Nostalgia, histeria, compras, emoção, quadrinhos e mais compras: os dias em que Recife brincou de ser “geek”

Em 2014, o Brasil passou a contar com um evento de grandes proporções na área de cultura pop. Seguindo o molde das atuais convenções norte-americanas, a Comic-Con Experience – ou, simplesmente, CCXP – passou a ser realizada anualmente em São Paulo. Um modelo atrativo para as comunidades de fãs que vêm aumentando nos últimos anos, em que as séries de TV objeto de culto não eram mais só coisa de gente esquisita (culpa da internet, dos bem-sucedidos filmes de super-heróis, etc., etc.); mas com espaços pra nós, os esquisitões da velha guarda – os fãs de quadrinhos. Ficava bom pra todo mundo e o aumento exponencial de público a cada edição que transformou a CCXP em uma das maiores comic-cons do mundo provou isso.

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Daí que o grupo Omelete e a Chiaroscuro resolveram se aventurar a levar o evento a outras cidades para fora do eixo “sudestino”. O nordeste, segundo algumas fontes internas, foi a região escolhida por ser daqui uma boa parte dos ingressos vendidos para as CCXP de São Paulo. Já os fatores exatos que levaram o Recife a ser escolhido como sede me escapam – apesar de dizerem por aí que o fato de a cidade ser um polo tecnológico na região foi um indicador de que poderia dar certo (ainda que um evento como esse seja grandioso justamente por não se apoiar no público nerd tradicional). Mas ora, quem se importa? Só posso dizer que fiquei realmente satisfeita quando a notícia, que julguei totalmente sem fundamento quando vazou, foi confirmada.

Nunca fui a uma CCXP em São Paulo. Em todos esses anos, sempre me programei pra ir, mas algum empecilho sempre se colocava em meu caminho – expressão que na verdade significa “não pude gastar essa grana toda”. Porque o evento não é barato, principalmente para quem é de fora da capital paulista. Mesmo contando com os amigos pra descolar aquela hospedagem parceira, o custo somado de passagens, ingressos, alimentação e (logicamente) uma boa grana pra gastar lá, configura um investimento e tanto. Certo, meu interesse pelas milhares de memorabílias não é dos maiores. Mas o evento conta com o tradicional Beco dos Artistas (que mané “artist’s alley”), repleto de sorridentes quadrinistas independentes oferecendo seus trabalhos. Ali, sim, mora a tentação.

Pois é claro que eu não deixaria de ir a uma CCXP acontecendo no meu quintal, mesmo que não fosse como enviada d’O Grito!. Mesmo que houvesse apenas um mínimo de atenção à área que mais me interessa em eventos como esse (reforçando: histórias em quadrinhos, caso já tenham esquecido), ainda assim me sentiria compelida a comparecer. Afinal, é um evento completamente inédito na cidade. Um verdadeiro acontecimento. Com a previsão de gastos reduzida pela metade, não havia cabimento em não fazê-lo. E lá fui eu para a CCXP Tour Nordeste, junto com outras 54 mil pessoas – de acordo com os dados divulgados, divididas em quatro dias de clima “épico”, muita histeria adolescente, mas muita coisa legal, também.

Tronos, estátuas e estandes: fila pra tudo.

O épico estimulado

A questão da histeria é um tanto interessante. Ela é bastante estimulada pela organização, de todas as formas: desde a entrada, onde um paredão de amplificadores tocava ininterruptamente o tema musical da CCXP até as paredes da entrada, recobertas pelos dizeres “pode se emocionar, gritar, pular…”, algo assim. É claro que a emotividade não é algo unicamente reservado aos jovens (meus olhos marejaram no painel do Maurício de Sousa, mas estou me adiantando), mas a intenção do evento é claramente dialogar de modo mais direto com esse público mais jovem, mais fanático, com emoções e hormônios à flor da pele – esse que para o pessoal do Omelete o tempo todo pra tirar aquela selfie. E claramente dá certo, porque eles foram a indiscutível maioria em todos os dias de evento. E não pareceram se incomodar nem um pouco com o paredão berrando aquela música o tempo todo.

