COM A CRUELDADE DE UM CONTO DE FADAS
Editado pela Desiderata “Os irmãos Grim em quadinhos” dão toque visceralidade e sordidez aos contos de fadas europeus
Por João Soares, especial para O Grito! e Fernando de Albuquerque

Alan Alex, Walter Pax, Rafael Sica, Fido Nesti, Fábio Lyra, Vinícius Mitchell e Rafael Coutinho, filho de Laerte, foi o time de novos quadrinistas selecionado para trazer de volta, agora em formato completamente diferenciado, a verdadeira essência das histórias contadas pelos Irmãos Grimm, no século XVIII. São 14 contos ilustrados em P&B, distribuídos em 176 páginas carregadas de ousadia e sordidez já que as histórias contadas pelos irmãos guardam detalhes tão desprezíveis quanto madrastas crudelíssimas, mutilações e canibalismos. Tudo sem a fantasmagoria camuflada por belos desenhos clássicos e deleites morais criados pela Disney.

E a coletânea carrega nos tons quando conta, por exemplo, a história do príncipe de Cinderela que vaga pelo seu reino em busca do pé que se encaixará no sapatinho de cristal. No livro da Desiderata quando as duas irmãs malignas da Gata Borralheira experimentam o sapato e ele não entra, elas cortam o calcanhar e o dedão até que o pé se encaixe inteiramente. O que as denuncia é o jorro de sangue que um bando de passarinhos mostra ao príncipe. Os mesmos passarinhos cegam, sem dó nem piedade, as irmãs e a madrasta da Gata Borralheira.

Os desenhistas foram selecionados de acordo com a necessidade narrativa de cada conto. Todos, entretanto, tiveram em comum uma iconografia medieval e mesmo assim, as diferenças de estilo de cada desenhista são visíveis. O novo fôlego da Desiderata dá características barrocas, geométricas, minimalistas e “mal acabadas” aos desenhos demonstrando a pluralidade visual do traço, a variedade de influências uma verdadeira aula de quadrinho.

Para os que conhecem histórias como Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho ou Rapunzel apenas pelas versões para crianças, a surpresa é inevitável. Os jovens desenhistas reforçam o horror e a escatologia do passado. No conto do Chapeuzinho, por exemplo, o nariz do lobo vira um objeto fálico e a fome do vilão pela mocinha ganha um significado muito mais libidinoso. Outras figuras também aparecem de uma forma não muito familiar ao público moderno: o Pequeno Polegar é um moleque mal-criado, que chuta as canelas dos tios por maldade, enquanto a nada pudica Rapunzel se entrega a carícias íntimas com o príncipe.

Tradição – Os contos dos lingüistas e folclorias irmãos Grimm (Jacob e Wilhelm Grimm, que viviam num meio protestante extremamente rígido), são considerados educativos, fundamentalmente morais e foram colhidos a partir da tradição oral européia e publicados entre os anos de 1811 e 1863. Com o passar dos anos e sucessivas reedições, cortes e diluições as histórias ficaram tão chatas que virou leitura para ninar criancinhas. Mesmo com a licença poética as historietas procuram guardar os mesmo ensinamentos morais das originais.

As histórias são:

Velho Sultão (Allan Alex)
A Gata Borralheira (Fido Nesti)
João Porco Espinho (Claudio Mor)
Os Músicos de Bremen (Vinicius Mitchell)
O Pequeno Polegar (Daniel Og)
João e Maria (Carlos Ferreira e Walter Pax)
João Sortudo (Rafael Sica)
Branca de Neve (Rafael Coutinho)
O Rei Barbicha (Eduardo Filipe, o Sama)
Chapeuzinho Vermelho (Arthuro Uranga)
Margarete Esperta (Roberta Lewis)
As três Línguas e Odyr Rapunzel (Fábio Lyra)
A Bela Adormecida (Allan Rabelo, S. Lobo e Sr. Blond)

IRMÃOS GRIMM EM QUADRINHOS
Vários Autores
[Desiderata, 176 págs, R$ 24,90]

NOTA: 8,0

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