Edição da Cepe traz textos que contextualizam a importância da obra, além de ser um registro vivo da vida do Brasil colonial

O período holandês em Pernambuco é uma das chaves para entender o passado colonial brasileiro. Barléu – (1636 – 1644), um dos documentos mais importantes sobre o período, ganha nova edição em português 370 anos depois de ser publicado originalmente.

O livro, que saiu pela Cepe no final do ano passado, faz jus ao seu peso histórico e se mostra como uma edição definitiva com mais de 300 notas explicativas, índice remissivo, reproduções coloridas de gravuras que estavam presentes no original, além de prefácios interessantes que ajudam a contextualizar o texto para os dias de hoje.

A tradução foi feita por Blanche T. van Berckel-Ebeling Koning (1928-2011), pesquisadora holandesa radicada nos EUA, que assegurou mais clareza ao texto histórico.

O livro foi encomendado pelo próprio Conde quando retornou à Europa em 1644. A ideia era destacar seus feitos no período de oito anos em que esteve à frente do período holandês no Brasil. Ele escolhe Caspar Van Baerle (1584-1648), um poeta e filósofo que tinha reputação na vida acadêmica das Províncias Unidas dos Países Baixos (mais ou menos o que conhecemos como Holanda nos dias atuais). Baerle (ou Barléu) nunca veio ao Brasil e escreveu o texto a partir do acervo reunido do período, como relatos oficiais, cartas e documentos.

Barléu manteve um tom adulatório em relação à passagem de Nassau pelo Brasil. Ainda que ele alerte que manterá uma voz de historiador e que não cederá ao louvor, isso acaba acontecendo ao longo de todo o livro. Ainda assim, não há como negar o valor histórico dessa obra.

O relato traz detalhes geográficos e da fauna e flora com um tom glorioso e exótico, que com certeza deve ter impressionados seus leitores à época. Conta também relatos de batalhas, o cotidiano dos núcleos urbanos e a opinião de Nassau e outras autoridades sobre temas do período. No prefácio, a tradutora Blanche pondera que o texto de Barléu não menciona a opinião do governador sobre o assunto: “Assim como o padre Vieira, ele não poderia advogar pela abolição da escravatura, mas condenava o modo que os escravos eram tratados a bordo de navios durante a infame passagem da Costa da África para a América o Sul”.

Ele também inclui bastante moralismo em seus comentários sobre a vida do Brasil no período e, volta e meia, faz reflexões filosóficas bem rasas. “Essas observações funcionam como um desafio para ele próprio como o autor que precisa identificar qual será seu trabalho, e para o leitor que deverá entender que, como um historiador, ele não pode permanecer calado”, diz Blanche, ainda no prefácio.

A primeira tradução integral para o português do texto de Barléu é de autoria de Cláudio Brandão (1894-1965), de 1940, em edição do Ministério da Educação, pela passagem do tricentenário da ocupação holandesa no Brasil. O editor da Cepe, Wellington de Melo, compara a versão clássica de Cláudio Brandão à tradução da holandesa. “Blanche torna o texto acessível para o leitor contemporâneo, que gosta de história, mas não é necessariamente um historiador. A partir da profusão de notas produzidas, a tradutora esclarece trechos que ficaram obscuros”, ressalta.

História do Brasil sob o governo de Maurício de Nassau
De
[Cepe, 622 páginas, R$ 90 impresso e R$ 27,90 e-book / 2018]
Tradução de Blanche T. van Berckel-Ebeling Koning

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