Ópera (Foto: Tuca Siqueira/ Divulgação)

Mídia, melodrama e comicidade em Ópera
Por Fernando de Albuquerque

Criação do coletivo Angu de Teatro, nascido em 2003, Ópera tem direção de Marcondes Lima e texto de Newton Moreno. No elenco estão seis bons atores: Fábio Caio, Dirceu Siqueira, Tatto Medinni, Arilson Lopes, Ivo Barreto e André Brasileiro. O espetáculo se divide em quatro histórias independentes que ganham uma linguagem midiática que agita o espaço cênico e favorece a atuação. São elas: “O Cão” com o formato das novelas radiofônicas; “O Troféu”, das fotonovelas da década de 60; “Culpa”, das telenovelas, e por fim, “Ópera” , como o próprio nome sugere, é uma micro-ópera auto-referente. Todas as historietas têm como intervalo uma performance de grandes mitos musicais da cultura queer, como Tina Tuner, Rita Pavone, Rosana, entre outros.

A roupagem cômica é a principal estratégia da apresentação que toca em pontos polêmicos como preconceito, amor, relação com o corpo com humor ferino e escrachado que, queira ou não, tornou-se o principal símbolo da homosexualidade. É quase impossível não estar atento à todos as minúcias do espetáculo que apresenta o figurino como um dos pontos mais bem resolvidos.

Contraditoriamente à sua tendência libertária, em todas as historietas, os personagens gays são vítimas de sua própria condição, como resultado da não aceitação da própria homossexualidade. Em “O Cão”, Surpresa é um cachorro gay que encontra seu amor em uma noite de chuva. Ambos acabam assassinados. Pedro, na fotonovela “O Troféu”, é um menino que procura afirmar o tempo todo que é menina e acaba por contrair, contra todas as leis do senso e da biologia, câncer de mama. Na telenovela “Culpa”, Augusto nega qualquer tipo de relacionamento, mas cede às insistências de João. Portador de HIV, morre por conta de doenças associadas. Em “Ópera”, que empresta nome ao espetáculo, Rodolfo encontra no michê Paulo sua alma gêmea. Não correspondido ele insiste em anular-se num relacionamento que transborda de incertezas, autocomiseração e masoquismos.

Mas qualquer traço que venha reforçar preconceitos cai por terra quando, após a penumbra completa, a transexual Andréa Close, surge no palco cantando “Beautiful”, o hit da diva pop Cristina Aguilera. Close carrega os gogós quando entoa: “I am beautiful no matter what they say/ Words can’t bring me down”. Ela trsnfigura todo o público gay. É bonita, não importa o que o mundo diga.

Sem mais artigos