Crítica-HQ: Ragemoor e os delírios de terror de Richard Corben
NOTA7

HQ lançada pela Mino explora o talento de Corben para criar um bom gibi de horror, monstros e uma pitada de loucura

Uma mansão tenebrosa, viva, que ameaça os visitantes que não obedecem aos seus caprichos. Um mordomo lunático, obcecado com seus experimentos com prisioneiros. Um senhor aristocrático com uma paixão tóxica em relação a uma de suas convidadas. Todos esses elementos de terror compõem o quadro insólito da trama de Ragemoor, HQ de Jan Strnad e Richard Corben, lançado em março pela Mino.

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Este não é um dos trabalhos mais impressionantes de Corben, autor vencedor do Grand Prix do Festival de Angoulême deste ano, mas ainda é um dos melhores gibis de horror lançados recentemente no Brasil. Quem gosta do tom old school dos quadrinhos de terror, que desbancam quase para a comédia, vai curtir muito esse lançamento.

Corben cruzou as referências do romance gótico com a nostalgia dos quadrinhos de monstros dos anos 1960-70, muito inspirados pela EC Comics, os Creepshows, pequenas pérolas pulp em preto e branco que fizeram sucesso na indústria. Há também muita autorreferência, uma vez que a dupla é dona de alguns dos melhores gibis de terror, com uma produção que remonta ao início dos anos 70 com trabalhos publicados em revistas como Creepy, Fantagor e Heavy Metal. Ragemoor traz também muito de H.P. Lovecraft, sobretudo em algumas passagens com monstros, e também Edgard Allan Poe.

A dupla ainda adiciona a toda essa salada da cultura pop de terror e susto doses de horror psicológico. Mas tudo soa mais comedido, como se buscasse um tom mais palatável.

A arte de Corben segue inspirando repulsa e medo ao criar um clima tenso de claustrofobia e nervosismo a cada página. Bem distante, contudo, de trabalhos mais experimentais (a exemplo de Cage e Shadows On the Grave). As linhas do traço do autor aqui estão sóbrias, mas o uso que faz das luzes e sombras explora bem o clima de delírio que pede o texto e argumento de Strnad.

Mas é na história que este gibi perde força. Ainda que a dupla consiga trazer um bom clima de tensão e loucura em suas páginas, o argumento se apoia bastante em elementos bem conhecidos do gênero, sem desconstruí-los. Os melhores momentos são aqueles em que a narrativa pende para o tom bizarro, o que surge como uma promessa de ousadia estética que acaba não se concretizando.

Nestes momentos, a arte bem imaginativa de Corben brilha lindamente – os babuínos, que por alguma razão vivem no castelo, são bem assustadores e realistas. O mesmo pode ser dito dos pobres experimentos feitos pelo mordomo maluco Bodrick.

Mas ainda é pouco para o que essa dupla pode oferecer. Mestres do terror, eles aqui apenas reciclam ideias e se apoiam muito em reviravoltas aleatórias e bobas para prender atenção.

Bastantes entrosados com o bizarro e o grotesco, a dupla Strnad e Corben criam em Ragemoor um bom gibi de horror e é ótimo ver no Brasil um trabalho da dupla sendo publicado. Vamos sonhar em ver Mutant World, um dos trabalhos mais aclamados da dupla, bem como as séries que eles criaram para a revista Heavy Metal (New Tales of The Arabian Nights e The Last Voyage of Sindbad) também ganhar edição nacional.

Enquanto isso, Ragemoor fica como aquisição importante para quem é fã do trabalho de Corben. A Mino lançou no ano passado o ótimo Espírito dos Mortos, baseado na obra de Edgard Allan Poe, esse sim obrigatório.

RAGEMOOR
De Jan Strnad e Richard Corben
[Mino, 120 páginas, R$ 59,90 / 2018]
Tradução de Célio Cecare

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