O que descobri: Sangue Negro reinaugura linhagem de jazz autoral
NOTA8.5
Os músicos Jean Elton, Hugo Medeiros e Amaro Freitas. (Divulgação).

Os músicos Jean Elton, Hugo Medeiros e Amaro Freitas. (Divulgação).

Sangue Negro, disco de estreia do pianista Amaro Freitas, traz uma lufada de ar fresco à nova cena instrumental. A obra bebe no jazz, de onde emerge em composições harmonicamente ricas sem esquecer o sotaque regionalista que imprime à obra sua marca registrada. No total, Sangue Negro traz sete canções, sendo seis autorais e uma releitura do clássico de Dominguinhos, Lamento Sertanejo.

Já em estado de pré-audição, a obra chancelou o prêmio Mimo 2016, que garante o Amaro Freitas Trio na turnê do maior festival de música instrumental circulante do país. A banda foi o única pernambucana selecionada entre os cinco vencedores da premiação, de âmbito nacional. Mas voltemos ao disco.

O disco, que será lançado em outubro, foi gravado no Recife, no Estúdio Carranca, e traz a assinatura do gaúcho Rafael Vernet na produção e direção musical. Com a bagagem de quem tem shows e gravações com artistas do quilate de Hermeto Pascoal, Paulinho da Viola, Wilson das Neves e Roberto Menescal, coube a Vernet nortear o material que ora envereda pelo frevo, ora pelo minimalismo, ora pelo samba ou ainda pelo Afrojazz.

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A execução foi realizada com o acompanhamento do baixista Jean Elton ao lado do baterista Hugo Medeiros e possui participações especiais do saxofonista Eliudo Souza e do trompetista Fabinho Costa. Sangue Negro, faixa que dá título ao disco, associa o minimalismo ao afrojazz em uma espiral crescente que desemboca em um apoteótico bebop. Samba pra Marco Cesar homenageia o famoso bandolinista pernambucano em uma composição rica e arquitetada tais como os sambas envergados na década de 70 por grandes nomes da MPB como Elis Regina em composições assinadas por Paulo César Pinheiro.

Aos ouvidos, Sangue Negro também reinaugura uma linhagem de jazz autoral ao criar o estilo frevo-balada em ‘Subindo o Morro’. Ao contrário do RagTime, sonoridade mais próxima ao mais pernambucano dos ritmos, Amaro decompõe um frevo seu original ao envolvê-lo em um arranjo suave numa conjunção que nos remete à sonoridade de João Donato.

Em Lamento Sertanejo, Amaro brinca com o instrumento de sua devoção ao dedilhar, diretamente, a harpa do piano. Investida de uma aura sombria e minimalista, a canção é o retrato de uma alma solitária e de sua relação intrínseca com o instrumento, uma vez que é um solo de 7”12’, ao longo dos quais dialoga com o piano enquanto rende suas homenagens a Dominguinhos.

A obra ainda possui três composições: Encruzilhada (um frevo-jazz), Norte (que mescla acordes ora soturnos e ora ensolarados) e Estudo 0, composição de autoria do baterista Hugo Medeiros originada em um estudo e que possui ambiência minimalista e ares cosmopolitas e elegantes. Mais sobre Amaro Freitas no Fb.

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