oscar2013

O QUE ESPERAR DO OSCAR 2013
Na berlinda por ignorar nomes elogiados este ano como Ben Affleck e Kathryn Bigelow, Academia quer mostrar que ainda é capaz de surpreender

Por Wiston Graysmith

Tido como previsível, o Oscar 2013 pode surpreender. A Academia de Artes e Ciência Cinematográficas de Hollywood criou novas estratégias este ano para manter o interesse do público e reafirmar sua relevância como mais importante prêmio da indústria.

Leia críticas de indicados deste ano no NE10

Criado no final dos anos 1920, o Oscar foi o primeiro a reconhecer talentos do cinema, criando uma competição saudável como pretexto para atrair mais público e novos artistas. No entanto, novos prêmios foram criados na década de 40 como o Globo de Ouro, concedido pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, e o BAFTA, da Academia Britânica de Filmes e TV, acabando com o reinado supremo do Oscar.

Cientes da importância da estatueta da Academia, os prêmios criados posteriormente foram praticamente obrigados a divulgarem seus resultados antes, pois corriam sério risco de ficarem obsoletos. No cenário atual, como existem incontáveis prêmios e todos se apertam no calendário entre os meses de janeiro e fevereiro, quando chega a vez do Oscar, os vencedores já se tornaram previsíveis. Esse panorama claramente prejudicava o interesse do público em relação ao Oscar, fazendo com que os organizadores da Academia resolvessem adotar uma nova estratégia a partir deste ano.

Argo pode levar melhor filme depois da avalanche de prêmios pré-Oscar (Divulgação

Argo pode levar melhor filme depois da avalanche de prêmios pré-Oscar (Divulgação

Primeiramente, adeus aos votos impressos em papel. Além de ser ecologicamente melhor aceito e eliminar custos de envio, a votação por meio da internet possibilitaria adiantar a cerimônia do Oscar para mais cedo. Seguindo essa estratégia, conseguiram adiantar em três dias o anúncio dos indicações em relação à entrega dos Globos de Ouro, que era visto como parâmetro na escolha dos indicados. Se formos pensar em surpresa como objetivo, pode-se afirmar que o plano da Academia funcionou, pois além do vencedor do Globo de Ouro de direção, Ben Affleck sequer ter sido indicado, apenas 14 dos 20 atores nomeados do SAG Awards (Screen Actors Guild) seguiram na lista final do Oscar, contrariando a média de 17 a 19.

Por outro lado, a ausência de alguns nomes consagrados de 2012 causaram enorme estardalhaço na mídia e entre cinéfilos revoltados ao redor do mundo. No topo, o fato de Ben Affleck ter ficado de fora da competição de diretores foi considerado um erro gritante. Alguns especialistas tentaram justificar sua exclusão por considerarem Affleck ainda muito imaturo para o cargo, já outros mais radicais acreditam que a ala conservadora da Academia estaria aplicando um castigo por erros passados como ator, especialmente em 2003 pelos fracassos de Demolidor – O Homem Sem Medo e Conduta de Risco. Por mais que a primeira dedução seja a mais plausível, o que dizer então da indicação do estreante Benh Zeitlin, de Indomável Sonhadora? Incoerência?

A categoria de direção foi o grande alvo de controvérsias. Havia três diretores praticamente garantidos na corrida: Kathryn Bigelow (A Hora Mais Escura), Tom Hooper (Os Miseráveis) e Affleck por terem sido indicados ao DGA (Directors Guild of America, o melhor parâmetro do Oscar, com apenas seis divergências de vencedor em 70), mas foram ignorados e substituídos por nomes menos comentados e premiados: David O. Russell (O Lado Bom da Vida), Michael Haneke (Amor) e Benh Zeitlin (Indomável Sonhadora). Assim como Ben Affleck, seu filme Argo também conquistou inúmeros prêmios da temporada, inclusive o PGA (Producers Guild of America), mas com a exclusão de seu diretor, as chances de vitória como Melhor Filme reduziram drasticamente, uma vez que a última produção a vencer o Oscar sem ter seu diretor indicado foi há 23 anos, quando Conduzindo Miss Daisy ganhou.

Nesse cenário polêmico, estariam os organizadores da Academia satisfeitos ou completamente arrependidos? Se realmente buscavam agitar os resultados e se desprenderem dos demais prêmios, a estratégia funcionou tão bem que pode se repetir nos anos seguintes, especialmente se esse burburinho refletir na audiência da cerimônia na TV, no dia 24 de fevereiro.

Parte dos votantes da Academia deve tentar compensar essa mancada e eleger Argo como Melhor Filme. Ben Affleck receberia seu Oscar, mas como produtor do longa, ao lado de George Clooney e Grant Heslov. Montagem e Roteiro Adaptado são as melhores possibilidades para Argo. O último Melhor Filme com dois Oscars foi O Maior Espetáculo da Terra, de 1952.

A Hora Mais Escura mostra que o interesse por temas americanos está de volta (Divulgação)

A Hora Mais Escura mostra que o interesse por temas americanos está de volta (Divulgação)

EUA em pauta outra vez
Depois de se encantar com a história do rei britânico gago de O Discurso do Rei e de um ator fadado ao fracasso da era muda de Hollywood em O Artista, o Oscar volta a centrar suas atenções às sagas americanas. Liderando com 12 indicações, o drama histórico sobre o presidente que aboliu a escravidão, Lincoln junta-se ao resgate dos diplomatas americanos no Irã em 1980 de Argo e a busca por vingança pelos ataques terroristas do 11 de setembro de A Hora Mais Escura. Tematicamente, temos ligeira vantagem para Argo por mostrar Hollywood salvando vidas, ainda que existe uma alfinetada aos ideais americanos em todas as produções.

Vale ressaltar a força do lobby da distribuidora Weinstein Company. Seu fundador, Harvey Weinstein, que já liderou a Miramax, foi responsável por vitórias recentes do Oscar de Melhor Filme: Chicago (2002), Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), O Discurso do Rei (2010) e O Artista (2011), sem contar com o escandaloso ano em que Shakespeare Apaixonado bateu o favorito O Resgate do Soldado Ryan, e Roberto Benigni levou Melhor Ator por A Vida é Bela. Este ano, a Weinstein Company soma 17 indicações através de O Lado Bom da Vida, Django Livre, O Mestre e Expedição Kon-Tiki.

Pequeno grande recorde
Além do aspecto da votação eletrônica inédita e da mudança de calendário, este Oscar 2013 apresenta dois novos recordes curiosamente na mesma categoria: Melhor Atriz. Enquanto a francesa Emmanuelle Riva se torna a mais velha indicada aos 85 anos, a americana estreante Quvenzhané Wallis se torna a mais jovem aos 9.

* Wiston Graysmith é jornalista e é aficcionado por premiações. Ele mantém um blog sobre assunto, o Cinema, Oscar e Afins.

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