Em cada sketch e em cada autógrafo vi artistas dando a cara à tapa, despidos de qualquer glamour. Um evento como a CCXP mostra que, não importa quanto a tecnologia evolua, o face a face ainda é insuperável

Texto e ilustração por Fernando Athayde

Quando engorduramos as telas dos nossos smartphones ao puxar para baixo e para cima as timelines das redes sociais a cada instante estamos abrindo um canal direto para que a cultura – e os fenômenos – pop penetrem nas nossas vidas. Vejam só minha mãe, que jamais leu um gibi do Homem de Ferro, mas, de uns anos pra cá, sabe que ele se chama Tony Stark e é entusiasta de umas doses de uísque e safadeza.

Neste início de novo milênio, a Cultura Pop se tornou um caminho sem volta. E a chegada de um evento do porte da Comic Con Experience Tour (CCXP Tour) a este fim de mundo flamejante conhecido como Recife está aí para provar isso.

Convivemos com a informação nos tocando no mesmo ritmo com que nós tocamos o cotidiano, segundo após segundo e instante após instante. A sensação é a de organicidade, de vida sendo vivida, transformada a cada novo respiro. E, embora tudo pareça normal no dia a dia, é num evento como a Comic Con que nós somos lembrados de que não importa o quão evolua a tecnologia e os meios de acesso, o hic et nunc (o aqui e o agora) é o que torna suportável a nossa passagem por este plano da existência.

Quando, em seu famoso ensaio A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica, Walter Benjamin comenta que “à perfeita reprodução de uma obra sempre falta algo” e “a unidade de sua presença está no próprio local onde se encontra”, é quase como se estivesse, cem anos antes, descrevendo o sentimento que me tomou no instante em que vi Bill Sienkiewicz rabiscar, numa folha de papel canson, um sketch da personagem Elektra, da Marvel Comics.

Confirmei ao vivo o que tentava compreender quando lia clássicos de Sienkiewicz: a espontaneidade do traço. (Ilustra: Fernando Athayde).

Claro, cresci lendo os clássicos desenhados por Sienkiewicz, mas, naquele momento, quando a ponta de seu pincel tocou as fibras do papel, vi acontecer de verdade o que, por décadas, eu, inconscientemente, emulei compreender: a espontaneidade de sua criação. E, embora seja Bill um gringo renomado e uma lenda viva dos comics norte-americanos, essa peculiaridade não é algo restrito ao status rendido a ele por sua carreira. Em cada sketch e em cada autógrafo dado nos mais de cinquenta quadrinhos independentes que comprei na CCXP, vi artistas dando a cara a tapa, todos distantes do glamour e dos holofotes purpurinados do auditório onde anunciavam, sei lá, os próximos filmes dos X-Men ou coisa assim. Tudo aconteceu diante dos meus olhos e foi gravado na minha memória. Momentos que eu levo pra vida.

Dessa forma, a Comic Con é um evento de cenas e isso só é possível porque, lá dentro, tudo é permitido. Se hoje a Cultura Pop está na boca do povo e na cabeça de todo mundo, podemos observar o reflexo deste alcance em cada indivíduo que some na multidão de cores e formas que compõem público. Numa mesa, casais de pais papeiam enquanto seus filhotes fantasiados de vingadores correm pra lá e pra cá. Noutra, um cosplayer do Transformer desabotoa sua armadura para recalibrar as forças com um cachorro-quente.

Uma Sailor Moon crossdresser: a fauna diversificada da CCXP. (Ilustra: Fernando Athayde).

É, essencialmente, inspirador, mas, se pararmos pra pensar, numa ocasião orquestrada pelo potencial visual das narrativas gráficas, não poderia ser diferente. Cada momento vivido ali dentro parece soar autêntico, imbuído de algo cujas lentes das câmeras, por mais high tech que sejam, não conseguirão capturar.

O pavilhão do Centro de Convenções, onde aconteceu a CCXP, foi, por quatro dias um mosaico de gente de toda cor, tamanho, forma e estilo. E, refletindo agora, ao fim das celebrações, só consigo pensar que, mesmo levando em consideração o preço salgado das credenciais, eu não via tanta gente diferente num mesmo lugar desde que fui tirar a segunda via da minha carteira de motorista do Expresso Cidadão.

Mas, é claro, na Comic Con, toda essa gente estava feliz.

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