Manifestante protesta em São Paulo na última terça (18) (Foto: Agência Brasil)

Manifestante protesta em São Paulo na última terça (18) (Foto: Agência Brasil)

Quem está mudando o Brasil?
Jovens vão às ruas para transformar o Brasil, mas falta um alvo para isso

Por Tiago Negreiros
Colunista da Revista O Grito!, em Toronto

Todo ano é a mesma história. O prefeito anuncia o aumento das passagens, algumas dezenas de estudantes vão às ruas protestar, há inúmeras confusões com a polícia, feridos, presos e, passado alguns dias do distúrbio, tudo fica por isso mesmo. As pessoas se conformam com o aumento e a vida segue. O ano de 2013 não tem sido diferente. São Paulo, Salvador, Rio de Janeiro, Recife, Natal, Belém e outras capitais enfrentaram as balas de borracha de suas violentas polícias e com a mesma antipatia da mídia de sempre. Só que dessa vez a paciência do resto da população parece ter se esgotado e, enfim, saíram de cima do muro. Os jovens que antes eram poucas dezenas fazendo barulho nas principais avenidas do Brasil se multiplicaram na última segunda-feira (17). Solidárias aos manifestantes que tinham sido agredidos pela violenta polícia de SP, milhares de pessoas se motivaram a irem às ruas de várias cidades protestar não só pelos abusivos preços das passagens, mas pela caótica situação do transporte público do Brasil, da educação, da saúde e tantos outros motivos.

Os brasileiros estão cansados. A violência tem traumatizado centenas de pessoas, a saúde continua com sua deficiência crônica, a educação se esbarra com a má qualificação dos professores – que são pessimamente pagos – e uma infraestrutura sucateada. Tudo isso em um país sede da Copa do Mundo, título antes conquistado com orgulho, hoje motivo de preocupação, arrependimento e vergonha. Com todos esses problemas em mente, ruas das principais cidades país foram ocupadas por manifestantes que desejaram e exigiram de seus governantes um Brasil melhor. As vozes ecoaram, embora tenham lhes faltado um ouvido alvo. Como metralhadoras, os manifestantes protestaram o que convinha a cada um. Com motivos tão distintos, sobrou para a mídia internacional traduzir de forma equivocada. O jornal inglês Guardian, por exemplo, disse que o motivo dos protestos eram os altos impostos no Brasil, coisa que poucos manifestantes se queixaram.

Transporte além de ruim é pouco transparente
O ponto temerário é que quem deseja atingir a todos, termina não acertando ninguém. Mas a presidenta Dilma Rousseff não deixou de dar o seu recado: “Meu governo está ouvindo essas vozes pela mudança. Sim, todos nós estamos diante de novos desafios. Quem foi ontem (segunda-feira, 17 de junho) às ruas querem mais. As vozes das ruas querem mais cidadania, mais saúde, mais educação, mais transporte, mais oportunidades”. A resposta de vários prefeitos foi não só cancelar o aumento, como reduzir as tarifas. Os protestos já funcionaram? A princípio, no que se refere a transporte público, não.

O sistema de transporte brasileiro não só é de péssima qualidade, como é um dos menos transparentes setores de qualquer governo. É sabido que os donos das empresas de transporte faturam milhões anualmente e demonstram pouco interesse em investir nos seus negócios, apesar dos aumentos anuais. No Recife, por exemplo, embora o Governo Federal tenha cortado impostos para o transporte coletivo, as passagens subiram 5,53% em janeiro. Os empresários disseram que não iriam repassar o corte, o Consórcio Grande Recife, órgão regulador do setor, nada fez e ficou por isso mesmo. As passagens vão reduzir, mas graças à extensa diminuição dos impostos e não à redução do lucro das empresas. Quer dizer, quem vai terminar pagando mesmo assim é a população. Não há coragem para mexer nos bolsos dos empresários – geralmente tão bons doadores de campanha – e nem de expor seus contratos com as prefeituras.

Assim como no Recife, os impostos também foram cortados para São Paulo, mas não evitou o aumento de R$ 0,20 da tarifa, o que motivou dezenas de estudantes irem às ruas enfrentar a polícia. Os protestos resultaram em dezenas de feridos e editoriais afetados dos dois principais jornais da cidade. O Estado de S. Paulo rangia os dentes: “A PM agiu com moderação, ao contrário do que disseram os manifestantes, que a acusaram de truculência para justificar os seus atos de vandalismo (…) A atitude excessivamente moderada do governador (Geraldo Alckmin, do PSDB) já cansava a população. Não importa se ele estava convencido de que a moderação era a atitude mais adequada, ou se, por cálculo político, evitou parecer truculento. O fato é que a população quer o fim da baderna – e isso depende do rigor das autoridades”. Segundo pesquisa Datafolha feita antes dos protestos da quinta-feira, 55% da população apoiava os protestos, o que desmente o editorial do Estadão. A Folha de S. Paulo foi um pouco mais moderada no seu apelo à PM, mas pediu mais rigor: “É hora de pôr um ponto final nisso. Prefeitura e Polícia Militar precisam fazer valer as restrições já existentes para protestos na avenida Paulista (…) No que toca ao vandalismo, só há um meio de combatê-lo: a força da lei”. O governador prometia: “Seremos mais duros contra o vandalismo”.

