Sex And The City 2 não empolga e traz o quarteto completamente desfigurado
Por Fernando de Albuquerque

Foi em 1998 que tudo começou. Carrie escrevia colunas para um jornal, Miranda se matava enquanto advogada de uma firma, Charlotte em uma galeria de arte e Samantha tentava contabilizar homens e clientes da forma mais rápida que pudesse. Daí para os dias de hoje foram uma série de homens bonitos, feios, bem ou mal dotados, brancos, loiros, judeus, cristãos, ortodoxos e alguns casos de caridade explícita. Alguns deles ficaram no meio da narrativa como é o caso de Steve, o judeu Harry Goldenblatt e, claro!, Mr. Big. Uns acrescentaram, outros tiveram um papel mais forte, mas a essência, até hoje, ainda é a mesma. O quarteto cheio de personalidade própria e um amor irrestrito não pôde ser ofuscado. Três das meninas se casaram. Duas, tiveram filhos. E Samantha permaneceu em sua cruzada em engordar sua agenda sexual e profissional.  E foi dentro desse cenário que se deu a trama de Sex And The City 2. O novo filme da franquia que teve seis temporadas, 96 episódios e mais de 45 horas de duração.

» Sex and The City 2 faz caricatura da figura feminina

Nesse segundo filme todas elas realizaram o sonho dourado do matrimônio, mas permaneceram com algumas questões inconclusas sobre suas vidas profissionais e existênciais. Carrie se vê envolvida com a publicação de um livro que não foi nem um pouco bem recebido pela crítica e se vê ameaçada pelo comodismo de Mr. Big. Ele prefere a TV e comida chinesa por telefone que ficar contemplando sua amada de forma irrestrita.

Já Charlotte não consegue dar conta de suas filhas sozinha. E que mãe conseguiria lidar com uma sinodencendente sedenta por atenção e uma caçula cujo único ofício é reclamar e chorar. Ela contrata uma babá judia que não usa sutiã despertando o desejo do marido e o seu ciúme irrestrito. Miranda mantém-se genuína em seus dilemas. Atribulada com o trabalho não consegue dar ao marido e ao filho a atenção necessária. E, ao enfrentar um chefe misógino finda por pedir demissão da companhia em que trabalhou a série inteira. E só Samantha mantém-se fiel ao seu destino e aos fatos de sua própria consciência. Correndo, sempre, atrás de homens e clientes.

E é ela que nos desvela o real motivo de Sex And The City 2. Ela nos exibe que há muito mais problemáticas embutidas naquilo que vem depois do “happy end”. Ninguém volta pra casa feliz e o filme simplesmente acaba. Ainda existem compromissos, coisas para serem feitas e o principal, enfrentar o tempo. Inclemente. Samantha o enfrenta com toda orda de cremes, pílulas e complexos hormônicos que puder. Charlotte não o enfrenta…chora e espera que alguém a salve. Carrie luta contra ele, mas sempre se frustra pois a vontade de seu homem de ver TV é bem maior que seu silicone. Já Miranda tenta enganar o tempo e a idade. Ela responde e-mails na velocidade da luz, trabalha incansávelmente para tentar dribá-lo, mas também se vê de frente ao vaticínio.

E Sex And The City 2 é isso. Quando a idade chega, os sonhos se realizam, as vontades são saciadas e quase não há idiossincrasias, o que se deve fazer? Partir! Ir em busca de novos horizontes. É isso que o quarteto faz. No Oriente Médio, Charlotte se consome pela distância, Carrie prova para si mesmo que é melhor aceitar e baixar a guarda sempre. Miranda atesta que mesmo com tantas atribulações é preciso se divertir e sorrir com um porre.

Samantha, contudo, mantém-se a mesma. Numa busca constante pela necessidade de rodar a catraca ever! E ela, aqui, é nossa diva. A verdadeira estrela. Exibindo, contra toda sorte, que é preciso ser fiel ao ideário original. Ela queria sempre homens sem compromisso. Conseguirá sempre. Ela sempre quis crescer mais e mais na carreira. Seu vetor não pára. Seu feminismo e incessante. Sua luta é diária.

A heroina Samantha prova que o verdadeiro ideário está em sair de casa pela manhã e saber que tem de lutar por algo dia a dia. A constância é que diminuir. Que faz os sonhos estancarem. Que o progresso só surge na urgência dos fatos e quando nos agarramos, sem sentido algum, às oportunidades que passam em nossa frente.  Ela carrega o ideário que originou a série sozinha. Pois todas as suas “irmãs” mudaram.

E mesmo que o sentido original seja nobre é impossível perdoar o diretor e a produção por certos deslizes. Levar o quarteto novaiorquino ao Oriente Médio faz o espectador rememorar cenas da série de filmes Emmanuelle. O deserto está constantemente deslocado na carreira das quatro amigas. Os cenários não combinam. Liza Minelli faz bem o seu papel, mas deixa claro, para todos, que a idade chega, sim. Na coreografia de “Single Ladies” ela segurou a voz, mas não os movimentos.

Outro desastre são os diálogos extremamente simulados. As meninas já não estão mais espontâneas como antes. Já não tão entrosadas como antes. Mas, apesar de tudo, a amizade permanece. E essa talvez seja o único espaço para se agarrar.

NOTA: 3,0

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