CULTURAS ANCORADAS NO PORTO
O Segredo do Grão é um brilhante filme ultra-realista de crônica familiar que narra os dilemas do choque cultural entre a Europa e culturas marginalizadas
Por Eduardo Carli de Moraes

O SEGREDO DO GRÃO
Abdel Kechiche
[La Graine et le Mulet, França, 2007]

O prêmio César de 2008, a maior honraria concedida aos filmes franceses anualmente, não coroou neste ano com sua mais reluzente medalha o grande favorito Piaf – Um Hino Ao Amor;. O magistral bio-filme em homenagem à uma das maiores vozes da música francesa, Edith Piaf (interpretada de modo magnífico por Marion Cotillard, que levou pra casa uma estatueta do Oscar de Melhor Atriz por este papel), acabou sem ter em mãos o tão ansiado prêmio. Foi O Segredo do Grão, terceiro filme do diretor tunisiano Abdellatif Kechiche, o grande vencedor da noite. Além de melhor filme, faturou ainda os honrosos prêmios de roteiro e atriz-promessa (para Hafsia Herzi), premiação que convida as platéias do mundo todo a se debruçarem sobre a obra com um olhar atencioso, em busca dos segredos e charmes que justificam uma acolhida tão calorosa por parte da crítica.

Filme denso e minuciosamente descritivo, O Segredo do Grão é uma brilhante crônica hiper-realista da vida de uma família árabe vivendo numa cidade portuária da França. O mote que conduz a narrativa é simples: o sonho de construir um restaurante dentro de um barco motiva o patriarca de uma família de imigrantes árabes a mobilizar toda sua vasta gama de familiares e amigos para essa dura missão. Centrado na descrição pormenorizada das relações internas dessa grande família – suas dores, alegrias, desentendimentos, desencontros, mágoas e sonhos – o filme nos leva numa viagem mágica por vidas difíceis e pessoas cheias de garra, tentando fixar raízes em solo não muito comunicativo. O diretor Kechiche, através dessa envolvente história familiar, explora uma temática mais vasta: a vida dos imigrantes árabes norte-africanos na França atual, mais ou menos como tem feito Fatih Akin com os turcos na Alemanha (o que já gerou seu filmaço visceral e clássico- instantâneo Contra a Parede). O Segredo do Grão é um filme que fotografa como uma cultura marginalizada no 1º Mundo procura se enraizar e persevar sobre o solo de sua terra adotiva.

É compreensível que se coloque o filme na linhagem da escola neo-realista, como fizeram alguns críticos, que enxergaram em O Segredo Do Grão muitos dos elementos que Vittorio De Sica, Roberto Rosselini, Luchino Visconti e outros cineastas de peso utilizaram para a constituição desta que foi uma das mais representativas vanguardas cinematógraficas da década de 1940-50. Mas se os filmes neo-realistas, em sua origem, estavam mais centrados no retrato das agruras sociais da Itália do pós-2a Guerra, o filme de Kechiche centra fogo muito mais na relação difícil entre os imigrantes africanos e os franceses nativos numa cidade portuária do Mediterrâneo. O oba-oba pra cima da globalização e da União Européia está completamente ausente de O Segredo do Grão, que retrata como, mesmo unificada por uma moeda única e estável, e tornada mais transitável pelas fronteiras cada vez mais permeáveis, a Europa prossegue tendo relações problemáticas com as nações herdeiras do colonialismo. Como é bem sabido, os povos marginalizados ainda sofrem para viverem dignamente longe de seus países de origem e infelizmente a xenofobia ainda não ficou demodê na gloriosa nação de Napoleão…

HIPER-REALISMO CÁLIDO

O diretor e roteirista Kechiche é o tipo de cineasta que parece não ter nenhuma obsessão com o obediência estrita ao que está no roteiro. A ênfase dele é na autenticidade das atuações, na construção de um ambiente de verossimilhança total, num procedimento que, além do neo-realismo italiano, remete também a uma vanguarda que marcou o cinema mais recentemente: o cinema iraniano. O Segredo do Grão, por horas, soa como um filme que Abbas Kiarostami ou Mohsen Makhmalbaf teriam feito na França se convidados a filmar por lá, tendo ainda um certo gostinho de sensibilidade oriental que lembra um pouco a do mestre japonês Ozu.

