Rodrigo Lacerda (Foto: Divulgação)

LITERATURA NO DIVÃ
Autor carioca faz de sua trama uma análise psicológica e social sobre um casal em crise que abandona tudo para voltar às origens
Por Paulo Floro

OUTRA VIDA
Rodrigo Lacerda
[Alfaguara, 184 págs, R$ 39,90]

Rodrigo Lacerda está interessado em seu novo livro numa espécie de onisciência que faz um julgamento constante de seus personagens. É como se eles estivessem vigiados sob seu olhar crítico, sem condescendências. Não está interessado nas individualidades, nem pormenoriza atos ou pensamentos, tanto que seus personagens não tem nome, apenas algo que os identifiquem, como a relação de parentesco ou cargo (o filho, a mulher, o amante, o deputado). Dito isso, é pouco dizer que Outra Vida, do escritor carioca Rodrigo Lacerda é um romance sobre relacionamentos.

Uma das atrações da Flip deste ano, Lacerda, autor de Vista do Rio (Cosac Naify, 2004) e O Mistério do Leão Rampante (Atelier Editorial, 1995), pelo qual venceu o Jabuti de Melhor Romance procura fazer uma tour analítica neste novo livro, mas outras leituras podem ser obtidas, descortinando pequenas nuançes que o autor escondeu em sua narrativa. Outra Vida perpassa duas horas de um casal em uma rodoviária. Acompanhados pela filha pequena, eles estão voltando para a pequena cidade no litoral, de onde se conheceram. O marido está aliviado e ansioso pela volta, ainda que esteja consternado pela situação da mulher, que rejeita esse retorno. Ele se envolveu num esquema corrupto envolvendo fraude em licitações públicas.

Este pano de fundo, que critica um status quo corrupto no País é bastante verossímel e mesmo que por vezes se perca na trama, é interessante por situar os personagens em algo mais próximo ao leitor. Chega a ser familiar e recente algumas passagens. Já o que torna o livro distante – e por vezes modorrento – é a certa prepotência com que o narrador onisciente analisa os personagens. Não existem descrições nem sugestões, tudo aqui é debulhado, criando uma barreira para que o leitor se aproxime dos personagens.

Lacerda tem pulso firme em sua narrativa e trama. Não quer dar empatia aos personagens, eles nem mesmo tem voz, ou sequer diálogos. É uma formatação tão rígida, que chega a ser admirável em sua complexidade. O autor é um júri e analista, sempre dissecando a psique de seus atores e de quem mais estiver ao redor. Nesse sentido sua literatura se aproxima dos romancistas realistas como Gustave Flaubért, com a diferença de que, ao contrário do autor de Madame Bovary, Lacerda não deixa margens para descobertas por parte do leitor.

Seu êxito é mesmo traduzir a crise dos relacionamentos, usando apenas três arquétipos de personagens, a mãe/mulher, o marido e a filha. Em apenas um dia – e muitas divagações e flashbacks – o autor discute dilemas éticos, morais, sociais, mas o que toca mesmo é o modo frio com que mostra que, a partir de pequenas escolhas, uma outra vida que poderia ter sido, e não foi.

NOTA: 7,0

Sem mais artigos