ADEUS AO SAMURAI BRASILEIRO
No ano em que recebe homenagens, autor que influenciou a leitura e feitura do mangá no Brasil se despede dos leitores
Por Matheus Moura

Sábado dia 15 de novembro, falece Chuji Seto Takeguma, mais conhecido como Cláudio Seto. Com Seto, o ano de 2008 se encerra repleto de perdas para os quadrinhos brasileiros. Foram três grandes mestres no total: Eugênio Colonnese (1928-2008) criador da vampira Mirza; e Gedeone Malagola (1924-2008) criador do super-herói Raio-Negro; além do próprio Seto que dentre outros criou as personagens Maria Erótica e Katy Apache.

O quadrinhísta Nissei nasceu em 1944 na cidade de Guaiçara, São Paulo. Junto com ele veio seu irmão gêmeo – o verdadeiro Cláudio. Na realidade o Cláudio que conhecemos foi rebatizado com o nome brasileiro por uma obrigação da escola em que cursava o ensino fundamental. Sem o batismo ele não poderia receber o diploma, pois a instituição de ensino não aceitava pagãos. Foi então que deram a ele o nome do irmão, que é o verdadeiro Cláudio. Essa confusão foi gerada pela avó materna que não aceitava a idéia de ter netos gêmeos. Para ela era uma desgraça sem tamanho essa situação. Assim, foi decidido que eles viveriam separados, um no Brasil e outro no Japão.

De tempos em tempos eles trocavam de lugar. O que estava no país do Sol Nascente vinha pra o Brasil e vice-versa. Numa dessas trocas, Seto se instalou no templo Myoshinji, em Kyoto – na época o garoto estava entre os nove e 10 anos. O combinado era que Seto ficasse três meses no templo para fazer um curso Zen Budista. Acabou que os três meses viraram três anos. Depois desse período ele foi levado ao templo Ehiko-san, nas montanhas de Kyushu. O mestre deste templo era amigo de infância de Osamu Tezuka e isso acabou rendendo ao jovem Seto a amizade com o pai dos mangás modernos.


Detalhe de “Samurai”, um dos quadrinhos de Seto

De volta ao Brasil, Cláudio continuou a desenvolver sua habilidade com o desenho. Na década de 1960 – já em Sorocaba, São Paulo – ele trabalhou como ilustrador de caminhões, geralmente desenhando nas portas dos veículos. “Num belo dia apareceu um cidadão do tipo descobridor de talentos, e me arrumou um emprego na seção de desenhos de tecidos e fotolitos da Fábrica de Tecidos Votorantin”, diz Cláudio Seto em uma entrevista publicada no blog Baú da Grafipar. Foi esse emprego que mais tarde o fez se tornar um quadrinhístas, pois, “influenciado por um amigo chamado Wilson Campos, que era desenhista da Votorantin, e que sonhava fazer quadrinhos e desenhos animados, enviei uns passatempos já diagramados em páginas inteiras para a Indústria Gráfica Bentivegna, que logo foram publicadas. Isso em 1966 na revista garotas e Piadas # 6”, relembra Seto na dita entrevista.

De desenhista industrial a quadrinhísta foi um pulo. Já em 1969 Seto criou uma de suas personagens mais famosas, Maria Erótica, na época ele trabalhava na editora paulista Edrel. Dois anos antes, em 1967, ele havia criado Flavo, o personagem que lhe rendeu o título de ser o pioneiro dos mangás no Brasil. De acordo com o jornalista Delfin, muito antes de qualquer pessoal pensar em mangá. “Seto foi o maior mangaká brasileiro, muito antes de se falar nesse termo por aqui. Sua importância para as HQs nacionais é ímpar, seja por conta da navegabilidade dos estilos em que trabalhou, seja por ser uma figura agregadora em torno da qual orbitaram duas grandes ondas de quadrinhos no Paraná: a atual e a da geração Grafipar. Dono de um estilo limpo, mas não se importando em torná-lo agressivo quando a história requeria, Seto foi um narrador elegante e um contador hábil de histórias”, define o jornalista.

