TRISTEZA EM TONS RUBROS NO NOVO ALMODÓVAR
Aguardado longa do diretor espanhol surpreende com ares de thriller e causa comoção no Janela de Cinema
Por Rafaella Soares

OS ABRAÇOS PARTIDOS
Pedro Almodóvar
[Los Abrazos Rotos, ESP, 2009]

Cinéfilos de última hora ou legítimos amantes do cinema já sabem: em dia de estréia concorrida no Cinema da Fundação rola um frisson curioso. O primeiro time, se alvoroça, empertigado em mil referências de vestuário para explicitar seu gosto pela sétima arte. O segundo reune várias gerações, num grupo bastante heterogêneo, protagonizando uma verdadeira Guernica – já que estamos em esfera hispânica – para aquisição de ingressos. Faz parte da mítica, e se um dia o endereço na Rua Henrique Dias fechar (toc, toc) todos sentiremos falta das filas enormes (que, grosso modo, refletem interesse grande dos recifenses por cinema de qualidade), das sessões concorridas, etc.

A primeira consideração a ser feita sobre Os Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos, ESP, 2009) é: a câmera ama Penélope Cruz. Nenhuma mulher emulando Audrey Hepburn e Marilyn Monroe deixa de perigar um visual risível, e a nova musa de Almodóvar (noiva do também galã Javier Bardem – de Carne Trêmula – segundo especulam os tablóides) incorporou cada uma das vestimentas, perucas e ângulos corajosos com desenvoltura.

Magdalena ou Lena, vivida por Penélope, é uma secretária madrilena tentando driblar o câncer intestinal do pai enquanto trabalha pro milionário Enrique Martel, agarrando eventuais programas para aumentar a renda. O ano é 1994, e um fast foward de 14 anos mostra o roteirista Harry Cane, cego, ouvindo a narração do El País por uma bonita loira, que logo estará no seu sofá – cena sensual  que vai amenizar muito a pecha de assexuado dos deficientes visuais.

A notícia da morte do economista Enrique Martel, e o surgimento de um jovem chamado Ray-X, pedindo a co-autoria de Cane num filme autobiogáfico, transporta o mesmo para o início da década anterior. Um acidente com o jovem Diego, vítima acidental de uma overdose, e a ausência da mãe do adolescente na cidade – produtora e amiga de Cane nos leva pelo imenso flashback que toma conta do filme, atando fios desconexos no início da narrativa.

Harry Cane foi o heterônimo encontrado por Mateo Blanco (interpretado por um Lluís Homar parecidíssimo com Patrick Swayze, a propósito) para iniciar uma nova vida após uma tragédia pessoa e profissional. Lena, Mateo, Ernesto Martel e Ernesto Filho, Judit (agente literária de Mateo, e mãe de Diego) todos são ângulos de uma trama caracteristicamente almodovariana, embora demore a engrenar. Mas tá tudo ali, o cenário familiar reconfortante como a primeira casa da infância para os fãs neófitos.

Tomates imensos sendo cortados revelando as tais cores de Almodóvar, participações afetivas de Rosi de Palma e Chus Lampreave, além da auto-referência do cineasta ao clássico Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos. Ele pode, o homem é quem mais tem propriedade sobre sua obra, e gaspachos com tranquilizantes na telona desde já são instituição.

A história humana por trás do filme é bastante triste. Mesmo os momentos pontuados de comédia não causam impressão mais marcante do que um casal em plena crônica do amor louco com trilha sonora de Cat Power – descontando, com louvor, as cenas da leitora de lábios, mais impagável impossível.

Amor, posse, ciúmes, propusões básicas que nunca serão vistas da mesma maneira por mais de uma pessoa, mesmo se uma mesma rever os fatos com o passar dos anos. Afora sua beleza, a protagonista Lena pega emprestados olhos, sorriso, corpo, presença fenomenal de Penélope Cruz e envolve numa maturidade que mais tem a ver com desventuras acumuladas da própria do que presença constante nas telas da atriz.

Oa Abraços Partidos não é O Almodóvar, mas carrega no dna toda a dramaticidade e pungência que só uma legítima produção da El Deseo tem. É uma evolução; vai ser sempre o garoto da Mancha, ora flertando com o thriller, ora em comédia rasgada, ora em dramalhão confesso. Ainda há toda a poesia quando se crê em um grande amor encerrado num beijo dentro de um carro.

NOTA: 7,5

LEIA A COBERTURA DO JANELA INTERNACIONAL DE CINEMA

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