O silêncio de Andy Warhol

Por Helton Andrade, de Nova Iorque

Um andar na penumbra. E não é em um prédio qualquer. Para um espaço que já recebeu inúmeras performances e obras multimídias, o sexto piso do Museu de Arte Moderna de Nova York, o Moma, “está quieto como nunca”, como nos diz uma monitora. É a exposição Andy Warhol, Motion Pictures, que desde 19 de dezembro tem apresentado diversos filmes feitos pelo artista americano em meados da década de 1960.

É possível que seu navegador não suporte a exibição desta imagem. Testes de filmagem ou pequenas obras multimídia, o material traz um olhar único para aqueles que faziam parte de um certo clube cult da época: estrelas de Hollywood, modelos, artistas performáticos ou simplesmente amigos do artista. Em cada peça, vemos seus modelos fazendo gestos “naturais” e despretensiosos, todos cuidadosamente instruídos por Warhol. Dennis Hopper nos faz um olhar de angústia, quase desespero; Edie Sedwick aparece ingênua, Baby Jane Holzer – outra modelo de sucesso – escova os dentes por quatro minutos. Sem falar em Susan Sontag e Alan Ginsberg, intelectuais que também emprestaram alguns minutos para o já famoso pop artista.

As pequenas peças ficam projetadas em super telões, dispostos frente a frente no grande hall, criando uma sensação de diálogo entre os personagens. Num dos outros estudos feitos pelo artista, O Empire State Building é focalizado por 8 horas e 15 minutos ininterruptos, exibidos aqui na íntegra. As obras, experimentais ou não, nos remetem a um certo “que” de deslumbre; uma observação contínua, quase voyeurística, de pessoas que costumam posar para as câmeras. Justificando essa relação público vs. privado, uma sala de projeção com 50 lugares foi montada para transmitir Kiss, obra em que um casal anônimo se beija por 54 minutos.

Segundo a curadora Mary Lea Bandy, que concebeu pela primeira vez a exposição em 2003, a classificação dessas obras é algo complexo: “trata-se de películas em câmara lenta ou de fotografias que se movem lentamente?”, questiona. Apesar de serem uma pequena parte de um grande acervo, Apenas 14 de 500 pequenos vídeos estão expostos, todos realizado na Factory, seu estúdio/ateliê, muitas das peças nunca foram mostradas, nem pelo próprio Andy Warhol (dentre as quais com Bob Dylan, David Bowie e Salvador Dalí, não incluídos nesta exposição).

Motion Pictures foca o exato momento em que o artista até tenta o suporte multimídia, mas acaba repassando a tarefa de produzir filmes ao seu aluno e amigo, Paul Morissey, que mais tarde vem produzir a partir dessas experiências, títulos com temáticas homoeróticas, como Flesh (1968) e Heat (1972). O resultado desse “estágio” em cinema feito por Warhol são obras silenciosas e até certo ponto confusas, mas com grande poder expressivo e que dialogam com todo o legado deixado pelo hoje considerado um dos grandes gênios da pop art.

Warhol no Brasil
Algumas das obras em exposição no MoMA já passaram pelo Brasil recentemente. Além de uma pequena turnê dos vídeos, trazidos em 2009 ao Museu Brasileiro de Escultura, em São Paulo, outros como blowjob (1972), foram parte da exposição que a Pinacoteca do Estado de SP recebeu em 2010, eventos coordenados pelo atual curador do MoMA, Klaus Biensenbach.

Teste de vídeo de Dennis Hopper
http://www.youtube.com/watch?v=FTwtMronb4U

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