Foto de abertura: Jonatan Oliveira.

A aposta num lineup eclético foi uma feliz escolha dos organizadores da 14ª versão do No Ar Coquetel Molotov. A diversidade de gêneros e de artistas com trabalhos quase sempre instigantes mexeu fundo nos corpos e mentes de quem foi ao Caxangá no último sábado. Quem circulou por todos os palcos se deparou com apresentações carregadas de muita energia e viveu experiências sonoras instigantes. Os primeiros shows do festival a partir das 15h no Palco Aeso e no Palco Sonic já deram o tom do que viria pela frente.

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Quem abriu o palco Sonic foi o baiano Giovani Cidreira. O artista focou sua performance nas músicas do seu ótimo disco Japanese Food, onde fica claro que ele mistura referências que vão do indie ao alternativo dos anos 80, passando por Milton Nascimento. Um dos melhores momentos de sua apresentação foi quando ele cantou “Um Capoeira”, música que mistura a sonoridade do rock com ares de afrobeat. Em seguida foi a vez da banda pernambucana Kalouv com seu pós-rock instrumental, que aproveitou o festival para lançar seu terceiro disco, o belíssimo Elã, fruto de uma imersão feita pelo grupo durante quatro meses num sítio na cidade Carpina. O show trouxe uma Kalouv mergulhada ainda mais na essência musical dos integrantes do grupo e que resultou numa mudança da sua sonoridade com influências do eletrônico e do jazz contemporâneo. A apresentação foi hipnotizante e teve a participação de Benke Ferraz, da Boogarins e Roberto Kramer.

O Palco Aeso, voltado para os artistas que estão começando a ganhar espaço na cena pernambucana e brasileira, deu seu start com a apresentação da banda Pupila Nervosa. O sol ainda estava dominando a tarde quando o grupo botou seu rock psicodélico (ou de lombra, como eles preferem denominar a música que produzem) no rolê. A banda já se apresentou em shows no Life’s Too Short, mas foi a primeira vez num grande festival e o resultado foi bem legal, movimentando a galera que chegou cedo no Caxangá e já deu de cara com uma sonoridade de eflúvios canábicos. Após a apresentação da Pupila Nervosa, subiu ao palco a banda Cellestino.

Um dos shows mais bacanas do espaço foi o da MC e ativista da cena rap recifense Lady Laay. Autora da música “Bela, Recatada e do Lar”, Lady Laay mostrou o seu som engajado marcado por versos ousados onde temas como liberdade sexual feminina, desigualdade social e racismo refletem a sua própria vivencia e a de outras mulheres, batendo de frente contra o machismo e os rótulos que impõem um papel submisso às pessoas do gênero feminino. O show teve músicas inéditas e Laay foi acompanhada pelo DJ Novato, por Mari Periférica e contou ainda com a participação de D’Arc Cintra.

Outra atração do Aeso foi o cantor Romero Ferro, cuja carreira vem crescendo e já atrai um número considerável de seguidores. Seu show foi acompanhado por uma galera que conhece o trabalho do artista e que cantou com ele músicas do seu último trabalho, o disco Arsênico, lançado há um ano. A performance de Ferro mostrou domínio do palco e a presença de Musa como sua convidada deu um toque especial ao show que foi do pop ao brega, mantendo um bom ritmo durante toda a duração.

Romero Ferro tocou no Palco Aeso. (Foto: Fernando de Albuquerque/OGrito!).

O duo carioca Gorduratrans chegou no Palco Aeso quando a chuva começou a cair na noite de sábado. Isso porém não atrapalhou a apresentação que mostrou que o grupo formado por Felipe Aguiar, na guitarra e voz, e Luiz Felipe Marinho, na bateria, está atravessando uma ótima fase. O show trouxe o repertório do último disco – Paroxismos -, mesclando ritmos dinâmicos e riffs sujos e variados, uma das suas marcas. O clima de garagem das apresentações do Gorduratrans estava presente com músicas robustas e o inconfundível estado de angústia de suas letras.

Lia provocou encantamento com sua ciranda. (Foto: Fernando de Albuquerque/OGrito!).

O encerramento da programação do palco dedicado aos artistas mais novos foi com a atriz e cantora cearense Soledad. O seu primeiro disco, Soledad, foi lançado em janeiro desse ano e segue a tendência da música contemporânea da mistura de referencias e ritmos. A apresentação nos mostrou uma artista intensa com uma pegada de rock and roll, mesclada com blues e psicodelia. As letras das canções falava de feminismo e de relações pessoais e a interpretação forte e aguerrida de Soledad agradou os que a viram no palco pela primeira vez.

A Batalha da Escadaria, do Centro do Recife, chegou ao Recife. (Foto: Jonatan Andrade/O Grito!).

Som na Rural arrasou com Lia de Itamaracá e Batalha da Escadaria

O Som na Rural, de Roger de Renor, mais uma vez no Coquetel Molotov, apresentou alguns dos momentos mais bacanas do festival, sobretudo com as incríveis apresentações da cirandeira Lia de Itamaracá e dos rappers da Batalha da Escadaria. A programação começou logo cedo com a discotecagem de Iury Andrew (Bafro).

Lia é daquelas figuras que carrega consigo uma aura de encantamento. Basta ouvirmos os primeiros toques dos metais para a pele arrepiar, porque quando a voz dela e das duas senhoras do coral ecoam no ar, os pés já se movimentam na cadencia morna e maneira da ciranda. Foi muito bonito ver Lia na noite chuvosa de sábado, mostrando que ela continua uma das artistas mais autênticas da nossa música popular.

Não menos interessante foi a apresentação a partir das 23h dos rappers que conseguiram levar, mesmo para um festival, a proposta de duelo de MCs em formato idêntico ao das batalhas que realizam no centro do Recife, na calçada do cruzamento da rua do Hospício com a avenida Conde da Boa Vista. Uma roda de admiradores da Batalha da Escadaria acompanhou as disputas, participando e elegendo o vencedor de cada uma delas. Em seguida teve apresentações do artista plástico Aslan Cabral, Petyr e Isluislu.

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