O FIM DO LÁTEX
Em Órfãos do Eldorado, escritor amazonense vende mais de 10 mil exemplares, esgotados nas lojas, e fala de um Norte brasileiro que está distante do mito do bom selvagem
Por Rafael Dias

Não há atualmente um escritor com mais aura de “antigo” que Milton Hatoum. Seus livros evocam o passado sem receio de parecer datado, seja em suas narrativas romanescas imbuídas de lirismo e força transbordantes, típicos de um clássico do Século 19, ou pelo interesse telúrico em se debruçar sobre contos e lendas de um Brasil quase mítico. Mas não é passadista; pois recorta uma memória e a transpõe para o hoje, com o mesmo frescor e urgência de sua origem.

Deve ser por isso que esse romancista manauense de 55 anos, radicado há dez em São Paulo, é tão cortejado em meio a sua geração. Uma prova disso é o seu último livro, Órfãos do Eldorado, que chegou às livrarias do País no começo deste mês cercado de muitas expectativas e elogios efusivos. E com razão: a obra é uma pequena pérola da literatura contemporânea brasileira.

Pequena porque não se trata de um romance; e sim de uma novela, com pouco mais de cem páginas e poucos personagens. Encomendado por uma editora escocesa (Conangate) para integrar a coleção “Mitos”, Órfãos do Eldorado teve de obedecer a esse formato para ser lançado no exterior, com traduções para 16 países, antes de ser editado no próprio Brasil pela Companhia das Letras. Com uma temática recorrente à cultura e paisagens amazônicas, Hatoum prescreve um caminho parecido com o de Jorge Amado: alimentar a curiosidade e a sede do leitor estrangeiro pelo exótico universo e costumes do ainda desconhecido Norte brasileiro. Se isso é bom ou não, só o futuro irá dizer.

De qualquer forma, Hatoum sabe como ninguém descrever a riqueza e ambiência de sua terra natal, com rigor de forma e fineza poética. Neste livro, ele retoma essa linha, assim como fez em Cinzas do Norte e Dois irmãos, em um enredo sobre amor e decadência no Amazonas do período Entre-Guerras.

A trama gravitaciona em torno de Arminto Cordovil, um jovem manauense, herdeiro de uma rica e heróica dinastia do ciclo de ouro da borracha. Ele carrega o fardo de perpetuar a tradição do pai Amando e o avô Edílio, durante a fase de decadência econômica do chamado “Eldorado”. Ao mesmo tempo em que se apaixona por Dinaura, uma órfã interiorana e misteriosa. Para escrever a ficção, o autor diz que se inspirou em uma lenda contada pelo seu avô.

O que há de mais interessante no novo livro de Hatoum são os paralelismos que se podem apreender da narrativa. A tragédia grega de Arminto se confunde, e muito, com o fim da pujança do extrativismo da borracha, então a nova riqueza do país, e a desilusão de uma nação próspera, saqueada por interesseiros e corruptos oportunistas.

Em certo trecho do livro, o protagonista se pergunta: “Tinha sido ingênuo ou irresponsável?”, no que logo responde: “fui as duas coisas”. Seu sentimento, embora de mea-culpa, resume fielmente um capítulo da história brasileira. O livro também traz à tona a figura mítica da Cidade Encantada, como uma zona de escape a esses males. Mas o leitor irá perceber que a mera fuga só irá nos fazer retornar ao ponto de partida.

Pela divagação psicológica, pode-se enxergar, guardadas as devidas proporções, uma similaridade entre Arminto Cordovil e Bentinho (Dom Casmurro). Ambos são homens velhos que recontam seu passado. O estilo de Hatoum, aliás, tem um eco machadiano: narrativa clássica, precisa e escorreita. Mas, se fosse possível fazer uma aproximação, Órfãos lembra muito Fogo morto, saga épica e clássico de José Lins do Rego – embora o Hatoum refute o conceito de que sua obra seja regionalista.

São duas ótimas obras literárias (uma sobre a decadência da atividade seringueira e a outra, os engenhos de açúcar) que investigam com primor o ocaso pós-euforia econômica excludente e o sentimento de orfandade. Nesse sentido, é perfeita a constatação de Arminto, que num momento de lucidez, após sentir o cheiro nauseabundo do látex, diz. “…as pélas de borracha empilhadas pareciam um monte de urubus mortos”. A ficção nunca refletiu tão bem a realidade.

ÓRFÃOS DO ELDORADO
Milton Hatoum
[Companhia das Letras, 112 págs, R$ 29]

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