Teatro Oficina (Foto: Divulgação)

OFICINA SISTINA
No ano em que comemora 50 anos de vida, o Teatro Oficina, um dos mais importantes grupos teatrais do Brasil, estréia a peça “Os Bandidos”, de Schiller
Por Eduardo Carli

São 50 anos de história onde arderam, irresistivelmente, as mentes e os corações de todos que embarcaram na aventura do Teatro Oficina. Através de peças sempre contestadoras, provocativas e incendiárias, formou-se o que é hoje um dos mais importantes e históricos coletivos teatrais do Brasil. Com um passado de peso quase mitológico, eles demonstram estar dispostos a enfrentar o futuro com a mesma paixão e entusiasmo de sempre, espalhando uma “tempestade de ardor irresistível” (como diz o novo “lema” da trupe, adaptação livre do “sturm und drung” dos românticos alemães). E sempre gritando “Merda!” para o que merece ser xingado e deposto.

Depois do ambicioso e colossal projeto Os Sertões, que reconstruiu em 5 peças e cerca de 25 horas de encenação o clássico de Euclides da Cunha, chega a hora de uma nova empreitada. No ano em que o Oficina comemora meio século de vida, estréia Os Bandidos, de Schiller (1759-1805), com adaptação e direção de Zé Celso Martinez Côrrea, em cartaz em São Paulo às sextas (21h), sábados e domingos (18h) no clássico teatro no bairro do Bixiga.

Fazer algo à altura de Os Sertões é tarefa das mais complicadas, claro: difícil superar o que foi um dos espetáculos mais ambiciosos e bem-realizados da dramaturgia brasileira recente. Quem viu, sabe que ali se montou um verdadeiro caldeirão de cultura tupiniquim. Uma caótica e fervilhante mistura de raças, pessoas, credos, cores, tecnologias e estilos teatrais. Uma hiperbólica e fascinante mescla de epopéia, orgia, farra, sátira, tragédia – além de um vasto curso de folclore e um profundo ensaio de antropologia. Uma obra-prima. Depois da saga de Canudos e Antônio Conselheiro, Zé Celso e sua turma partem para outro projeto.

O âmago de Os Bandidos, nova aventura do Oficina, é uma turbulenta relação familiar entre dois irmãos, Kosmos e Damian (em alusão a Cosme e Damião). Eles são filhos do dono de uma empresa multinacional, cáustica e ironicamente chamada de SS Pro-World Corporation – remetendo aos SS de Hitler. Kosmos (Aury Porto) representa uma inteligência diabólica, que visa assumir o comando da empresa por meio de complôs e tenebrosas transações. Já seu irmão Damião (Marcelo Drummond) é uma espécie de Ovelha Negra: um Robin Hood pós-moderno, que chefia uma gangue de foras-da-lei, aposta na politização do banditismo e tem sua cabeça posta à prêmio pelas autoridades. Uma deslumbrante mulher, Ariadne Brasília (Sylvia Prado), objeto de disputa entre os dois irmãos, apimenta o caldo dessa fraternidade condenada à rixa sangrenta.

Como é comum, a adaptação é bastante livre e Zé Celso traz uma série de elementos anacrônicos e heterogêneos para este riquíssimo caldo artístico. Obviamente, o dramaturgo alemão não utilizou vocábulos tão indignos de um autor tão refinado como “merda”, “cuzão” e “boceta” – dos quais os atores lançam mão no palco. Schiller também não teve o inenarrável prazer de conhecer “figuras” como He-Man, Sílvio Santos, Che Guevara e o Diadorim de Guimarães Rosa, personagens que dão as caras por aqui sem vergonha.

O autor certamente não imaginou tampouco que uma peça sua pudesse ter incorporados elementos multimídia e sonoplásticos dos mais diversos: projeção de vídeo no chão e nas paredes, vídeo-clipes simulando noticiários e propagandas, um diálogo irônico com o conceito de novela-das-oito e adaptações de clássicos da música erudita para o mundo do rap e do tecno. Tudo isso que faz o Oficina virar um legítimo “terreiro eletrônico” ou templo pós-moderno nesta “ópera de carnaval” que é “Os Bandidos” – onde Schiller é comido, digerido e vomitado de volta para o mundo num processo antropofágico e anárquico que Oswald de Andrade aprovaria com louvor.

Teatro Oficina (Foto: Divulgação)

Por quê a escolha por Schiller, um dos dramaturgos que mais marcou a literatura alemã do século 18 junto com Goethe? O próprio Zé Celso esclarece (em declaração à Folha de São Paulo): “Tivemos a sorte de cair Schiller em nossas mãos. Se Freud acentua a sexualidade e Marx, a economia, Schiller analisa a arte e a beleza como infra-estrutura, e não superestrutura. A cultura é a arte de viver, o cultivo da vida. E essa arte é o maior bem que existe diante dos criminosos que querem transformar a vida em subproduto da economia”.

Que o público, porém, fique de sobreaviso: a duração das peças continua sendo de um excesso que beira a loucura. A estréia em Sampa de Os Bandidos teve mais de 6 horas e meia de duração, prolongando-se das 21h até perto das 4hs da madrugada. Aqueles que achavam ser praticamente impossível pegar no sono dentro de um lugar tão eletrizante quanto o Oficina, como eu convictamente sustentava, tive que mudar um pouco minhas opiniões ao notar que sim, gente bocejava e dormia no último terço da peça. Vale questionar: como conciliar um desejo de fazer um teatro popular com peças capazes de causar tão extrema fadiga mental? A crítica precisa ser feita: o Oficina continua pecando por uma certa falta de concisão, de capacidade de síntese, que faz com que as peças às vezes pareçam intermináveis. Tudo ali é hiperbólico e gritante, como se quisessem marcar a fogo, na mente do público, a passagem por aquele incêndio, por aquela tempestade. Como um ritual que exige um pouco de sofrimento físico e mental para ser memorável.

À parte isso, com Os Bandidos o Teatro Oficina, esse cinquentão enxuto, permanece firme e forte em seu papel de contestador, provocador e agitador cultural. O Oficina é uma lição de vida – e uma lição de que o teatro pode (e deve!) ser um modo de intervenção ativa no social e no individual. Longe da “arte pela arte”, a proposta estética deles é a de uma intensa transformação e ebulição do mundo e das pessoas: na área do comportamento, da sexualidade, da política, da existência. O teatro como tempestade de ardor.

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