MUITAS PERGUNTAS, POUCAS RESPOSTAS E MESMICE LITERÁRIA.por Fernando de Albuquerque


Uma pequena passagem do evangelho segundo Mateus, e que aparece com a mesma virulência em Lucas e Marcos, foi a mola mestra para despertar, no já tarimbado escritor gaúcho Moacyr Scliar a idéia de escrever um novo romance. Ele, com 69 anos de idade, possui 70 títulos publicados e ocupa cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2003. “Os Vendilhões do Tempo” (Companhia das Letras, 304 páginas) é o título do livro que até certo ponto concentra e aprimora algumas das linhas centrais de sua ficção. A revisão de temas bíblicos, por exemplo, já apareceu antes no romance “A Mulher que Escreveu a Bíblia” e no belo conto “As Pragas”.

Neste livro o escritor parte do episódio de São Mateus para desenvolver três narrativas, em tempos completamente diversos. Sempre pontuadas por muito humor (particularidade nos textos do autor), as histórias colocam o leitor a par da intrincada relação entre religião e comércio, religião e ideologia. Que, segundo Scliar, são contradições bem presentes nos dias de hoje. E se ele não avisasse ninguém saberia, não é?

Logo de cara o primeiro episódio reconta a diatribe de Jesus contra os mercadores sob a perspectiva de uma de suas vítimas. O personagem nem ganha um nome: é chamado apenas de “o vendilhão”. Um agricultor falido, ele se muda para Jerusalém em busca de uma nova oportunidade de vida para sua família. E a encontra, vendendo animais e trocando moedas no Templo, até ser perturbado pela irrupção de um líder religioso que poucos dias depois morreria na cruz. Na sua reconstituição da Jerusalém antiga, Scliar está sempre de olho no mundo contemporâneo – quando era agricultor, o vendilhão se imaginava uma vítima do que hoje chamaríamos de globalização: ressentia-se da livre concorrência com o trigo barato importado do Egito. E aí fica bem claro a tentativa de discutir, mesmo que seja sob o ícone de idéias bem clichês, questões contemporâneas que já foram esmiuçadas em demasia. Afinal os ignorantes bradam que tudo é culpa da globalização. E não tem nada mais démodé que pensar com cabeça de socialista utópico referendando os ideais de nacionalismo.

Já no segundo episódio, o tema é reeditado no Brasil do século XVII. O viés aqui é o do estranhamento cultural: um jesuíta que não entende guarani se vê diante de um velho índio que oferece toscas imagens religiosas em frente à igreja. Séculos depois, o pequeno povoado indígena se transforma em uma florescente cidade do interior, a fictícia São Nicolau do Oeste. É lá, em 1996, que tem lugar o último episódio, narrado em primeira pessoa por um jornalista que trabalha como assessor de imprensa da prefeitura. O vendilhão ressurge em um esquete teatral que os personagens centrais montaram na adolescência, num colégio católico. A condição judaica, assunto fundamental da obra de Scliar, aparece aqui como uma sombra sutil. A idéia que um dos garotos faz do vendilhão é a do estereótipo anti-semita: dedos em garra, nariz adunco, olhos que brilham quando avistam dinheiro. E agora sim a história ganha cores mais interessantes e dá até para antever um final mais trágico.

À luz dos fatos mais recentes, a caracterização que Scliar faz do partido de esquerda que toma a prefeitura de São Nicolau do Oeste (um grupo de gente idealista, um tanto ridícula em seu dogmatismo, mas no fundo um pouco honesta) soa muito ingênua. De qualquer forma, a intenção do autor pode até não ser a de comentar a política do momento, mas infelizmente é o que acaba fazendo. Os “Vendilhões do Templo” mira mais longe: é uma crítica às condenações que os fundamentalismos de todos os naipes erguem contra o dinheiro. Puro ardor de socialista ressentido. O comércio aparece no livro como um empreendimento inovador, libertário – uma das grandes aventuras humanas. Não por acaso, um dos heróis do romance será um simples camelô.

Voltando a questões técnicas: o trabalho de pesquisa é algo bem latente neste título composto por descrições minuciosas da Jerusalém dos tempos de Cristo e das missões jesuíticas no Sul do país, panos de fundo da primeira e segunda parte do livro. A terceira história, interligada às outras duas, se passa nos dias de hoje e tem como mote o choque de conflitos de poder, representado pela ideologia de esquerda, e a religião.

Médico por formação, especializado em saúde pública, Scliar, que tem entre os mestres da literatura o conterrâneo Érico Veríssimo e o tcheco Franz Kafka. Desde cedo aprendeu a conciliar as duas atividades para sobreviver. Antes de “Os vendilhões do Templo”, o escritor teve seu romance do ano passado, Na noite do ventre, o diamante (Objetiva), classificado em terceiro lugar entre os finalistas ao Prêmio Jabuti (da Câmara Brasileira do Livro) deste ano, na categoria romance.

OS VENDILHÕES DO TEMPLO Moacyr Scliar
[Companhia das Letras, 304 pgs, R$ 43]

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