Em uma cerimônia marcada pelas quebras de protocolos e um tom menos respeitoso e sério que anos anteriores, a Academia manteve seu caráter conservador e previsível ao anunciar os ganhadores da estatueta dourada. Com a maioria esmagadora dos prêmios sendo entregues aos filmes favoritos dos críticos, e apostas certas nos bolões, a Academia se mostrou pouca apta a mudar seus parâmetros.

Houve uma certa surpresa, em uma ou outra categoria, mas não o suficiente para causar alvoroço. Nas categorias principais todas as dúvidas quanto aos vencedores foram se dissipando no decorrer da entrega dos prêmios, a cada ganhador anunciado ia se desenhando uma premiação coerente, previsível e sem riscos.

Dos filmes favoritos (A origem, A Rede Social, Cisne Negro e O Discurso do Rei) a saírem consagrados, coube ao último o papel de destaque, seguido por A Origem, ambos com 4 Oscar. A diferença está na classe das categorias vencidas por cada um, ficando A Origem com os prêmios técnicos (Melhor Efeitos especiais, Melhor Mixagem de som, Melhor Edição de som e Melhor fotografia), enquanto O Discurso do Rei venceu os prêmios ditos de consagração e destaque (Melhor Roteiro original, Melhor ator, Melhor diretor e Melhor filme).

Novamente vimos um esforço para consertar erros passados e a tentativa de recuperar deslizes, atitude comum nos prêmios de melhor atriz e ator e melhor ator e atriz coadjuvante. Um reconhecimento muitas vezes tardio que soa como prêmio de consolação, caso de Colin Firth, vencedor do prêmio de melhor ator por O Discurso do Rei, que tem em sua carreira atuações infinitamente melhores, mas que nunca tinha sido agraciado com o prêmio. Assim como o excelente Christian Bale, ganhador da estatueta de melhor ator coadjuvante, que desde sua primeira aparição se mostrou um dos melhores atores da nova geração e que nunca havia recebido uma indicação.

No prêmio de melhor atriz houve o reconhecimento merecido de Natalie Portman em atuação incontestável, no filme hype do ano, Cisne Negro (prêmio mais justo da noite). Melissa Leo levou o prêmio de atriz coadjuvante, mais uma vez em um reconhecimento tardio da academia, ela, uma das atrizes mais completas e versáteis, hoje.

Quanto a premiação de melhor filme, não houve surpresas. A Rede Social, filme que obteve maior número de indicações, e que teoricamente seria o grande rival de O Discurso do Rei, passou desapercebido, recebendo apenas 3 prêmios (Melhor Roteiro adaptado, Melhor trilha sonora, Melhor montagem). Cisne Negro, aclamado pelo público como o mais bonito e melhor filme só não passou em branco graças ao talento de Natalie Portman. Já o épico western dos irmãos Cohen não recebeu nenhum prêmio, perdendo até melhor fotografia, elemento mais forte de Bravura Indômita.

O Discurso do Rei ganhou como melhor filme, alcançando assim seu objetivo, não que seja um filme ruim, mas é sim um filme feito para a academia. Possuindo todos os moldes e uma história de superação, que conta com um grande elenco, se tornou o vencedor mais previsível da noite.

Com o decorrer da cerimônia ficava evidente que a possibilidade dos azarões, como Inverno da Alma, levar algum prêmio era impossível. Os prêmios dados a Toy Story 3, Melhor Longa Animado e Melhor Canção Original, não conseguiram nem causar emoção.
As categorias “secundárias” seguiram a mesma linha, sendo os vencedores trabalhos que já haviam ganho outros prêmios ou que correspondiam ao esperado.

Em sua 83° edição de entrega do Oscar, a Academia manteve sua tendência histórica e premiou os filmes redondos, feitos com qualidade, mas que seguem uma receita. O que ficou desta edição é uma nova forma de assistir à premiação, com comentários em tempo real, seja através do Twitter, live-blog, stream, entre diversas outras formas. Até o apresentador James Franco não parava de tuitar.

O Oscar 2011 ficará na lembrança por possuir bons filmes, mas que ao seguir a linha coerente e sem riscos perdeu o encanto, talvez seja o Oscar mais sem graça da história. No entanto, de forma geral, o ano de 2010 possuiu excelentes produções e apresentou novos diretores e atores de qualidade, os países emergentes da Europa apareceram como produtores de grandes filmes, mostrando horizontes e perspectivas novos.

Agora o que resta é saber quando a Academia abrirá os olhos para o que é inevitável, a renovação. [Camilo Nascimento]

Segue a lista completa dos vencedores e as categorias:

Melhor Filme:
O Discurso do Rei (The King’s Speech)

Melhor Diretor:
Tom Hooper – O discurso do Rei (The King’s Speech)

Melhor Ator:
Colin Firth – O Discurso do Rei (The King’s Speech)

Melhor Atriz:
Natalie Portman – Cisne Negro (Black Swan)

Melhor Ator Coadjuvante:
Christian Bale – O vencedor (The Fighter)

Melhor Atriz Coadjuvante:
Melissa Leo – O vencedor (The Fighter)

Melhor Longa Animado:
Toy Story 3

Melhor Filme em Língua Estrangeira:
Em um mundo melhor (In a Better World)

Melhor Direção de Arte:
Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland)

Melhor Fotografia:
A Origem (Inception)

Melhor Figurino:
Alice no País das Maravilhas (Alice in Woderland)

Melhor Montagem:
A Rede Social (The Social Network)

Melhor Documentário:
Trabalho Interno (Inside Job)

Melhor Documentário em Curta-metragem:
Strangers no More

Melhor Trilha Sonora:
Trent Reznor e Atticus Ross – A Rede Social (The Social Network)

Melhor canção original:
We Belong Together – Toy Story 3

Melhor Maquiagem:
O Lobisomem (The Wolfman)

Melhor Curta-metragem de Animação:
The Lost Thing

Melhor Curta-metragem:
God of Love

Melhor Edição de Som:
A Origem (Inception)

Melhor Mixagem de Som:
A Origem (Inception)

Melhor Efeitos Especiais:
A Origem (Inception)

Melhor Roteiro Adaptado:
A Rede Social (The Social Netwok)

Melhor Roteiro Original:
O Discurso do Rei (The King’s Speech)

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