A primeira HQ de Bryan Lee O’Malley depois do aclamado sucesso de Scott Pilgrim Contra O Mundo chegou cercado de expectativas. Depois de seis volumes (lançados aqui em três partes) e um filme estrelado por Michael Cera, o autor decidiu arriscar em uma história e narrativa que mantivesse seu estilo pessoal, mas que fosse além do mais do mesmo esperado pelos fãs. O resultado foi uma obra sobre segundas chances, reconciliações com o passado e mudanças de vida.

Traduzido aqui como Repeteco (uma escolha, na minha opinião acertada, mas que rendeu alguma polêmica), Seconds tornou-se uma prova de fogo para o autor, que decidiu descolar-se de sua famosa franquia em busca de desafios estéticos e narrativos. Muito do que gostamos em O’Malley está aqui: a escolha da comédia romântica como gênero primordial, o estilo derivado do mangá, os exageros das expressões, toques mágicos/surreais e uso inteligente de elementos próprio dos quadrinhos que vão além do desenho, como onomatopeias, enquadramentos, requadros e recordatórios. Tudo, de alguma forma, acaba agregando à história, saindo da condição de meros auxiliares. Repeteco, no entanto, traz os velhos problemas da classe média hipster do Ocidente, sempre potencializados.

Na trama temos Katie, uma chef de cozinha de sucesso que comanda um restaurante que dá nome à HQ. Ela decide abrir um segundo restaurante, que seria a casa dos seus sonhos, mas acaba descobrindo que o edifício está cheio de problemas. Além disso sua vida amorosa vai de mal a pior: não só seu ex-namorado reaparece como ela acaba se relacionando com um chef novato que ajudou a promover. É aí que aparece Lis, uma espírito com atitude e aparência punk para lhe dar uma segunda chance. É a oportunidade de se confrontar com os próprios erros e mudar de vida. A ajuda vem através de um ritual que inclui escrever os erros em um papel e comer um cogumelo misterioso que a faz retomar ao ponto que quer consertar. Mas centenas de obras de ficção já nos ensinaram que mexer em linhas temporais sempre dá problema.

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O’Malley se saiu bem nessa sua obra audaciosa e cheia de boas invenções, um pouco distante de seu sucesso Scott Pilgrim, com o qual estará para sempre relacionado. Repeteco possui um clima que remete ao terror psicológico e é mais focado que o trabalho anterior. Com isso foi possível desenvolver melhor todos os personagens, aqui com mais nuances. Katie, a protagonista, é irresponsável, imatura e frequentemente inconveniente. Suas inseguranças acabam afetando a vida de todos ao seu redor. É o tipo de pessoa que nunca deveriam ter contato com algo que mexesse com o tempo.

Com boas saídas narrativas, incluindo painéis de página dupla e longas sequências “mudas”, Repeteco dá show no que diz respeito a explorar as possibilidades da linguagem dos quadrinhos. Mas o roteiro vai ficando previsível conforme nos aproximamos do final. Ainda assim é um trabalho que só reforça a voz única de O’Malley, hoje um dos principais nomes dos quadrinhos autorais norte-americanos.

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