como chamamos as pessoas que não se deixam abalar facilmente.

Com uma voz que preenche diversas tonalidades, Moses traz ainda um instrumental cheio de detalhes, do dedilhado às orquestrações, passando pelas texturas eletrônicas. Com esse disco ele passa a fazer parte de um interessante movimento no pop hoje de artistas que desconstroem (e reinventam) o soul e o R&B, a exemplo de Frank Ocean, Benjamin Clementine, Kelela, FKA twigs, James Blake, Solange e muitos outros.

MOSES SUMNEY
Aromanticism
[Jagjaguwar, 2017]

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