BOÊMIO ANTIQUADO
Novo livro de crônicas de João Ubaldo Ribeiro confronta passado e presente, mas naufraga na brevidade da piada
Por Paulo Floro

Os protagonistas de O Rei da Noite, coletânea de crônicas do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro parecem ser um só: sujeitos antiquados neste início de século, egressos da boêmia dos anos 1950-60 e idealizadores de um perfil de mundo que já se modificou, mas do qual não conseguem se localizar. Lançado pela editora Objetiva, a edição reúne 34 textos que se valem de um humor leve, escritos em orações curtas, de rápida assimilação e identificação por parte do leitor.

Claro que outros temas perpassam o livro, mas são as intersecções entre o personagem principal e as situações atuais do cotidiano – com todas suas idiossincrasias transformadas em piada – o grosso de O Rei da Noite. Ainda encontramos historietas sobre relações familiares, divagações sobre sexo, casamento, velhice e a vida de escritor. Neste último, ele comenta as dificuldades enfrentadas em reportagens, a falta de assunto que força o autor a usar o famoso nariz-de-cera, além da participação em programas de TV.

Provavelmente, essas crônicas foram retiradas do espaço que Ubaldo possui nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo. No conjunto de sua obra, que inclui dois clássicos sucesso de vendas – Sargento Getúlio e Viva O Povo Brasileiro e uma obra controversa, mas de força criativa inconteste, A Casa dos Budas Ditosos, este novo trabalho é uma obra menor. Mas, não se tem dúvida que entrará na lista dos mais vendidos e figurará comentários condescendentes de parte do público e admiradores do escritor.

Se focasse em explorar o arquétipo do boêmio confrontado entre novidade e tradição, poderia render momentos memoráveis. Do modo como foi construído, os textos ficaram fugidios. A importância do livro ficou proporcional à rapidez da leitura de um jornal. A edição, muito bem acabada e com uma tarja preta nas bordas, não deixa claro se as crônicas são inéditas ou quais datas foram publicadas originalmente. Ubaldo pode inclusive ter refeito os textos originais. Aqueles que costumam recortar jornais para guardar – um tipo de clipagem emotiva – deverão lembrar.

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