Esse processo de obtenção de um clima naturalista e hiper-realista é conquistado pelo uso de atores não profissionais, a quem é dado tempo para “entrarem na pele” de seus personagens e se impregnarem do ambiente social que os envolve. No cinema de Kechiche, não parece haver nenhum gosto pelo melodramático, pelo trágico ou pelo grandiloquente. Seu filme, humildemente, se concentra em fazer a crônica da vida cotidiana de uma grande família, sem nunca tentar espetacularizar artificialmente essas vidas que, aparentemente banais e modestas como são, não deixam de ter seu charme, sua beleza e sua poeisa. Por isso O Segredo do Grão também pode filiar-se ao “cinema realista de personagem” de mestres britânicos como Mike Leigh e Ken Loach.

O que salta aos olhos, de cara, como uma peculiaridade especial do filme, é que a câmera de Kechiche parece sempre vorazmente ansiosa pelo contato carnal com os seres que retrata. É como se esta câmera fosse uma criatura faminta por toques e carícias, que quisesse acariciar a pele e os pêlos de todas as pessoas que encontra pelo caminho, sem muito pudor de incomodar ou constranger o retratado. Grande parte de O Segredo do Grão é composto por close-ups de câmeras seguradas na mão que vão bem pertinho do rosto dos personagens enquanto eles dialogam. Isso gera uma longa procissão de expressões das mais diversas numa linda exploração arqueológica da geografia dos rostos humanos.

Rugas, pintas, poros, verrugas, fios de barba, cicatrizes, olheiras e demais peculiaridades são captados com minúcias por uma câmera que parece crer ser possível encontrar beleza em qualquer cara e qualquer corpo. Generosa, humana e cálida na atenção que dispensa ao ser humano que capta e registra, a câmera de Kechiche é como uma prova viva do humanismo e da sensibilidade de quem está por detrás dela. É sempre de muito perto que enxergamos tanto os sorrisos quanto as lágrimas, tanto os lábios quanto os umbigos, num procedimento de câmera que, “colando” em seus personagens, impede que o espectador assuma uma posição de voyeurismo distanciado e de frieza analítica. Estamos sempre jogados no epicentro dos relacionamentos e dos diálogos, observando-os “de dentro” e de muito perto, como participantes ativos das acontecências. No meio do incêndio. Sem cordões de isolamento nos separando das vidas que testemunhamos.

O espectador não é poupado de sofrer junto com os personagens todas as frustrações e desilusões envolvidas com uma realidade impiedosa, repleta de choques e desilusões sentimentais, no domínio individual, e burocracia e exclusão por parte das autoridades francesas, no ramo coletivo – elementos que dificultam ao extremo a construção do pequeno sonho da família que acompanhamos. O restaurante-sobre-as-águas parece a solução do dilema: aquilo que fará a família árabe ser aceita pela sociedade, alegre e convidativamente. Essa junção entre um exílio amargo e a esperanças nos poderes de comunhão possibilitados pela degustação de um bom prato trazem à mente o enredo de filmes como A Festa de Babette (de Gabriel Axel, Oscar de filme Estrangeiro em 1987) e Chocolate (de Lasse Halstrom). Mas O Segredo do Grão nos prepara um prato que não é exatamente de abrir o apetite: ele vem com o gosto amargo do exílio cultural e banhado no molho do suor destes imigrantes, que vão ao Primeiro Mundo em busca de libertação e dignidade, mas vão deixando pelo caminho pedaços de sonhos abandonados ou mutilados. E sempre tentam se levantar de todos os tombos.

FELICIDADE CLANDESTINA

É bastante emblemático, então, que essa luta pelo reconhecimento se dê dentro de um barco ancorado provisoriamente em algum porto do Mar Mediterrâneo. O simbolismo por trás dessa situação é forte e eloquente: justo um navio, este símbolo de partidas e chegadas, ou seja, da transitoriedade em geral, é o palco onde estes calejados imigrantes árabes vão procurar convencer os franceses de que merecem ficar. E convencer a si mesmos de que não migraram em vão e que conquistaram um lugar ao sol – ou, no caso, um lugar ao mar – na Terra Prometida que escolheram, mas que não parece afim de cumprir suas promessas. O Segredo do Grão pode ser visto como um drama de uma cultura marginalizada ancorada num porto do Primeiro Mundo, sem saber se receberá permissão de ficar ou se será expulsa e mandada de volta pra casa. Por trás da historinha aparentemente simples de uma família toda envolvida no projeto de transformar um restaurante-sobre-as-águas num sucesso comercial está toda esta problemática social: uma cultura excêntrica que procura firmar raízes no solo Europeu, exigindo reconhecimento e dignidade, e só conquistando-os a duras penas.

