Coringa (Foto: Divulgação)

QUEM QUER GANHAR UM OSCAR?
Por Daniel Herculano

O Oscar é a maior festa do cinema, digam o que quiserem. Que Cannes é puro charme, que Berlin mira a arte, que Veneza é tradicional, que o BAFTA é mais sério, que o Globo de Ouro é justo e que o Kikito… Bem, deixa pra lá.

Voltando ao Oscar. O prêmio da indústria consegue também ser o mais polêmico. Como ao premiar uma estrelinha ascendente ou dar uma homenagem a quem já está velhinho. Ou porque às vezes esquece-se de indicar quem merecia para depois premiá-lo (digamos) pelo conjunto da obra. Consegue ainda ser o mais cobiçado.

De cara, o novo formato deste 81º. Oscar chamou atenção, ainda que a cerimônia ainda guarde as mesmas burocracias e rigidez estética. Se antes os prêmios de melhor ator e atriz coadjuvante, melhor ator e atriz eram entregues pelo vencedor do sexo oposto do ano anterior, agora sobem ao palco cinco vencedoras e vencedores de anos anteriores, para primeiro: cada um comentar e valorizar as atuações de cada indicado. E segundo, ao tecer elogios ao indicado acaba por equiparar sua indicação como se já fosse uma vitória.

Entre as protagonistas, o primeiro prêmio da noite foi para o de melhor atriz coadjuvante. E quem venceu foi a favorita Penélope Cruz por Vicky Cristina Barcelona. Em mais um triunfo pessoal de Woody Allen, dirigindo mais uma atriz rumo ao Oscar. Penélope Cruz surpreende como Maria Elena, de verborragia (quase sempre em espanhol) incendiária, digna de aplausos, risos sinceros e uma agonia para Juan Antonio/Javier Barden (Fale em inglês! Maria Elena em inglês!).

O Curioso Caso de Benjamin Button (Foto:Divulgação)

O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON

Ter o maior número de indicações não significa traduzir em prêmios. E O Curioso Caso de Benjamin Button sucumbiu (com suas 13 indicações) ao poder que veio da Índia. Relegado aos prêmios técnicos (e não menos merecidos), Benjamin Button foi o grande perdedor da noite, levando o Oscar de melhor maquiagem, efeitos especiais e direção de arte & cenários (bela feitura). Mas convenhamos que não seja nada fácil fazer acreditar que Brad Pitt seja um senhor detonado pelo tempo, quase sem cabelo e com rugas saindo pelos cotovelos. Ah, e sua indicação como melhor ator já é um belo prêmio dentro da indústria hollywoodiana e mostra seu amadurecimento enquanto ator aos olhos da Academia.

Batman - O Cavaleiro das Trevas (Foto: Divulgação)

BATMAN – O CAVALEIRO DAS TREVAS

Não ter sido indicado ao prêmio de melhor filme (e por conseqüência como melhor diretor) já era um baque muito grande para uma obra que vinha sendo aclamada mundialmente. Um bilhão de dólares de bilheteria, críticas animadoras, um jovem astro (Heath Ledger) no papel da sua vida como o vilão definitivo. Uma morte acidental ainda deixou as coisas mais nostálgicas. Homenagem? Merecimento? Aclamação? Ponha tudo isso e ainda acrescente muito talento, e aí temos Heath Ledger como o vencedor do Oscar de ator coadjuvante. Lágrimas e aplausos de pé para uma atuação inesquecível. Seus pais (claramente emocionados e honrados, como todos que assistiram a esse momento) receberam o Oscar em seu lugar. Um prêmio póstumo (mas não inédito, em 1976 Peter Finch levou como melhor ator por Rede de Intrigas), mas não menos merecido. Em tempo: O Cavaleiro das Trevas ainda levou o prêmio de melhor edição de som.

O Oscar especial da noite foi para Jerry Lewis. Um gênio da comedia física, do humor inteligente e ate de alma romântica, Lewis recebeu a honraria das mãos de um pretensioso Eddie Murphy que soltou essa. Das mãos de um Professor Aloprado para outro.

OUTROS PRÊMIOS

A Duquesa (Foto: Divulgação)

A Duquesa levou o Oscar de melhor figurino, o único filme inteiramente de época entre os indicados, enquanto o vencedor do Globo de Ouro O Equilibrista (Man on Wire) de James Marsh, levou o Oscar de melhor documentário (longa-metragem).

Wall-E (Foto: Divulgação)

Wall-E

Mai uma obra-prima da Pixar merecia estar era entre os melhores filmes do ano, e não apenas como animação. Concorrendo em seis categorias (incluindo o divino roteiro original, prêmios técnicos, canção e trilha sonora), traduziu em vitória apenas o Oscar de melhor animação do ano.

Já vencedor do Globo de Ouro, Valsa com Bashir (Israel) era o grande favorito para ganhar o Oscar de filme estrangeiro, mas a Academia surpreendeu. Deu Japão e seu Departures (Okuribito) de Yojiro Takita.

E na batalha de melhor atriz…

Meryl Streep em Duvida (Foto: Divulgação)

Meryl Streep (como uma freira linha-dura em Dúvida) era a melhor das cinco indicadas, mas pesou duas coisas para a vitória de Kate Winslet por O Leitor, um filme apenas regular. Primeiro, Streep ganhou outras duas vezes (1979 – atriz coadjuvante por Kramer Vs. Kramer; 1982 – atriz por A Escolha de Sofia). Segundo, o sentimento de ressarcimento com Winslet foi gigantesco. Ela já havia perdido nada menos que em outras cinco vezes, e com apenas trinta e poucos anos. Levou por O Leitor num papel sob medida para a Academia, como uma alemã analfabeta e ignorante que seduz um jovem, aparece nua, tem um envelhecimento ajudado pela maquiagem, longa sobre o Holocausto. Só podia dar em Oscar.

E na batalha de melhor ator…

Sean Penn em Milk - A Voz da Igualdade (Foto: Divulgação)

Palmas esfuziantes para Sean Penn, por sua estupenda interpretação como Harvey Milk, o primeiro gay assumido a ser eleito para um cargo político dos EUA. Ao levar sua segunda estatueta de melhor ator, ele acabou roubando o Oscar do comeback do ano: Mickey Rourke e seu virtuoso O Lutador. Mickey ainda recebeu palavras carinhosas do vencedor. Milk – A Voz da Igualdade, que carregava oito indicações na sacola (incluindo filme e direção), ainda ganhou o Oscar de roteiro original (Na Mira do Chefe perdeu, que pena), do novato Dustin Lance Black.

Quem Quer ser um Milionário?

Quem Quer ser um Milionário? (Foto: Divulgação)

Danny Boyle dirigiu uma obra que não é sobre dinheiro, apesar de ter um possível milionário como protagonista. Também não se trata de pobreza, mesmo se passando nas favelas de Mumbai, na Índia. O filme é sobre é a trajetória pessoal e tem forte empatia com o público. Estava indicado em dez categorias, e arrastou nada menos que oito prêmios. Oscar de melhor filme, direção, roteiro adaptado, montagem, fotografia, (a surpresa) mixagem de som, trilha sonora e canção original (Jai Ho!).

P.S. Hugh Jackman provou seu talento e carisma, dançando, cantando e fazendo piadas. Engraçadinho e inteligente ao falar de recessão (incluindo um montagem com os indicados) conseguiu também dar um belo ritmo para uma noite sempre marcada pela morosidade e festa sem fim. Saldo da noite? Duas horas e trinta minutos de festa, a mais rápida (nem que seja por trinta ou vinte minutos) em vários anos.

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