Crítica-Disco: Cardi B, nova força a ser respeitada no hip hop, dá rasteira no sexismo
NOTA9

Com Invasion of Privacy, Cardi B entra para o primeiro escalão do rap quebrando um monte de barreiras. Primeira rapper a ter uma música no primeiro lugar da parada da Billboard com uma faixa solo em mais de 20 anos, primeira rapper a estreiar um disco em número 1 desde Eve, em 1999, artistas com mais streamings na primeira semana, entre muitos outros. Por tantos marcos, Cardi merece ser celebrada, mas sua presença vai mais além: ela tem a relevância cultural para mudar um paradigma dentro do hip hop: ainda é um espaço sub-representado.

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Mulher, latina e rapper, Cardi B traz uma combinação explosiva para derrubar outras barreiras, estas menos númericas e mais simbólicas. Expressão inconteste do chamado “sonho americano”, Belcalis Amenazar (seu nome de batismo), 25 anos, cumpriu um périplo que lhe dá todos os créditos para se impor como uma verdadeira vitoriosa frente a um sistema opressor aos negros e pobres da América. Moradora da área pobre de NY, o Bronx, ela trabalhou como stripper antes de ser famosa para poder sobreviver. Seu trabalho como dançarina stripper também foi a forma que encontrou para fugir da violência doméstica em casa, onde convivia com um relacionamento abusivo. Depois tornou-se uma celebridade online por conta de seu carisma no Instagram e Twitter até fazer um salto midiático para uma estrela de reality show (Love & Hip Hop: New York, da VH1).

Cardi perseguiu o sucesso na carreira de rapper desde, pelo menos, 2015, quando começou a trabalhar no que seriam suas mixtapes Gangsta Bitch Music. Mas foi com “Bodak Yellow”, faixa marrenta de versos ríspidos e batidas minimalistas, que fez o sucesso da cantora e a transformou no maior fenômeno rapper em muitos anos. Cada frase dita nessa faixa tem uma cadência potente, alta, mantendo uma base uníssona para soar pesada do início ao fim. É um recado certeiro, uma tomada de território, uma declaração de poder pelo sucesso e dinheiro, moedas facilmente entendidadas pelo sistema vigente. Da stripper pobre à rapper que faz o dinheiro correr, Cardi quis mostrar que não aceita mais ser desvalorizada.

Em uma seara com tão poucas representantes, Cardi B é um nome a ser celebrado. Consegue atuar em espaços muito ligados aos seus colegas masculinos, caso do gangsta rap, mas adicionando toques inovadores apenas por conta de uma mudança de perspectiva. Bastante influenciada pelo rap old school dos anos 1990, seu som é comedido nos artifícios exagerados de produção muito utilizado hoje em dia. Ao contrário, seu flow é bem raçudo, preciso e direto como se saísse de uma batalha de rimas. Tem também o diferencial de adicionar elementos latinos em suas faixas, com destaque para as batidas com injeções de dancehall e reggae. O colombiano J Balvin aparece na ótima “I Like It”. Suas letras são reflexos da superação de sua biografia cheia de percalços e por isso temos versos tão potentes de auto-empoderamento, superação e conquista.

Invasion of Privacy responde bem a quem duvidou que Cardi B seria bem mais que um hit de verão por conta de “Bodak Yellow”. Seu disco é bem diversificado nas batidas, criativo nos arranjos e com letras que vão na jugular ao estilo Cardi, mandando a real para diversos alvos, de homens que não aceitam baixar a bola a desafetos que a desacreditaram. Há também bastante vulnerabilidade, expurgando detalhes de sua adolescência em sua vizinhança violenta e pobre. Nomes estelares do R&B e rap aparecem como convidados do disco, a exemplo de Chance The Rapper, SZA (uma das melhores faixas do álbum, “I Do”) e Migos (no single festeiro “Drip”). Ela mostra que segura até mesmo faixas mais delicadas, emotivas, caso de “Be Careful”.

O aspecto político de Cardi B é dar uma rasteira no sexismo do rap hoje. É só dar um passeio pelos maiores hits do gênero para ver como as mulheres são desumanizadas como “megeras”, destinadas a serem personagens cheias de volúpia, por vezes problemáticas e sempre orbitando o espaço de machos viris, gângsters milionários. Assim como suas predecessoras Eve e Nicki Minaj, a proposta de Cardi B é se apropriar desse imaginário e ressignificá-lo, dando um rosto e voz a essas mulheres para que o público possa se relacionar. O tom de verdade que sai das músicas de Cardi justificam até os clichês de algumas letras. É uma história de Cinderela real, mas uma princesa que conseguiu se salvar sozinha do destino fatídico e brutal que estava reservado. Um conto de fadas do hip hop.

Invasion of Privacy é um disco que revela uma nova instância de poder no hip hop, mas que também aponta para um novo e interessante momento do gênero. Inovador e apoiado em um carisma de uma artista de fato genuína nas intenções e performance. Que sorte a nossa que temos Cardi.

CARDI B
Invasion of Privacy
[Atlantic, 2018/ 2018]
Produzido por 30 Roc, Allen Ritter, Ayo e vários outros.

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