Oasis quer reencontrar trilha do sucesso
Por Lidiana de Moraes

OASIS
Dig Out Your Soul
[Reprise, 2008]

O mundo do entretenimento sempre teve mania de fazer listas. Listar fatos, coisas e idéias, às vezes surreais, é muito divertido, e ficou ainda melhor depois que conhecemos Rob Flemming. Quando a gente gosta de diversas coisas, e odeia tantas outras, é quase impossível escapar da ordenação. E sempre há alguém que vai discordar das nossas classificações, daí o negócio fica ainda mais legal, afinal debater sobre música é um passatempo maravilhoso. Mas não há nada pior do que discutir com um fanático. Ser fã de uma banda é algo extremamente saudável. O problema começa quando a admiração se transforma em fanatismo. E quando um fã vira fanático, não existe raça pior no mundo.

Nestas listagens feitas por todo o globo terrestre, já dei de cara algumas vezes com o mesmo tema: qual banda tem os “piores” fãs? E, não para a minha surpresa, os fiéis seguidores do Oasis normalmente ocupavam os primeiros lugares da eleição. Deste modo, para evitar a idolatria desenfreada, nada melhor do que chamar para escrever sobre o novo disco Dig Out Your Soul, uma pessoa que não dá a menor importância para a banda dos irmãos Gallagher. Mas calma, antes que você pense que vou falar só cobras e lagartos sobre eles, leia até o fim porque você pode se surpreender.

Ao contrário de muitas pessoas da minha geração, o Oasis nunca foi uma parte importante da minha “biografia discográfica”, bem pelo contrário. Mesmo reconhecendo que, especialmente o Noel, tem talento para a música, as canções da banda nunca me tocaram fundo (com exceção de ‘‘Wonderwall”, mas que sempre ouvi e preferi na versão Ryan Adams) e o nojo que tenho pelo comportamento dos Gallagher sempre falou mais alto. Quando me avisaram que a minha pauta da semana era sobre o Oasis achei que este seria o maior martírio da minha vida. Mas não foi…

Já de saída, “Bag it up” agrada aos ouvidos com uma melodia repleta de um certo charme malandro que geralmente falta às canções do Oasis. O refrão, cheio de malevolência semântica, “I Got My Hee-Bee-Jee-Bees In A Hidden Bag…”, é a parte essencial que desperta o desejo de ver o que mais os rapazes de Manchester fizeram neste novo trabalho.

Continuando, “The Turning” relembra parte das origens do Oasis. O ritmo se assemelha com as coisas que Richard Ashcroft tem feito com o The Verve renascido das cinzas e a linha de guitarra perto do final é tão “Dear Prudence” daquela “bandinha novata” que nunca tem a sonoridade copiada em trabalho do Oasis. Sabe de quem eu estou falando, certo?

Uma coisa intrigante neste disco é que, enquanto normalmente Noel se põe no lugar de cérebro do grupo, Liam é o rockstar, cheio de escândalos e pedantismo tão eficazes para conseguir provocar o público. Mas, musicalmente falando, “Waiting For The Rapture” e “Falling Down”, cantadas pelo irmão mais velho, são mais instigante do que muitas das outras nove faixas. “The Shock Of The Lighting” por exemplo, soa tanto com o que eles fizeram em discos como Standing On The Shoulder Of Giants (2000) e Heathen Chemistry (2002), pontos fracos de uma trajetória continuamente oscilante.

Este sétimo trabalho inédito mantém a característica oscilatória dos outros discos da banda. “I’m Outta Time” se destaca pela sensibilidade de um Liam Gallagher refletindo sobre o passado, mostrando que por baixo de sua carcaça modorrenta e esnobe existe um ser humano que também anseia por “Some Peace Of Mind…”. Por outro lado “Soldier On” volta a colocar o grupo na corda bamba entre o êxito e o fracasso. Mas entre mortos e feridos, o Oasis sai bem na foto.

Dig Out Your Soul, algo como “desenterre para fora da sua alma”, mostra que pode haver mais dentro do Oasis do que confusões familiares, ranço com outras bandas e uma idolatria desenfreada pelos Beatles. É só uma questão dos irmãos Gallagher realmente terem vontade de fazer música de verdade.

NOTA: 8,0

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