Crítica: Les Amazones D'Afrique, potência sonora e política pelo fim da violência contra a mulher
NOTA8.5

Um combo de cantoras veteranas e novatas forma o Les Amazones D’Afrique, grupo formado este ano no Mali após um financiamento coletivo de enorme sucesso. A proposta do grupo foi bem objetiva e direta: cantar sobre a falta de representação feminina, as injustiças da África Ocidental ao mesmo tempo em que celebravam o mix potente de jazz, dub, pop, ritmos africanos tradicionais. O posicionamento político ao mesmo tempo que justifica a união dessas artistas serve de combustão para sua música cheia de força e urgência.

No coletivo estão nomes como Pamela Badjogo, Mariam Doumbia (do duo Amadou & Mariam), Angélique Kidko e Nneka, que já trilharam uma estrada própria de muito sucesso para além do oeste africano e artistas menos conhecidas por aqui, mas igualmente talentosas como Mouneissa Tandina, Rokia Koné, Mariam Koné, Kandia Kouyaté, Mamami Keïta, Massan Coulibaly e Madina N’Diaye. Ainda fez parte da formação original Oumou Sangaré, talvez a mais pop das cantoras malinesas hoje, mas ela decidiu não continuar com o projeto para se dedicar ao seu trabalho solo. Essa mistura de presenças ilustres da world music com nomes mais ligados ao cotidiano musical africano garantiu frescor ao som do grupo. Praticamente todas as músicas contam com uma percussão muito marcada, em geral complexas, além de guitarras pesadas, que são a base do pop africano do Mali e arredores. Isso sem falar do kora, tocado perfeitamente, instrumento símbolo da música do oeste africano composto de 21 cordas.

Com um senso de comunidade incrível, cada cantora tem seu momento de brilhar. Há espaço para vários estilos e vibes. “La Dame Et Ses Valises”, estrelada pela cantora nigeriana Nneka é marcada por uma batida bem malemolente, enquanto “Dombolo”, um hit desse disco, traz um batidão pesado com guitarras nas alturas e uma vocal feroz de Angelique Kidjo. “Anisokoma”, cantada por Rokia Koné e Kandia Kouyaté, é pura música das entranhas malinesas e tem uma aura cerimonialista que emociona. Em “I Play The Kora”, a maior parte do coletivo se mostra presente em uma faixa que é bem apelativa às pistas de dança.

A gênese do projeto se deu por um desejo de enaltecer o talento dessas incríveis cantoras, mas a base política garante um lastro histórico ao grupo. Formado inicialmente por Sangaré, Keïta e Doumbia, o grupo contou com a colaboração de Valerie Malot, uma agente francesa conhecera dos talentos africanos. Foi ela quem propôs a criação do combo feminino. Junto com a proposta musical veio a ideia de levantar fundos para a Fundação Panzi, que trata anualmente mais de 85 mil mulheres com problemas ginecológicos na República Democrática do Congo, a maior parte delas vítimas de violência sexual.

Parte das artistas do coletivo sabem de experiência própria as violências atrozes destinadas às mulheres na África e isso acaba ressoando com força nas músicas, com alcance universal. Sangaré viveu em casamentos poligâmicos forçados, enquanto outras atrizes conviveram com sistemas bem repressivos e desiguais nas questões de gênero. “A única maneira de formar um grupo como esse é através de uma causa, uma ideia. Queremos o fim da violência contra a mulher, não só no continente africano, mas em todo o mundo”, disse Malot em entrevista ao Guardian, quando da estreia do projeto na Inglaterra.

O nome do grupo busca uma força do passado para lembrar o tom combativo da música dessas artistas. Elas homenageiam as Amazonas Dahomey, mulheres guerreiras que existiram em Benin e protegiam limites africanos. É também uma lembrança para Les Amazones de Guinée, primeiro grupo de pop africano formado inteiramente por mulheres, da Guiné.

Política, tradição, pop inovador e batidas dançantes marcam essa estreia das Les Amazones D’Afrique, a melhor trilha para as lutas que ainda precisam ser vencidas.

LES AMAZONES D’AFRIQUE
République Amazone
[Real World Records, 2017]

Sem mais artigos