Com relação ao espaço, esta obviamente é uma edição menor – como já disse, nunca fui às edições de SP, mas ouvi relatos de que chegar de um lugar a outro poderia se constituir em verdadeiras odisseias. Não foi o caso aqui. O Centro de Convenções de Pernambuco é espaçoso, sim, mas circular rapidamente por todo o espaço do pavilhão inferior, aonde se encontravam as lojas e estandes, não era nenhum esforço hercúleo. Não que isso seja demérito – é uma afirmação feita apenas a critério de comparação.

Circulando pelas lojas, o que me incomodou foi o fato de que, com raríssimas exceções, tudo o que as lojas ali presentes se propuseram a levar podia ser facilmente encontrado na internet. Havia algumas exceções – um estande de quebra-cabeças adoráveis, por exemplo. Mas mesmo as camisetas voltadas a esse público hoje parecem tão genéricas, ao ponto de haver um estande gigantesco da RIACHUELO GEEK. Sim. Isso mesmo.

Outro produto clássico desse universo, a action figure (ou bonequinho, mesmo, vai), parecia relegada ao básico. A única que nunca havia encontrado em outros lugares foi a recém-lançada Cristal, dos X-Men (com visual disco setentista; fiquei até balançada). Os amantes dos bonequinhos da moda, os Funko Pop, podem ter se sentido um pouco mais contemplados (devia ter o elenco inteiro de Game of Thrones, que não assisto, por lá), mas nada que se constituísse necessariamente como um diferencial. A fila para entrar na loja da Mundo Geek, sem promoções consideráveis ou itens mais exclusivos, era simplesmente inexplicável.

Havia, é claro, o estande da Iron Studios, a famosa fabricante de estatuetas de luxo – mas com mais peças em exposição do que à venda. Dois modelos exclusivos remanescentes da CCXP-SP 2016 escoltavam a exclusivíssima estatueta da CCXP Tour: um Deadpool de uniforme cinza, utilizado durante a fase em que foi integrante da equipe X-Force. Linda, linda mesmo. Valia os R$ 300. Mas não sou exatamente fã do Deadpool, então, deixei passar. Soube que vendeu bem – mas não esgotou.

A cultura vira consumo na CCXP: deu pra garimpar coisas boas.

Tudo vira consumo

Daí, aos meus olhos, o que acabava se destacando eram mesmo os quadrinhos. O estande da Panini, oferecendo descontos consideráveis, teve fila em todos os dias – principalmente por ter sido o primeiro local em Recife a vender o especial de Renascimento, nova fase da DC (que esgotou). O estande da JBC também apresentava descontos bastante atrativos, coleções completas com mais de 30% de abatimento no preço. A Comix, loja paulistana velha conhecida de leitores e eventos de todo esse Brasil envolvendo quadrinhos, via movimento constante. Mas o destaque foi mesmo a Comic Hunter, cheia de gibis raros a preços até acessíveis. Saí com várias edições americanas de Estranhos no Paraíso, com mais de vinte anos de “idade”, em bom estado de conservação.

De resto, muitos displays e painéis pra você tirar aquela foto maneira de recordação (e pra postar no Instagram, no Facebook… ) – estátua e acessórios da Mulher-Maravilha, o Mjolnir do Thor, os personagens de Guardiões da Galáxia, os tronos de ferro, do Sansão e da deusa Athena, um adorável BB-8, uma reprodução da icônica cena da cachoeira do Pica-Pau… tinha ainda o estande do novo filme de Alien em que você podia ser inserido digitalmente numa cena, o concorridíssimo karaokê da Netflix, um punch game de Punho de Ferro. Atrações cujo acesos estava condicionado a esperar um bom tempo nas filas gigantescas. Não me propus a entrar em uma sequer.

Não que eu esteja criticando quem o fez. Um modelo de evento como a CCXP tem prós e contras. Os contras são os fatores ligados a essa monetização infinda da cultura, onde tudo vira consumo: a entrada, as experiências, as memórias e, claro, os objetos de afeição em si – mas talvez seja até redundante dizer isso a respeito de uma vertente cultural nascida justamente sob moldes industriais. Mas colocando momentaneamente de lado essa válida discussão, diante da realidade do evento, seu lado positivo é poder ser viabilizado através dessa miscelânea e, no fim das contas, todo mundo se divertir. Apesar de todas as críticas, eu estaria mentindo descaradamente se dissesse que não foi divertido.

