O Segredo de Brokeback Mountain

DESOLAÇÃO INTERIOR
por Paulo Floro

Um filme cujo mote principal seja um romance homossexual sempre será visto como fetiche. Mesmo que já venha sendo abordado há pelo menos duas décadas no cinema. E não foi diferente para O Segredo de Brokeback Moutain, dada a repercussão do filme. O longa de Ang Lee já coleciona quase meia centena de prêmios, o que talvez, mostre que as audiências estejam mais apuradas e/ou maduras. O próprio Oscar, ao lotar de indicações o filme, aumentou o sucesso e produziu filas em cinemas brasileiros para ver o amor proibido de dois caubóis. E não foi a primeira vez que o diretor fala de um amor gay, em 1997 Lee também falou de segredos e proibição em Banquete de Casamento. Ang Lee conquistou recentemente em sua carreira uma habilidade de transformar seus filmes em grandes sucessos comerciais sem abrir mão de sua visão particular e artística.

O Tigre E O Dragão, um filme oriental, sobre artes marciais, legendado tornou-se um espécie de blockbuster americano em 2000. Lee sempre demonstrou esse viés de ser acessível, de mostrar que se pode produzir obras de alta relevância artística sem se render ao mercado do entretenimento de massa. Com isso o diretor taiwanês mostra que o público gosta e aprova, e a resposta de lucro pode ser alta, filmes que fujam dos padrões da maioria do lixo produzido atualmente em Hollywood. Talvez a única nódoa em sua filmografia tenha sido Hulk (2003).

Ennis del Mar e Jack Twist
Jack e Ennis na montanmha Brockback observando as ovelhas

Desde que foi lançado em 2005, o filme já recebeu vários prêmios, mas a maior repercussão foi com suas 8 indicações ao Oscar, inclusive melhor filme, diretor e roteiro adaptado. Ang Lee já havia sido assimilado pela Academia quando lançou a versão do livro de Jane Austen, Razão e Sensibilidade, em 1995. Situado em Wyoming, no interior dos Estados Unidos, o filme conta a história de Jack Twist e Ennis Del Mar, que em meados dos anos 60 são contratados como vaqueiros numa propriedade nas montanhas que dá nome ao filme para cuidar de ovelhas durante o verão. Neste local inóspito é que após uma curta tensão sexual, irá explodir e se desenvolver uma relação física e emotiva entre os dois caubóis, que irá perdurar nas duas décadas seguintes. Há um contraste com a dureza demonstrada em arquétipos de homens brutos na aparência, cristalizado em mais de 100 anos de cinema, nos muitos filmes de western já filmados.

E é nesse ponto que O Segredo de Brokeback Moutain se torna um clássico. Ao contar (muito bem) uma história de amor entre dois homens em cenários exuberantes, Lee subverte o gênero de filmes como Meu Ódio Será Sua Herança. E é nesta desolação, entre ovelhas, escassez e noites frias (ou nem tanto) que irá se desenvolver uma paixão proibida e uma relação amorosa, iniciada numa urgente e violenta transa (mais especificamente numa cena de sexo anal). O Segredo de Brokeback MountainA própria natureza é utilizada como contraste aos sentimentos enrustidos dos dois personagens. Como o passar dos anos os dois se casam com mulheres, têm filhos e continuam alimentando um prazer secreto nas montanhas, quase como uma outra dimensão, onde não precisariam limitar ou esconder a paixão que sentem. Um dos maiores trunfos do filme é a interpretação dos protagonistas, sempre no limite de externar algo que com o passar dos anos se torna difícil esconder.

O Segredo de Brockback Moutain é um filme delicado que versa sobre relações humanas de uma maneira pouco vista em filmes de Hollywood, há uma trama bem concisa e linear, talvez até direta demais. Mas é com o “não-dito”, nos longos minutos de silêncio, nos planos seqüências onde pouco é falado, e no diálogo escasso que Ang Lee consegue mostrar a força de sua direção. Um trabalho ousado para um padrão já muito estabelecido e muitas vezes homogêneo do cinema comercial. Um retrato honesto sobre o amor entre dois homens. É um filme sobre ciúme, perda, desejo num gênero não habituado a isso. Não convencional, como a história dos dois cáubois.

NOTA:: 9,5

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