Crítica: Ibeyi exploram raízes afrocubanas em um segundo disco mais pop e político
NOTA8.5

IBEYI
Ash [XL, 2017]
Produzido por Richard Russell

Jazz, eletrônica, musicalidade africana e um irresistível apelo pop marcam o segundo trabalho das Ibeyi, dupla formada pelas irmãs gêmeas Lisa-Kainde e Naomi Diaz, 22 anos. É bem melhor que a estreia, homônima, de 2015. Agora elas exploram ainda mais a própria ancestralidade em um diálogo entrosado com um pop cosmopolita, inovador. Nomes atuais de diversas partes do mundo, como o saxofonista Kamasi Washington, a rapper espanhola Mala Rodríguez e o pianista canadense Chilly Gonzales colaboraram com as artistas.

Nascidas em Paris, as irmãs são filhas do percussionista cubano Miguel “Angá” Díaz, membro do Buena Vista Social Club e da cantora franco-venezuelana Maya Dagnino. Elas se mudaram para Cuba quando tinham apenas 2 anos mas retornaram à França aos 5, onde até hoje vivem. Lisa e Naomi continuaram visitando a ilha caribenha com frequência, onde passaram a estudar a fundo a cultura iorubá, seu folclore e musicalidade. Hoje elas cantam em inglês, francês, espanhol e iorubá.

Com apoio da mãe, que acabou atuando como empresária das filhas, elas chamaram atenção do selo inglês XL, onde lançaram a estreia homônima de 2015. Sua fã mais famosa, Beyoncé, as convidou para participar de Lemonade, seu disco-manifesto sobre negritude e feminismo. O nome, Ibeyi, quer dizer “gêmeas” em iorubá.

As raízes das Ibeyi oferecem um caldo sonoro muito particular, o que soa autêntico. Além desse lastro meio que natural elas ainda adicionaram um substrato político muito evidente, com destaque para questões urgentes desse 2017 doido, como o combate ao machismo, violência contra a mulher e preconceito racial. Lisa e Naomi escolheram o discurso direto, localizando e contextualizando seus alvos.

Em “Deathless”, parceria com Kamasi Washington, elas tratam da prisão arbitrária de Lisa, em Paris, quando tinha 16 anos. A detenção foi motivada por motivos raciais e foi conduzida com brutalidade. A faixa cita o diálogo da artista com o policial que a abordou: “você fuma? / qual o seu nome? / sabe porque eu estou aqui? / Ela era, Ela era / Inocente / 16 anos / Congelada de medo”. Em “No Man Is Big Enough For My Arms”, ela tratam da desigualdade de gênero e trazem como sample o discurso de Michelle Obama, em 2016, ao falar do modo como Donald Trump tratava o sexo feminino. “A medida de qualquer sociedade é o modo como ela trata as mulheres e garotas”, diz a letra.

O disco alterna momentos de instiga a um revide contra a opressão com faixas mais calmas, melancólicas, como a linda “Waves”, onde exploram as cerimônias da santería, religião afro-cubana, “Transmission/Michaelion”, sobre a passagem do conhecimento através das tradições, algo muito caro para uma dupla muito ligada à ancestralidade de sua cultura natal como as Ibeyi. Nas inovações sonoras propostas pela dupla ao lado do produtor Richard Russell estão trabalhos interessantes em percussão (como na animada “When Will I Learn”) ou no pop eletrônico irresistível do hit “Away Away”, que traz versos em inglês e iorubá.

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