Beco dos Artistas: quadrinistas e fãs reclamaram do local onde estavam as mesas dos artistas.

<3 O Beco dos Artistas <3

Falando em diversão, nessa salada pop, aonde estava a minha menina dos olhos, dito pelos organizadores o coração do evento: o Beco dos Artistas? Pois bem. Aqui cabe a crítica direta. Ele estava lá. Em. Cima. No pavimento superior, no caminho para os auditórios. O isolamento reduzia drasticamente a circulação de pessoas; quem estava a caminho do auditório não poderia “perder tempo” circulando por ali, sob a pena de pegar um lugar desfavorável nas imensas filas (sim, sim, mais delas). Quem não tinha interesse nos painéis e não se propunha a subir as escadas não corria nem o risco de esbarrar com as dezenas de mesas enfileiradas e, por força da curiosidade, conhecer o trabalho dos quadrinistas e ilustradores. Foi uma reclamação unânime.

Mas quem foi achou um Beco extremamente diversificado, com vários artistas do Nordeste, quadrinistas brasileiros consagrados (Rafael Coutinho, Shiko, Bianca Pinheiro, Vitor Cafaggi, Adriana Melo, Paulo Crumbim e Cris Eiko, por exemplo) e as grandes estrelas do festival no que concerne ao mundo das HQs: Glenn Fabry, Tom Rainey, Jock, José Garcia-López e Bill Sienkiewicz. Estavam todos disponíveis quase todo tempo, entre autógrafos, fotos, entrevistas e sorrisos a rodo. Sketchs e comissions (os desenhos encomendados) a preços relativamente acessíveis. Conversei com todos e ninguém parecia incomodado pelo porte menor do evento comparados aos estrangeiros e todos ressaltaram o quanto a recepção do público brasileiro havia sido calorosa – Joe Prado me contou que, no painel em que participaram ele e os outros artistas responsáveis pela criação do pôster oficial do evento, Garcia-López foi ovacionado e ficou visivelmente emocionado. Sua retribuição foi a atenção total aos fãs – assim como os outros, aliás.

Bill Sienckievicz: a emoção de encontrar de pertinho uma lenda.

Ainda que tenhamos sido responsáveis pela menor parcela do público, quem foi à CCXP por causa dos quadrinhos não teve mesmo do que reclamar. Além do Beco, as chamadas masterclasses – basicamente, palestras dos quadrinistas sobre seu processo de criação que podiam ou não culminar com uma demonstração ali, na lata – foram também uma oportunidade única para se sentir mais perto de artistas que marcaram a história dos quadrinhos. E ainda que o fato de o auditório nunca ter ficado lotado para esses eventos nos faça pensar um pouco sobre quem são, afinal, esses fãs de quadrinhos que estavam por lá, não há como negar que não precisar enfrentar filas era um tanto reconfortante. De todas elas, talvez tenha sido a de Ivan Reis que me surpreendeu mais – simplesmente não esperava que ele fosse se focar no uso semiótico dos requadros na composição de páginas.

Homenagem a Maurício de Sousa: gerações aprendendo a ler com Mônica.

E falando em masterclasses, houve os painéis; às vezes mais, às vezes menos disputados. Mas todos focados em agradar o grande público. Não faria mesmo sentido ser diferente no gigantesco teatro do Centro de Convenções, transformado em auditório principal. Mesmo aqueles com a participação dos quadrinistas tinha como foco a relação entre os gibis e as populares produções audiovisuais. Entrar nos painéis da Warner, com cenas inéditas do filme da Mulher-Maravilha; de Star Wars, com o teaser de Episódio VIII exibido simultaneamente a um evento nos EUA; no da Marvel, com cenas inéditas de Guardiões da Galáxia 2; e no da Netflix, com atores de Punho de Ferro, 3% e 13 Reasons Why (nova queridinha dos adolescentes); foram batalhas inglórias vencidas apenas por aqueles que perseveraram durante horas na fila, perdendo várias outras atrações – e, como disse antes, não é bem esse o meu caso.

