O Mistério do Samba (Foto: Divulgação)

O MISTÉRIO DO SAMBA É AZUL E BRANCO
Filme de Jabor e Lula resgata instituição da música popular brasileira
Por Thalles Junqueira

O MISTÉRIO DO SAMBA
Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda
[O Mistério do Samba, Brasil, 2008]

“Minhas lágrimas secaram/ meus tormentos terminaram/ foi uma nuvem que passou”, canta o sambista Argemiro Patrocínio. Quando a nuvem passa, azul e branco são as cores do céu: pipas no ar, pés descalços, cervejas de domingo, retratos na parede caiada e mulheres preparando almoço ao som do trem que apita próximo ao terreno baldio. Azul e branco são as cores da Portela.

É sob a força poética das cores dessa agremiação carnavalesca que O Mistério do Samba, documentário produzido pela inspiração de Marisa Monte e direção de Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda, estampa na tela o sol das tardinhas silenciosas e o prazer pela conversa fiada.

Durante seus 88 minutos de projeção, o documentário imprime um clima poderoso de nostalgia, embora os olhos voltados para o passado revelem que os pés querem ser amanhã, ser futuro, ser sempre. Assim, não há tristeza. A nostalgia, nesse caso, é boa de sentir, pois o que vemos é nascimento, nunca velório.

Há uma cena emblemática em que Tia Eunice ensina a dança do “miudinho” para um grupo de crianças portelenses na quadra da escola. “É devagar miudinho, devagarzinho/ É devagar miudinho, devagarzinho” e sambando pequeno, vai com um pé junto do outro, quase sem abandonar o chão; a mão na cintura, o gingado contido, ensinando, ainda, a colher um beijo nas mãos e deixá-lo escapar como quem liberta um passarinho. As crianças aprendem tudo, pois os pés, como já disse, querem ser amanhã e sempre.

O mistério do samba é a capacidade valente de não caducar e O Mistério do Samba confirma que ele, o samba, tá bem vivo e lúcido. No filme estão todos os grandes sambistas da Portela: Jair do Cavaquinho, Argemiro Patrocínio, Casquinha, Monarco, o espírito de Manacea, Tia Surica, Tia Doca, Tia Eunice. Nele também estão Paulinho da Viola, Zeca Pagodinho e Marisa Monte que diz ter feito o filme “pela certeza de que a vida ia ser melhor com esses sambas”. E é.

O documentário teve início há dez anos, quando Marisa Monte iniciou uma pesquisa sobre a obra musical da Velha Guarda da Portela para a seleção do repertório de seu disco Tudo Azul. A cantora vasculhou caixas e baús da comunidade, descobrindo composições dos anos 40 e 50 que até então só contavam com registros caseiros em fitas cassetes.

Até o chamado de Marisa Monte, os dois diretores quase não tinham contato com o universo da Portela e foi, através da cantora, que conheceram a velha guarda e passaram a freqüentar a quadra da escola. As filmagens das gravações e ensaios deram início à confecção do filme que contava com cerca de 200 horas de filmagens, o que justifica um trabalho intenso de oito meses de montagem.

Ao traçar um retrato dos principais personagens entre os sambistas da Portela e desvendar o cotidiano repleto de poesia e música do bairro Oswaldo Cruz, na Zona Norte do Rio de Janeiro, o documentário parece vir na esteira de filmes que resgatam músicas e histórias de cantores esquecidos, como Buena Vista Social Club, que abriu caminho para o nicho de documentários musicais. No entanto, ao contrário do filme sobre os cubanos, o trabalho de Carolina e Lula apresenta uma montagem mais ousada e poética, além do primoroso som direto que nos dá a sensação de estarmos no quintal de casa com aquelas pessoas, tentando ouvi-las apesar do barulho dos carros, dos pássaros, das crianças, da cozinha.

Em O Mistério do Samba, a simplicidade parece ser uma imposição do próprio bairro e dos sambistas, assim como a poesia das imagens que não assumem um tom meramente estetizante, já que são puras. Sem pretensões antropológicas, o filme sugere que a essência do samba passa por essa simplicidade, pela conversa fiada, pelo amor que não vingou e fez doer o coração, pelo ritmo digno e lento daquelas pessoas, suas casas caiadas, seus botequins dando para a vida que vai sambando “miudinha” na terra dos quintais, sob o céu azul e branco, o céu da Portela.

NOTA: 8,0.

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