A promessa foi cumprida e Alckmin seguiu a risca os conselhos dos editorialistas. A PM foi às ruas e plantou o terror em SP. Dezenas de pessoas ficaram feridas, 192 foram presas e dezenas de vídeos na internet expondo uma polícia violenta e despreparada. No meio do gás lacrimogênio, spray de pimenta e das balas de borracha, 17 jornalistas feridos – um gravemente, com ameaça de perder a visão – e três presos. Mexeu com a corporação, mexeu com os jornalões. A Folha largou o discurso elitista e gritou em sua manchete da sexta-feira (14): “Polícia reage com violência a protesto e SP vive noite de caos”. Em uma das imagens, o olho sangrando da repórter Giuliana Vallone atingida por uma bala de borracha. Somente da Folha de S. Paulo, sete jornalistas foram feridos.

O difícil mix e mídia
No dia seguinte, o governador elogiou a ação dos subordinados. “Nós temos uma polícia que sabe trabalhar, preparada, aliás, a melhor polícia do Brasil”. E criticou os jovens manifestantes do Movimento Passe Livre, que lutam pela utópica gratuidade do transporte público. “Isso é um movimento político e tem como base atos de destruição e vandalismo”. O Governo Dilma, que inicialmente ofereceu reforço para a PM de São Paulo, recuou e criticou a violência dos policiais. “Houve extrema violência policial. Jamais a polícia pode atuar de forma arbitrária”, disse o ministro da Justiça José Eduardo Cardozo à Folha de S. Paulo.

Protesto e mídia costumeiramente são como óleo e água, nunca se misturam. A tentativa da mídia de criminalizar os movimentos sociais já virou clichê e alvo dos manifestantes. Um carro da TV Record foi queimado e vários repórteres da TV Globo foram hostilizados pelos manifestantes, o que obrigou a muitos trabalharem sem a identificação da emissora. No Jornal Nacional a TV Globo se defendeu: “a TV Globo vem fazendo reportagens sobre as manifestações desde o seu início, sem nada esconder: os excessos da polícia, as reivindicações do Movimento do Passe Livre, o caráter pacífico dos protestos e, quando houve, depredações e destruição de ônibus. É nossa obrigação e dela não nos afastaremos. O direito de protestar e se manifestar pacificamente são um direito dos cidadãos”, afirmou a apresentadora Patrícia Poeta.

A tevê trouxe também momentos cômicos, como a indiscreta tentativa do brucutu Datena de manipular a opinião de sua audiência. Em uma enquete do seu Brasil Urgente, da TV Bandeirantes, o apresentador perguntava se as pessoas eram a favor dos protestos. Aproximadamente 3 mil pessoas votaram no “sim”, enquanto no “não” 1,9 mil. Datena não se conformou e deu bronca na produção: “Façam a pergunta certa, por favor: ‘você é a favor de protesto com baderna?’”. A tentativa de criminalizar o protesto fracassou, o “sim” venceu com 2,3 mil e o “não” teve pouco mais de 900 votos. Constrangido, o apresentador assumiu a derrota e mandou tirar a enquete do ar.

Manifestantes em Toronto em apoio aos protestos no Brasil (Foto: Tiago Negreiros/Rev.OGrito!)

Manifestantes em Toronto em apoio aos protestos no Brasil (Foto: Tiago Negreiros/Rev.OGrito!)

Agora, o eco
O sucesso do protesto fez eco em várias partes do mundo, também. Em cidades como Londres, Nova York e Japão os brasileiros se solidarizaram e foram à praças e avenidas gritar por um Brasil melhor. Em Toronto, onde acompanhei pessoalmente os protestos, dezenas de pessoas em verde e amarelo cantaram o hino nacional e procuravam chamar a atenção da população local com samba e até ciranda de roda. Em um dos cartazes, a sugestão: “Brasil deve ser igual ao Canadá: corrupção zero”. Curiosamente, na segunda-feira, 17 de junho, o prefeito de Montreal, Michael Applebaum, foi detido pela polícia para dar explicações sobre desvio de dinheiro público. Seu antecessor, Gérald Tremblay, já tinha renunciado ao cargo após ser acusado de receber suborno.

Foto: Tiago Negreiros/Rev.OGrito!

Foto: Tiago Negreiros/Rev.OGrito!

* Tiago Negreiros é jornalista e vive em Toronto, Canadá. Escreve na Revista O Grito! comentando o noticiário internacional e política. Leia outras colunas dele.

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