UM CORAÇÃO INCENDIADO
Vida e obra de um dos mais importantes poetas do século 20, Vladimir Maiakóvski, recebe nova luz com o lançamento de biografia
Por Eduardo Carli

O POETA DA REVOLUÇÃO
Aleksandr Mikhailov
[Record, 560págs, R$ 68]

Ele foi um dos mais magistrais renovadores da poesia no século 20 e um dos mais brilhantes porta-vozes da Revolução Russa, que abraçou com ardor e louvou em versos imortais. Vladimir Maiakóvski (1893-1930) só precisou de 37 anos de vida para incendiar o mundo como um coquetel molotov humano. Explodiu soltando chamas de lirismo e rebeldia que ainda hoje continuam a arder. O leitor brasileiro agora tem a chance de mergulhar em sua vida com o lançamento da biografia O Poeta da Revolução, de Mikhailov (Ed. Record, 560pg., R$68).

“A vida de Maiakovski se desenvolveu num período de entusiasmo irrefreável, de crença plena no futuro, herança da ideologia do progresso cultivada durante todo o século 19”, comenta Alexei Bueno no prefácio. Poeta revoltado, agressivo e inflamado, Maiakóvski segurava a caneta como se fosse uma metralhadora. Seus inimigos? Muitos: a exploração operária, a arte desengajada, os hábitos pequeno-burgueses, os últimos estertores do czarismo, a alvorada sombria da burocracia totalitária.

Poeta das massas, abandonou a torre de marfim para descer ao meio das turbulências sociais. “É necessário partir em mil pedaços a fábula da arte apolítica!”, reclamava. Maiakóvski escrevia sempre centrando fogo na transformação concreta da vida das multidões. Para ele, a poesia não é menos bela por ser útil. “O poeta incita à rebelião e está pronto para marchar na primeira fileira dos rebeldes”, destaca Bueno. O próprio poeta reconhecia-se como um perigo à ordem constituída: “O nariz capitalista farejava em nós a dinamite”, escreveu. Em vários poemas incita à insurreição: “Retirem as mãos vagabundas das calças/ Peguem a pedra, a faca ou a bomba / E aquele que não possui mãos / Venha e lute com a testa!”

Liderando a vanguarda futurista, Maiakóvski e seus companheiros colocaram em ebulição a cultura russa. O escândalo foi enorme. Foram acusados de terem uma relação niilista com a cultura clássica, de não possuírem uma base teórica sólida ou de serem meros arruaceiros. O manifesto futurista era mesmo extremista e mandava “atirar fora Puchkin, Dostoievski e Tolstoi do Navio da Modernidade!” Burliuk, um dos líderes do movimento, se justificava dizendo: “Não desejamos virar para trás nossas cabeças, quebrar nossas vértebras cervicais para olhar a poesia com naftalina dos perversos!”

Apesar das idéias destrutivas em relação à herança cultural, Maiakóvski era um grande conhecedor da literatura clássica. “Ele ouvia a voz viva dos clássicos, mas negava as imposições dos seus cânones para a arte do seu tempo”, sugere Mikhailov. Ou, como o próprio Maia dizia: “Eu vos amo, mas vivos, não como múmias.”

Esse poeta de coração ardente e impaciente não poderia durar muito e virar uma das “velharias” que tanta energia pôs em combater. “Não tenho nenhum fio grisalho em minha alma!”, escreveu. Quando deu um tiro no peito, em 1930, pôs um sangrento ponto final em um destino trágico e fascinante. Sua vida e obra permanece um emblema deste que foi um dos mais importantes acontecimentos históricos do século 20: a Revolução Russa.

Da biografia de Mikhailov conclui-se que dentro da alma de Maiakóvski desenhou-se uma contradição cruel entre a utopia e a decepção. De um lado, uma vida inteira dedicada à Revolução, à glória de Lênin e ao engajamento na construção do socialismo. De outro, o surgimento do espectro do stalinismo, que trazia a ditadura, a burocracia e o eclipse do sonho. Dividido entre os versos de louvor às conquistas revolucionários e as sátiras ácidas contra as anomalias do novo poder, Maiakóvski viu-se rasgado entre o entusiasmo da entrega total a uma utopia e a tragédia da perda do ideal.

Mas havia algo mais empurrando o coração do poeta para o despenhadeiro. Ele, que escreveu algumas das mais pungentes poesias líricas que conhecemos, entrou em desespero por não conseguir abocanhar, neste mundo, sua fatia de amor. As paixões que viveu Maiakóvski, quase todas não correspondidas, parecem nunca ter conseguido saciar seu coração faminto. Na nota de suicídio, a frase lapidar: “O barco do amor espatifou-se contra o cotidiano”.

Em uma carta à Lília Brik, amor de sua vida, escreveu: “O amor é vida. O amor é o coração de tudo. Se ele interromper o seu trabalho, todo o resto morre, faz-se excessivo, desnecessário. (…) Sem você não há vida.” Esmagado sob o peso da utopia que se esfarelava e do amor que não conquistou, buscou no sono eterno o descanso para um percurso terrestre que foi, de fato, cansativo. Por ter sido intenso, extremo, inflamado, contraditório – e apaixonante.

Maiakovski, que sempre teve uma bandeira de luta hasteada em seu coração incendiado, saiu com estrondo do mundo para entrar, também estrondosamente, na História. Como o mais legítimo Poeta da Revolução.

Sem mais artigos