Mas naqueles em que consegui entrar, também aproveitei bastante. O painel sobre o universo DC nas telas, tanto do cinema quanto da TV (com Jock, Ivan Reis, Paul Pope e Eddie Barrows, entre outros) teve mais uma saraivada de críticas a Batman v Superman – coisa que nunca me canso de ouvir. É realmente satisfatório ouvir os aplausos de um teatro cheio de detratores iguais a você. Da mesma forma, continua sendo emocionante ver essa quantidade absurda de pessoas levantar as mãos quando Maurício de Sousa lhes pergunta quem aprendeu a ler com a Turma da Mônica – já são quantas gerações a descobrir o amor pela leitura e pelos quadrinhos através de seus personagens (como a minha, como eu)?

Nostalgia é mesmo o mais novo produto da indústria cultural (e me faz pensar se isso não é reflexo das deficiências emocionais das últimas duas gerações), e entre os convidados para painéis e as sessões de fotos (pagas, claro) com os fãs, estavam Claudia Wells, atriz que participou do clássico De Volta Para o Futuro, e uma atração que foi criticada por muita gente quando anunciada: Carlos Villagrán, intérprete de Quico, personagem da série mexicana Chavez – que fez a infância de muitos de nós.

O argumento era basicamente de que não se tratava de cultura pop – mas o que é ela se não uma grande miscelânea midiática? Colocar à parte dessa esfera os produtos culturais de massa que surgiram na América Latina, imbuídos de características tão particulares do desenvolvimento, principalmente, de nossa teledramaturgia, não seria simples aculturação? O mesmo pode ser dito do Mister Brau de Lázaro Ramos e Taís Araújo, também presentes no evento (série a qual teço várias críticas, como a produção musical medíocre, mas na qual vejo grandes méritos, como um texto afiadíssimo e um casal de protagonistas inegavelmente carismático). O que os distancia da cultura pop, além de um preconceito aparentemente perene com a TV aberta brasileira – como se a Globo, num contexto geral, fosse tão diferente assim da ABC?

Miguel Ángel Silvestre, de Sense8: a Netflix é hoje a superstar das convenções.

À parte disso, formaram-se filas diante da sala ocupada por Villagrán quase tão grandes quanto aquelas diante dos astros de 13 Reasons Why. Certamente com menos gritos, mas com uma emoção sincera de quem encontra um pedaço da infância encarnado; e também de quem percebe que esse personagem, interpretado por tanto tempo que agora é parte indissociável de si, deu tanta alegria a tanta gente. Dava pra ver isso tudo enquanto crianças travestidas de marmanjos abraçavam não Villagrán, mas o próprio Quico, de roupinha e tudo. Não me julguem pelo confesso nó na garganta (eu sou parte desses deficientes emocionais).

No fim das contas, foi um evento que indiscutivelmente marcou o Recife. Enquanto escrevo, não sabemos ainda se as expectativas dos realizadores foram cumpridas no que tange aos seus aspectos pragmáticos, ou seja, o retorno financeiro. É fato que o nome CCXP Tour lhe dá um caráter itinerante, resguardando a todos em caso de a dose não ser repetida – “não é que deu errado, é que o plano sempre foi mantê-lo na estrada”. Espero que não. Espero que a turnê nordestina da Comic-Con Experience seja tão recorrente quanto os shows de Paul McCartney no Brasil.

Para mais quatro dias de histeria, de temas “épicos”, filas insanas e experiências que muitos imaginavam nunca poder viver. De cosplays e cospobres, de risos soltos, de ídolos encontrados e gênios passando despercebidos na multidão. De amigos e artistas reunidos, de consumismo e colecionismo, de afetividade materialista – e que ninguém há de julgar. Mais quatro dias para que, em um deles, a gente possa se perguntar como pode esse barulho todo – para logo depois nem ligar pra isso, dentro do auditório. Mais quatro dias de quadrinhos e quadrinistas a rodo. Numa grande brincadeira, cada um com sua comic-con pra contar.

Ei, CCXP Tour, volta! Te amamos!!1

Todas as fotos: Divulgação/CCXPTour.

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