Os Desafinados (Foto: Divulgação)

NOSTALGIA POP DE OS DESAFINADOS
Filme de Walter Lima Junior relega o tempero político dos Anos Dourados à notas de rodapé ao tentar recontar o the best of da Bossa Nova
Por Fellipe Fernandes , especial para Revista O Grito

OS DESAFINADOS
Walter Lima Jr.
[Brasil, Downtown Filmes, 2008]

2008 – esse é um ano marcado por celebrações ao passado: quarenta anos do Maio De 68, quarenta anos da Tropicália, cinqüenta anos da Bossa Nova… Enfim, nostalgia para dar e vender. Frederic Jameson – filósofo, teórico da comunicação e estudioso da pós-modernidade – falava sobre uma nostalgia pelo presente, uma saudade de um tempo não vivido que leva a uma idealização do passado.

Atualmente, essa idealização tornou-se atrativo comercial: cada vez mais produtos que resgatam uma aura de anos passados são lançados no mercado e vão criando uma nova categoria de bens de consumo, que têm na nostalgia seu ponto forte. Deste modo, a nostalgia está cada vez mais Pop. Seguindo esse pensamento, nada mais natural que um filme para celebrar os cinqüenta anos da bossa nova, assim surge Os Desafinados, de Walter Lima Junior.

No entanto, aquilo que o filme teria de melhor para nos oferecer, a nostalgia, é relegada a pano de fundo: W.L.J. diz ter feito um filme sobre a amizade. Os Desafinados é o nome do quarteto formado pelos amigos Joaquim (Rodrigo Santoro), Davi (Ângelo Paes Leme), Geraldo (Jair Oliveira) e PC (André Moraes). Em 1962, eles vêem como a grande chance de suas vidas se apresentar no Carnegie Hall, em Nova Iorque, num grande show de bossa nova. Apesar de não serem selecionados pela curadoria do show, os rapazes viajam para a cidade, juntamente com o amigo Dico (Selton Melo), onde irão conhecer a músicista Glória (Cláudia Abreu) e viver histórias que mudarão suas vidas.

Os Desafinados (Foto: Divulgação)

Ao voltarem para o Brasil, todos encontram o país dominado por militares. O filme nos mostra uma banda e sua busca pela fama, bem como as relações pessoais de seus integrantes, através das lembranças desses personagens reunidos por Dico, nos dias atuais, para a gravação de um especial para televisão. Entretanto, vemos tudo isso à distância. Não nos sentimos envolvidos com a época, os chamados Anos Dourados, marco na história cultural brasileira, fundamental para diversas gerações musicais que surgiram no país desde então – sem contar com a década seguinte, na qual se desenrola parte do enredo do filme, cuja agitação cultural também é marcante.

Além disso, elementos que deveriam ter destaque, em se tratando de um filme que trabalha a nostalgia, como a arte e a trilha sonora, que não possui músicas em gravações originais da época, passam despercebidos nessa produção. Tudo isso talvez fosse justificado pelo fato do diretor privilegiar a história dos amigos em relação aos acontecimentos do período, mas também não nos envolvemos com os personagens. Não por conta das atuações, que conseguem ser eficientes, com a exceção de André Moraes.

Há ainda outros elementos que nos distanciam do filme, como, por exemplo, o ator Arthur Kohl que tem a própria voz substituída pela a de Selton Melo, pois eles fazem o mesmo personagem em diferentes épocas. Tudo isso pontuado por diálogos pouco interessantes com a introdução de referências históricas de forma bastante artificial. Enfim, para um diretor que ganhaou o Urso de Prata, a última obra de W.L.J. se mostra medíocre. O longa-metragem fica num meio termo, terra de ninguém: não é um filme de personagem, como era a intenção do diretor, nem um registro valioso do momento histórico importante, que o próprio diretor, e roteirista, conheceu de perto.

Falta a Os Desafinados uma força própria, falta cores, falta o sal, o sol e o sul, que poderia ser tirado com maestria da bossa nova tão falada, mas pouco sentida no filme. Vemos que o amor, o sorriso e a flor estão na tela, mas a melodia que os rege desafina.

NOTA: 3,0

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