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Holofotes: o rock universitário da Gelo Baiano

Formado por estudantes universitários da UFPE e UNICAP, grupo abandona os covers, investe na música autoral e ganha concurso de bandas amadoras

Por Alexandre Figueirôa
Fotos Jonatan Oliveira

As universidades são espaços de encontro de jovens que, além de estarem se preparando para seguir uma carreira de médico, engenheiro, jornalista, advogado, também gostam de fazer música. Nos Estados Unidos e na Austrália, por exemplo, grupos musicais formados por estudantes são comuns e fazem sucesso nos circuitos e festivais universitários. No Brasil, o fenômeno também existe e é comum encontrarmos nas instituições de ensino superior, públicas e privadas, bandas de rock, pop, pagode e da nova febre musical do momento: o sertanejo. Esses grupos, muitas vezes, preferem fazer cover de bandas famosas para garantirem o sucesso. Mas, felizmente, existem ainda aqueles que preferem seguir a via autoral.

É nesse panorama que vamos encontrar, no Recife, a banda Gelo Baiano, grupo formado por estudantes da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). Carlos Henrique Alves, 22 anos, estudante de engenharia química; Éber Pimenta, 23 anos, estudante de jornalismo; Sérgio Henrique Filho, 21 anos, estudante de publicidade; e Daniel Victor, 22 anos, estudante de arquitetura, abraçaram o rock nacional como caminho musical e agora decidiram que os tributos a artistas de renome serão coisa do passado.

A primeira formação do grupo foi em 2011 quando Carlos Henrique, que tocava bateria, juntou-se ao guitarrista Mateus Bezerra, amigo do Colégio de Aplicação da UFPE para tocar nos festivais de artes da escola. Procuraram pela internet outros interessados e conheceram o contrabaixista Daniel com quem formaram a Hey Ho que basicamente só tocava covers. Em 2012, eles encontraram Éber que passou a fazer guitarra e vocal e, em 2014, trocaram o nome da banda para Gelo Baiano. Pouco tempo depois, Mateus saiu e Sergio entrou em seu lugar fazendo guitarra e segunda voz. Além de ser amigo de Éber, Sérgio tinha deixado a banda em que tocava e aceitou de imediato o convite porque se identificou com a proposta do grupo de priorizar as composições próprias.

Segundo Éber, no início do ano passado os integrantes da banda começaram de fato a saber o que pretendiam como percurso musical. Até então eles eram simplesmente uns caras que compartilhavam o gosto pela música do Red Hot Chilli Peppers e se apresentavam em festivais nos colégios. “O ano de 2016 foi importante porque nos sentimos maduros e partimos para procurar a nossa própria sonoridade. Fizemos o nosso último tributo ao Red Hot, mas já incluímos músicas nossas”, afirma.

Apostando no autoral

Os músicos da Gelo Baiano estão confiantes nessa virada na carreira da banda. Eles estão trabalhando com afinco na escrita e na gravação de novas músicas e estão sentindo um bom retorno nas apresentações. “As pessoas que escutam nosso som já identificam que nossa música soa como sendo do Gelo Baiano e nos dizem que ela tem a nossa cara”, garante Sérgio. No processo de criação, o grupo ainda reconhece a influência do que eles gostam de ouvir, mas na hora de compor eles afirmam que conseguem encaixar esses detalhes, mesmo sendo eles diferentes, por conta do gosto de cada integrante. “No final fica uma mistura legal”, diz Carlos. Segundo ele, esse hibridismo permite o enriquecimento do estilo do grupo.

As letras das canções da Gelo Baiano – como podemos constatar nos dois singles gravados pela banda “É Só um Café” e “Uma Noite em Sol e Lá” – e também a atitude dos próprios integrantes são o que melhor os posiciona dentro do espaço universitário. Assumir uma identidade ligada às suas vivências em vez de se classificar como banda underground, por exemplo, reforça essa conexão com o público que pretendem atingir. Criador de boa parte das letras, Éber argumenta que as músicas da banda refletem os sentimentos de sua geração, de jovens com 20 anos preocupados com as relações amorosas, as amizades, os questionamentos sobre o futuro. “Já fizemos músicas que tinham um tom mais humorado, mas o momento hoje pede que falemos de coisas de uma forma menos superficial, que passe uma mensagem”.

Entre as muitas bandas formadas por jovens universitários existentes no cenário recifense, os membros da Gelo Baiano apostam na produção de um som que eles consideram diferenciado e acreditam que isso pode ser a chave para se destacarem. Apesar das dificuldades bem conhecidas pelas bandas independentes para bancar estúdios de gravação, conseguir local para ensaio, os rapazes se viram como podem para ganhar visibilidade. Usam as redes sociais para divulgar as músicas e eventos que participam, mas investem principalmente nas apresentações ao vivo. Continuam fazendo shows em festas estudantis e foram uma das atrações na Redbull Breaktime Sessions 2017, que aconteceu na Unicap no último mês de junho.

Conquistas

Uma vitória importante na trajetória da Gelo Baiano foi a primeira colocação no concurso do Muvuca Food Park, em Olinda, para bandas amadoras, cuja final aconteceu no dia 03 de agosto último. Cerca de 50 grupos mandaram seus vídeos para a seleção e dez deles foram selecionados para se apresentarem ao vivo. Com a vitória, a banda ganhou um cachê de R$ 1 mil para duas apresentações no próprio Muvuca Park e nove horas de estúdio para ensaio. Para Éber, Carlos, Sérgio e Daniel, o resultado fortalece a banda, pois um dos critérios do concurso era que a apresentação tivesse pelo menos uma música autoral no repertório e, tanto na eliminatória quanto na final, a Gelo Baiano só apresentou composições próprias.

O concurso teve um júri popular e um júri técnico composto por Yuri Rabid e Tiné, ambos da Academia da Berlinda e Márcio Moraes do Estúdio 1. Para Éber esse reconhecimento representa a certeza de que a banda tem qualidade. “Tiné, da Academia da Berlinda disse que adorou nosso som e ganhamos de bandas que já tem álbuns lançados, tocam regularmente em grandes espaços de Pernambuco e já tem anos de carreira”, afirma entusiasmado. Segundo os integrantes do grupo, o carinho da plateia presente e a energia sentida foi uma injeção para que eles persistam. Eles esperam que a partir de resultados como esse no Muvuca produtores musicais e organizadores de festivais prestem atenção no trabalho que eles estão desenvolvendo. “Estamos confiantes. Talvez seja uma questão de tempo”, conclui Eber.

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Holofotes é um projeto da Revista O Grito! cujo objetivo é fazer perfis de artistas estreantes ou em início de carreira como forma de destacar a renovação do cenário cultural em Pernambuco.

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