Cena de Febre do Rato, de Cláudio Assis: filmes que olham o Brasil. (Divulgação).

Cena de Febre do Rato, de Cláudio Assis: filmes que olham o Brasil. (Divulgação).

Por Karen Lemos
De São Paulo

Até o dia 10 deste mês, o CCBB de São Paulo exibe O Novo Cinema Pernambucano – uma retrospectiva da retomada do cinema pernambucano no Brasil, pontuada por Baile Perfumado, de 1997, dirigido por Lírio Ferreira e Paulo Caldas.

A pluralidade deste cinema, cuja merecida visibilidade é muito contestada, é apresentada em 16 longas-metragens e 13 curtas-metragens, entre ficção e documentário, assinados por prestigiados nomes do cinema produzido em Pernambuco. Tendo como plano de fundo ou muitas vezes mergulhando de cabeça nas histórias de uma sociedade que ainda traz resquícios de uma era patriarcal e que sofre com problemas como violência, urbanização desenfreada e desordenamento imobiliário, tais filmes não encontram dificuldade em surpreender e conquistar seu espectador.

Foi assim com Marina Pessanha, curadora da mostra que se encantou com a cinematografia pernambucana ainda na adolescência. “Fui percebendo como em quase todos os filmes vindos de Pernambuco havia uma ousadia estética e temática”, contou Marina à Revista O Grito! “Este cinema é, para mim hoje, o mais interessante que vem sendo produzido no Brasil”, acrescentou.

Doméstica, de Mascaro. (divulgação)

Doméstica, de Mascaro. (divulgação)

Marina fez uma seleção de filmes produzidos no Estado nos últimos dezessete anos. Obras conceituadas como Amarelo Manga, de Cláudio Assis, e Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, foram contempladas, mas não só. Produções pouco exibidas, ou que passaram apenas em festivais de cinema (caso da maioria dos curtas-metragens) entraram na seleção para que o cinéfilo tivesse a chance de assistir a algumas obras pela primeira vez na tela do cinema.

“Os documentários, ao meu ver, são menos difundidos que as ficções”, declarou Marina, que selecionou preciosidades como Avenida Brasília Formosa, Doméstica – ambos de Gabriel Mascaro – e Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas, de Paulo Caldas e Marcelo Luna, “E, finalmente, os curtas dos diretores mais consagrados e dos novos diretores, que são filmes que nunca entraram em cartaz”, disse ainda a curadora da mostra que traz curtas poucos difundidos como Soneto do Desmantelo Blue, de Cláudio Assis e Clandestina Felicidade, de Marcelo Gomes. Recife Frio, hit em festivais, de Kleber Mendonça Filho, também está presente.

Tatuagem estreou em circuito comercial em 2013. (Divulgação)

Tatuagem estreou em circuito comercial em 2013. (Divulgação)

Da retomada até aqui

Embora ‘nascidos’ no mesmo Estado, os filmes da cinematográfica pernambucana não seguem uma lógica linear. Com linguagens, temática e abordagens diferentes, fica difícil traçar pontos comuns, a não ser pelo fato de boa parte dessas obras colecionar prêmios e passagens por festivais e eventos de cinema no mundo – como Cannes, Veneza, Berlim, Sundance – e no Brasil – Gramado, Paulínia, Brasília, mostras do Rio de Janeiro e São Paulo são alguns exemplos.

Essa credibilidade foi conquistada desde a retomada com Baile Perfumado, embora o roteirista do filme, Hilton Lacerda, não veja a questão por este ângulo. “Marca um momento muito importante do cinema brasileiro, e não de uma possível retomada pernambucana”, afirmou em entrevista à reportagem. “Devemos lembrar que, quando ‘Baile Perfumado’ foi lançado no Festival de Brasília de 1996, a produção cinematográfica estava bastante reduzida”, recordou. “O momento era oportuno”.

Em suma, Baile Perfumado escancarou à inquietação dos realizadores pernambucanos na época, mas qual é a sua verdadeira importância até os dias de hoje? “Creio que a maior herança, além da sua originalidade e o diálogo com o universo musical, foi impor uma forma de produção; inverter a lógica produtiva de outras cinematografias e apostar no risco narrativo”, afirmou.

Também como roteirista, Hilton deixou sua marca através da riquíssima parceria com o cineasta Cláudio Assis, contemplado na mostra com os seguintes filmes: Amarelo Manga, Baixio das Bestas e Febre do Rato.

“Cláudio é uma pessoa cheia de desejos e vontades e, de certa maneira, eu contribuo na articulação dos pensamentos dele”, resumiu Hilton. “Que ele é uma pessoa de excessos, é fato. Mas tem uma porção de gentileza muito interessante com ele. E acredito que é essa mistura, essa contradição, quem melhor revele nossa longa relação”, definiu ainda.

Seu mais recente trabalho – desta vez como diretor, Tatuagem, colhe até agora frutos de todo esse empenho dos realizadores de Pernambuco. Além de sucesso de público e crítica, ganhou a simpatia da capital, Recife, onde ficou em cartaz no Cinema São Luiz por 20 semanas e atingiu recorde de espectadores. Foram mais de seis mil pessoas na histórica sala da Rua da Aurora.

“Fico muito envaidecido com o resultado, com o impacto que o filme alcançou”, pontuou. “E espero que esse momento não seja o fim de nossas ambições, mas o início de uma nova investida. Não estamos sozinho nessa caminhada. Outras cinematografias têm apostado na ousadia de produção e de temática para mostrar que é possível pensar o cinema em vários níveis de complexidade”, concluiu Hilton, que aposta em uma mudança nas políticas de exibição e distribuição para colocar, cada vez mais, o cinema pernambucano no ‘mapa’ do circuito nacional.

Ganhando público

O sucesso de filmes como Tatuagem e O Som ao Redor, este último indicado pelo Ministério da Cultura para representar o Brasil no Oscar deste ano (ficou apenas na indicação), chamou atenção de um público que já olhava com simpatia para este cinema.

Em uma sessão da mostra, na exibição de Eles Voltam, de Marcelo Lordello, espectadores revelaram sua admiração e curiosidade diante de um cinema que, não é exagero dizer, desponta como o mais autoral da produção nacional.

“A particularidade do cinema pernambucano contrasta com qualquer outra cinematografia. E isso me agrada muito, porque é um olhar diferente sobre o Brasil”, opinou o historiador Leonardo Carmo, que antes de Eles Voltam havia assistido ao documentário Domésticas, de Kleber Mendonça Filho. “É um tipo de cinema que batalha por uma linguagem afinada com a realidade do Brasil atual”, comentou ainda.

Ao invés de elogios, o professor José Cabral – assíduo cinéfilo e admirador do cinema pernambucano – chamou atenção novamente para a questão da visibilidade. “Está há anos luz da merecida. Seu público ainda é extremamente reduzido, infelizmente”, disse, como quem espera que a mostra ajude a mudar um pouco este cenário. Saiba mais e veja a programação completa da mostra aqui.

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