O país encontrado pelo Cordel em 2018 é o país que rejeita o outro com veemência. Mas é também o que resiste e insiste em gritar ‘Lula Livre’ e ‘Marielle Presente’

Do Rio de Janeiro.

“Os amigos voltaram, os amigos voltaram”. O mestre de cerimônias do Circo Voador repetia essas palavras com intensidade e genuína emoção ao anunciar o Cordel do Fogo Encantado no Circo Voador num sábado quente de 28 de abril de 2018. O Circo, entupido de gente, parecia respirar essa sensação.

A banda entra devagar. De ambos os lados do palco. Parados, ladeados, olham para o público por longos segundos. Simbolicamente pareciam encarar o reencontro. Velhos amigos, quem sabe antigos amores, revendo-se depois de tanto tempo. Quem sabe tentando reparar se mudanças ocorreram no período em que ficaram afastados um do outro. O tempo, amigo ou inimigo, inevitável com suas marcas e cicatrizes.

É interessante perceber as nuances de um show. Há os que são burocráticos. Mesmo fortes ou bem feitos, exalam o fato de que os músicos parecem estar cumprindo uma função delineada noite após noite. Esse retorno do Cordel transparece um frescor, uma renovação que pareceu tão necessária a eles mesmos como ao público também.

Enquanto tocam as músicas, eles se olham e sorriem uns para os outros. Apertam as mãos, abraçam-se. Dá para perceber que estão felizes em estar ali, naquele palco juntos novamente. É significativo o abraço conjunto ao final do show entre eles, aquela rodinha que jogadores de futebol adotaram fazer antes do início das partidas.

E essa energia resplandecia no Circo Voador. O público do Cordel já é conhecido. É intenso, emocional, vibrante. E estava ansioso. Em diversos momentos a banda parecia surpresa com a participação que vinha da plateia. Em um desses momentos, Lirinha interrompeu a letra e ficou admirando o que estava à sua frente. Olhou em direção aos companheiros e apontou para o público, como dizendo ‘vocês estão vendo isso?’.

Oito anos depois de uma separação anunciada por Lirinha, ou Lira, como queiram, o país que recebe o Cordel é muito diferente daquele que os viu despontar na música brasileira. Se o surgimento e auge da banda se deram inseridos num país que buscava outros caminhos, tão possíveis quanto necessários, o Brasil que o Cordel do Fogo Encantado encontra hoje é um país despedaçado, triturado em suas entranhas. As balas que mataram Marielle, a quem a banda homenageou a canção ‘Conceição’ e o show inteiro, ricocheteiam e atingem pessoas acampadas em Curitiba, num ato supremo de intolerância.

O país encontrado pelo Cordel em 2018 é o país que rejeita o outro com veemência. Mas é também o que resiste e insiste em gritar ‘Lula Livre’ e ‘Marielle Presente’. O branco da roupa de Lirinha e o preto da vestimenta do violonista Clayton Barros se complementam de forma quase simbiótica. O preto e o branco lado a lado.

Lira repete em pelo menos dois momentos: ‘não beberemos a água do esquecimento’. A referência é ao massacre de Canudos, mas poderia ser a qualquer massacre. Tanto virtual como físico no país de tantos massacres e chacinas.

Quando o público atropela uma fala de Lira e entoa Lula Livre, o vocalista sorri, agacha-se e lentamente gira o pedestal do microfone para a plateia. Nada diz e nem precisa. Sem discurso, a banda faz um dos mais contundentes atos políticos que se possa conceber. Seja nas letras das músicas ou no gestual dos percussionistas, trazendo sempre a lembrança do país formado por batuques, tambores, sua ancestralidade negra, nordestina, indígena. Está tudo ali, inserido no sotaque de Lira, na cor da pele dos músicos e nos cabelos da vocalista Isadora Melo, que agora acompanha a banda na turnê.

Há muitas Marielles presentes no show. Os cabelos de tantas mulheres ali não nos deixa esquecer. E as rodas de dança no meio do salão ensinam a possibilidade de um país reconstruído, pois se tanta beleza pode resplandecer em um momento mágico porque não imaginar a reconfiguração do sonho?

‘No Morro da Conceição/Nunca é tarde demais pra saber/Super nova batida da dança/Do tambor que se chama esperança/Todos juntos no barco do tempo’.

Em ‘Liberdade’, eles dizem que ‘aquele rio é vermelho’. Um rio mar. Gentes. Multidões que gritam e entoam a palavra liberdade. Há uma mistura entre o ontem e o hoje nesse show, onde a pergunta que ecoa na letra de uma música diz ‘se não arder, como viver?’. A vida arde, no suor que escorre, na lágrima que desce, na chuva que molha, na solidão que entorpece, na saudade que escoa e no grito que ecoa.

O Lira que hoje parece um tanto mais contido no palco parece guardar uma nova experiência de vida, onde o andar devagar pode ser por tanta pressa já anunciada e vivida. ‘A nossa sorte é ter coragem’, canta a banda em ‘Eternal Viagem’. E isso remete longe ao ‘pavão mysterioso’ de Ednardo, que tranquilizava: ‘nossa sorte nessa guerra é que eles são muitos, mas não podem voar’.

Já são quase três da manhã quando a banda encerra o show. O público canta ainda. Bate palmas. Um transe coletivo repleto de amor, de cumplicidade, de esperança talvez.

O mestre de cerimônias retorna, com suas tranças rastafáris e pergunta se alguém anotou a placa do caminhão que nos atropelou. E repete a frase do início: ‘os amigos voltaram’. Pois que sejam bem vindos, tomem esse cálice de vinho, experimentem essa cerveja artesanal, feita com carinho. Olhem, aquelas são nossas crianças, filhos e netos; ali estão os gatos e cachorros que convivem com a gente; essa foto é de uma viagem inesquecível e esse é o livro que estou lendo. Senta aqui, tem café quente ainda. Venham até a cozinha. A mesa está posta e a comida é farta e para os amigos a porta está sempre aberta.

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