Já no final da década de 1970, Seto já era conhecido no meio editorial e passou a trabalhar na editora curitibana Grafipar, considerara a mais importante editora de quadrinhos do país. Na casa ele era editor e desenhistas de alguns títulos, e foi lá que ele desenvolveu outra personagem sensual e bastante famosa, Katy Apache.

Durante os anos da Grafipar, Seto revelou ao publico grande artistas brasileiros como, Mozart Couto, Watson Portela, Rodval Matias, além de ter publicado Franco de Rosa, Júlio Shimamoto e Flávio Colin. Na editora ele retomou sua personagem Maria Erótica – que chegou a ter revista própria – e fez a HQ A História de Curitiba em Quadrinhos, em comemoração aos 300 anos da cidade.

Fora as HQs, Cláudio Seto trabalhou com charges, ilustrações e textos para os jornais: Tribuna do Paraná, Nippo-Brasil, O Estado do Paraná, Planeta Zen e Bunkyo Shimbun. Trabalhou também com pintura em quadros de grandes dimensões, pesquisava a respeito da imigração japonesa no Paraná – tendo o segundo volume do livro Ayumi de 550 páginas em construção. Se não bastasse, Seto era agitador cultural da colônia japonesa de Curitiba e promovia eventos onde o público variava de 50 a 130 mil pessoas, como o Imin Matsuti de Curitiba (em julho), o Haru Matsuri de Curitiba (em setembro) e o Hana Matsuri (em abril), mais um pequeno evento no Bunka Center Praça do Japão na capital paranaense.

A veia de agitador cultural acabou por dar-lhe também a denominação de ser o primeiro a realizar um festival de mangá no Brasil. Isso ocorreu em 1983, em Curitiba, no Solar do Barão, através da Gibiteca de Curitiba. Na ocasião o evento foi chamado de Mangá Matsuri, ou Festival do Gibi, onde houve palestras, performances, projeção de animes e exposições de quadrinhos nacionais e japoneses. “Nessa época a Abrademi – Associação Brasileira de Desenhistas de Mangá e Ilustrações dava seus primeiros passos, e contamos com a participação de seus associados (…), mas foi tudo por acaso”, ressalta Seto. Como hobby, o samurai cultivava a arte do Bonsai, tendo mais de 1000 exemplares. Outras funções acumuladas de Seto foram à de Onmyoji (mestre do Yin e Yang) da seita Zeichi e representante oficial da seita Zenchi Onmyodô, na America do Sul. Eles lhe atribuíram às tarefas de fazer previsões, palestras, orações e magias.

Chuji Seto Takeguma, o Cláudio Seto, antes de quadrinhísta foi alguém envolvido com sua cultura, com seu país de origem e terra natal. Em homenagem a esta grande personalidade brasileira o prêmio HQMIX 2008 cunhou suas estatuas de premiação com o personagem O Samurai, de Seto. Na ocasião houve a exibição do vídeo-documentário O Samurai de Curitiba, além da quebra do barril de Sakê. Anos antes ele já havia sido agraciado com os prêmios Ângelo Agostini como “Mestre do Quadrinho Brasileiro” em 1990; HQMIX, como “Grande Mestre dos Quadrinhos Brasileiros” em 1995; e uma homenagem como “Pioneiro e Mestre do Mangá no Brasil”, dado pela Associação Brasileira dos Desenhistas de Mangá e Ilustradores em 1996.

Na perspectiva do jornalista, professor e quadrinhísta Gian Danton, as qualidades de Seto vão além. “Seto tratava bem todas as pessoas que o procuravam. Assim, mais do que ser um ótimo quadrinista e um excelente editor, ele foi também o grande guru dos quadrinistas paranaenses”, declara.

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