Se, no final, o espectador acaba sair do cinema insatisfeito com a irresolução do enredo que paira no ar, talvez não seja o caso de se culpar a incompetência do cineasta. Muito pelo contrário. O fato de frustrar a expectativa do público, não entregando um desfecho para o suspense que criou, é muito mais um ato de coragem artística do que de indecisão ou falta de soluções. Kechiche, de fato, delineia e rascunha tanto um final melancólico quanto um desfecho salvador para sua história, mas não dá ao espectador, já mastigadinho, um desenlace claro e satisfatório. Toda uma ansiedade se cria em torno da questão: conseguirá essa família convencer todas as autoridades municipais e todos os funcionários da burocracia de que têm competência para operar esse restaurante aquático? E essa ansiedade, afinal de contas, não se resolve num desejado descarrego da tensão. É como se o espectador fosse mandado para casa tão faminto quanto os convidados da noite-de-gala que toma tanto tempo do filme: aguardamos, como eles, um suculento cuscuz que nos foi prometido mas que parece não chegar jamais. Do mesmo modo como os imigrantes estão esperando há décadas para se instalarem confortavelmente numa terra adotiva que parece, insconscientemente, resistir à sua aceitação.

Quando os créditos sobem, com uma insistente música tradicional árabe ainda soando, obstinada, depois de ser freneticamente interpretada numa dança do ventre antológica, o espectador é deixado com a curiosidade insaciada em relação ao suspense que o esteve ocupando por tanto tempo: afinal de contas, deu tudo certo nessa ocasião tão importantes para nossos heróis? O diretor se recusa a responder de modo direto. Seu filme termina e nós, como todos aqueles nobres visitantes do barco-restaurante, só sabemos que recebemos um verdadeiro banho de imersão na cultura árabe e nas dificuldades e perseveranças de uma família brigadora e muitíssimo humana.

Mas certezas e consolos não nos são dados. Só nos é dada a experiência desse mergulho nas vidas desses personagens lutando com obstinação e garra por um lugar num mundo que não parece lhes pertencer. Muitos deles chegam às beiras da completa extenuação física nesse processo – como a mocinha que dança quase até capotar morta de cansaço, entretendo os convidados no barco, ou como o protagonista Slimane, correndo pela cidade depois de ter sua motocicleta roubada por sacaninhas impiedosos. Eles são maratonistas da vida real, correndo na interminável avenida da construção de sonhos que sempre parecem escapulir e se recusar a virar carne – maratonistas que persistem sempre, apesar das fatigas, mesmo que corram por um caminho polvilhado de suor, lágrimas e humilhação. Se, afinal de contas, se deitam no chão, extenuados, ninguém pode dizer que não correram nobremente.

O Segredo do Grão é, pois, uma obra de um desfecho extremamente original, indefinível nos termos de final “feliz” ou “infeliz”, e que coroa mais uma magistral obra-de-arte do cinema francês moderno. Aqui se encontra um daqueles desfechos mais adequadamente apelidado de “final em suspenso”, tão típico do cinema de arte e tão incomum no cinema comercial, em que a situação é deixada irresolvida – mais ou menos como num romance de Kafka. Tudo se passa como se o realmente importante não fosse dar ao espectador a satisfação barata de uma resolução consoladora, ou o soco no estômago de um desastre final. O realmente relevante é meramente descrever, em minuciosos 151 minutos de brilhantismo cinematográfico fino, a longa e dura luta pela vitória. Se, no final, esses personagens triunfaram ou fracassaram parece questão secundária e inadequada de se colocar – o crucial é que lutaram, perseguindo a construção de um sonho que sempre esteve ameaçado de ruir ou ser demolido, mas que continuou sendo perseguido com obstinação. É como se o filme nos dissesse que a verdadeira beleza e a verdadeira nobreza está nesta luta, e que o resultado – vitória ou derrota – é um mero detalhe e uma tola ninharia. Pois, neste caso, lutar já é vencer.

NOTA: 9.0

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