Rosana Urbes é um dos maiores nomes da animação mundial, vencedora do Annecy, o mais importante prêmio do segmento no mundo. Seu curta, “Guida”, mostra o universo de uma senhora da terceira idade longe dos estereótipos e com um olhar honesto do cotidiano dos idosos. Rosana também emprestou sua sensibilidade para o cinema mainstream, onde também aprendeu bastante. “Mulheres velhas nas artes gráficas, seja nos quadrinhos ou animação, em geral são más, bruxas que envenenam jovens bonitas com maçãs, ou avós fofinhas que fazem bolos para os netos. Guida não é nenhum desses estereótipos”, diz em entrevista à Revista O Grito!.

Ela atuou nos estúdios Disney, trabalhando em produções badaladas como Lilo & Stich. Dona de um assinatura muito própria, ela é fã dos desenhos 2-D. “Aos meus olhos ela é a mais linda forma de expressão artística que existe”, explica.

Ela assina a arte e identidade visual do Animage, festival internacional de animação de Pernambuco, que começa nesta sexta (24) e vai até o dia 3 de dezembro. Rosana estará presente no evento como convidada, participando do júri e ministrando masterclass. O Festival também recebe, para as oficinas, a francesa Claire Sichez e Renato Duque, realizador de um curta concorrendo na Mostra Competitiva.

Batemos um papo com Rosana por e-mail. Veja aqui a programação completa do Animage.

Como surgiu o convite para fazer a arte do Animage? Pode contar um pouco sobre o processo de criação?
O convite para fazer a arte desse ano veio junto a uma proposta pra ser júri do Festival, na edição passada. Entretanto, eu tinha um compromisso de oficinas com o Festival CutOut no México naquela ocasião e não foi possível ir ao Recife. Nesse ano, fiz o cartaz e estamos finalizando a vinheta. Animage é um Festival amigo antigo: já participei com filme e ministrando oficina. Esse ano, seguimos parceria com minha criação da identidade visual da edição 2017, que me trouxe muitas descobertas e alegrias.

Guida tornou-se uma de suas personagens mais conhecidas? Como foi criá-la e de onde veio a inspiração?
Rabisquei Guida num canto de caderno quando comecei a trabalhar com animação. Chamei-a “Dona Guida”. Era gordinha e leve, alegre, dançante. Tocava pandeiro. Às vezes acho que ela se criou sozinha, que tem vida e personalidade própria, como os filhos, que vem ao mundo para serem quem eles são e os pais não tem muito controle sobre isso.

Guida fala sobre nossa relação com a velhice, com a passagem do tempo. Como as pessoas idosas são representadas na animação? Isso foi levado em conta na criação do curta?
Para desenvolver a personagem para o filme, a partir desses rascunhos de inspiração iniciais, houve muito trabalho de pesquisa. Frequentei bailes da saudade pra entender formas, proporções, postura de pessoas mais velhas. Mulheres velhas nas artes gráficas, seja nos quadrinhos ou animação, em geral são más, bruxas que envenenam jovens bonitas com maçãs, ou avós fofinhas que fazem bolos para os netos. Guida não é nenhum desses estereótipos. Tive que rabiscar muito pra encontrar as linhas da doçura que desenham as rugas e a pele flácida dela.

Você já venceu o Annecy, que é o mais importante prêmio de animação do mundo. O Brasil volta e meia tem destaque nessa premiação. Queria saber sua opinião da importância desse reconhecimento e como ele é percebido aqui no Brasil.
Soube por um amigo que “Guida” é o primeiro filme de curta-metragem brasileiro a ser premiado em Annecy. Tivemos os dois longas brasileiros antes dela. Ainda não conferí. Nesse caso é um prêmio realmente relevante mesmo. Houve bastante reconhecimento por parte da comunidade da animação brasileira e internacional, pelos dois prêmios de Annecy. Porém, o Festival não é tão conhecido pelo público em geral.

Foto: Divulgação.

O 2D tem uma plasticidade própria, mas está cada vez menos comum na animação (ao menos as que chegam aos cinemas, que são acessíveis ao grande público). Como é sua relação com essa técnica e como você acha que ela pode determinar o resultado final de um trabalho?
É uma relação de amor. Aos meus olhos ela é a mais linda forma de expressão artística que existe. 🙂. Animação sempre foi arte de gueto, por um lado, e tornou-se indústria por outro lado. Depois da minha passagem pela indústria , me decidi pela animação autoral, de corpo e alma (corpo porque desenho no papel cada fotograma do filme, e alma porque o desenho força a alma para dentro da cena)

Eu me interesso pela investigação dessa linguagem que pode dizer coisas que nunca foram ditas, por que carrega na própria estética uma ligação direta com o onírico. Porque agrega todas as outras artes e artesania na sua estrutura. Fala-se que o 2D está acabando. Pra mim está começando, com toda a fragilidade e vigor próprios das coisas que estão nascendo.

Você já trabalhou para grandes estúdios como a Disney. Como é trabalhar em mega-produções como Mulan e Lillo & Stich e que aprendizado essa experiência te trouxe?
Aprendi muito. Em estrutura de produção, por exemplo: penso as etapas da realização do curta-metragem com a mesma logística que vivenciei nos longas. Ainda que bagunce tudo no processo. Como animadora, aprendi muito sobre dar atenção à narrativa da cena animada, seu lugar na história. Aprendi sobre o trabalho de ator/atriz de personagens animados, que é o que eu acho mais louco na animação: comunicar que personagens, sejam bonecos ou desenhos ou recortes, possam pensar, respirar, viver.

Qual sua lembrança mais remota de querer trabalhar com animação? Como começou seu envolvimento?
Foi assistindo Lanterna Magica e os filmes do Nacional Film Board. Nesse tempo, fizemos entre amigos, numa passagem de ano, um filme de animação de massinha com cenários de recortes de papel, em super 8, chamado Uga Uga X Oingo Boingo . Era uma luta de boxe. Os personagens de massinha viravam uma única massa colorida no final. A ideia é boa. Penso num re-make 😉

Que artistas (não só animadores) influenciaram seu trabalho?
Clarice Lispector
Toulouse Lautrec
Lewis Carroll
Lizbeth Zwerger
Paul Driessen
Joanna Quinn
Frederico Fellini
Akira Kurosawa
Hayao Miyazaki
Tem muit@s mais. Conto outros nomes na próxima 🙂

Como você vê a animação brasileira hoje?​
Estamos vivendo um despertar efervescente. Torço pelo equilíbrio entre o desenvolvimento do lado mais industrial da animação e o investigativo, orgânico, artístico. Um desenvolvimento humanista que trate todas as pessoas envolvidas no processo com carinho e cuidado, e não como peças de uma grande máquina acelerando pra chegar a lugar nenhum. Ahow. Muito obrigada!

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