Javier Bardem (Onde Os fracos Não Têm Vez)

A CRUEZA DO ACASO
Sangue, cérebros perfurados, tiros para todo lado e um psicopata workaholic compõem a visualidade de Onde os Fracos Não Tem Vez
Por Fernando de Albuquerque

Um cafuçu (com direito a calça acochada, chapéu de vaqueiro e botas) do oeste americano acha uma valise repleta de milhões de dólares e começa a ser perseguido por bandidos texanos ligados ao tráfico de drogas. A história é bem clichê e já foi contada em filmes como Um Plano Simples de Sam Raimi, em 1998. Mas os diretores Joel e Ethan Coen dão um novo sentido à questão. Em Onde os Fracos Não Têm Vez, uma tradução meio fajuta de um verso escrito pelos Yeats (No Country For Old Men – não é lugar para Velhos, em Velejando Para Bizâncio) já que o tesouro, ali incorporado pela valise cheia de dólares, é apenas um meio para demonstrar a perda de qualquer sentido para ter uma conta bancária recheada.

Onde Os Fracos Não Têm Vez é quase um thriller de perseguição mútua. Todo o filme é recheado de tensão, rigor e grandes duelos. Sejam em diálogos extremamente frios, seja em cenas onde tiros e sangue não param de rolar nem um segundo. Durante toda a projeção tudo é acaso. Javier Bardem (indicado ao Oscar de ator coadjuvante), no papel do matador psicopara Anton Chigurh (que parece um Beiçola raivoso) se configura como um demônio da pior espécie que persegue seus objetivos com uma obsessão descomensurada, demonstrando o absurdo que consiste em existir no mundo. Afinal, de uma hora pra outra a morte bate a sua porta. Ele encarna a forma como a morte é imprevisível, já que seus assassinatos se revelam apenas como um instrumento próprio da ferocidade. De como o acaso invade nossas vidas e transforma a realidade.

Os irmãos Coen voltam ao Texas, espaço que serviu de abrigo para os tipos da estréia Gosto de Sangue (1984), investindo em uma narrativa quase sem trilha sonora, com poucos diálogos e personagens que driblam as expectativas da platéia. Estabelecendo, assim, uma gramática que nada tem haver com os longas mais recentes dos diretores, as comédias Matadores de Velhinhas (2004) e O Amor Custa Caro (2003). As reflexões sobre um oeste decadente são narradas por um xerife melancólico (Tommy Lee Jones) e pontuado pelos crimes bárbaros do matador que usa um cilindro de ar comprimido na cabeça das vítimas. É um filme violento e duro e que não facilita a vida de seus personagens e nem mesmo da platéia. Quando finalmente todos pensam que o grande algoz irá perecer, a dinâmica da imagem engana os espectadores e Bardem sai de fininho andando pela calçada.

Exibido no Festival de Cannes, onde os cineastas venceram a Palma de Ouro por Barton Fink (1991) e prêmios de direção por Fargo (1996) e O Homem Que Não Estava Lá (2001), o longa é uma adaptação rigorosa do romance de Cormac McCarthy (autor de Todos Os Belos Cavalos) publicado em 2005. Em boa parte dos diálogos, os Coen simplesmente transcrevem o que estava no papel. O que mais impressiona, além das mortes extremamente violentas, é a banalidade dos típicos motéis da costa oeste, trailers e lanchotes. Todos se relacionam à grandeza árida e pedregosa do deserto ao lado do rosto de Lee Jones marcado pela idade, enrugado, seco e enigmático. Uma idade além do tempo.

Onde Os Fracos Não Têm VezOs Coen trazem a marca de um cinema noir remasterizado por Hollywood e influenciado pelo cinema policial dos anos 50 e mesmo autores como Dashiell Hammett (de Ajuste Final), Raymond Chandler (de O Grande Lebowski) e James M.Cain (Gosto de Sangue). Mais uma vez os cineastas brincam com elementos caros ao gênero, como os anti-heróis desiludidos (aqui incorporado pelo demônio de Bardem), a narração em off e uma trama sobre um crime quase perfeito e com um fim completamente desajustado.

ONDE OS FRACOS ÃO TÊM VEZ
Ethan Coen e Joel Coen
No Country For Old Man, EUA, 2007

NOTA: 8,0

oscar.gifOSCAR 2008

Melhor Filme
Melhor Diretor
Melhor Ator Coadjuvante (Javier Bardem)
Melhor Fotografia
Melhor Roteiro Adaptado
Melhor Edição
Melhor Som
Melhor Edição de Som

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