Cantora (Foto: Divulgação).

Cantora aponta suas rimas contra o pós-colonialismo e o machismo (Foto: Divulgação).

Ana Tijoux tem algo a dizer
Rapper chilena traz olhar feminista ao hip hop e se insurge como um dos nomes mais interessantes do gênero

Por Renata Arruda

“—Não vou pedir permissão nem pedir a palavra, quem quiser me escutar será bem-vindo nesta sala porque o que somos não é como deve ser, mas é. Criar é um ato que incomoda—”

É o que canta a rapper franco-chilena no refrão de “Somos Todos Terroristas”, música integrante do seu mais recente álbum Vengo, lançado em março deste ano pela National Records. Na faixa, com participação do MC chileno Hordatoj, Anita faz uma defesa da liberdade de cometer erros criativos —  liberdade esta já também bem colocada no discurso “Faça Boa Arte”, de Neil Gaiman e, mais amplamente, na canção “A Mistake”, de Fiona Apple —, com frases assertivas como “o certo não é tão certo num avanço em retrocesso/O que você vê livre, eu considero preso,/Preso a um modelo atrofiado de progresso”.

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Vengo vem da perspectiva de investigar de onde viemos, para onde vamos e a necessidade profunda de entender nossa identidade”, disse ela em uma entrevista à revista Bitch. Com a proposta de retorno às origens, Anitta foi buscar inspiração na música latino-americana, principalmente a música andina, para fazer uma mistura com seu hip hop que, superando o risco de parecer qualquer coisa new wave ao utilizar instrumentos como a flauta de pã, deu muito certo e se tornou uma das melhores surpresas do ano.

Gravado inteiramente em estúdio (o disco não utiliza nenhum sampler sequer), Vengo é o terceiro LP de Anita depois de ser revelada no Chile durante os anos 1990 quando participava do grupo de hip hop Makiza, com quem gravou três álbuns. A rapper ganhou maior projeção em 2006 ao colaborar com Julieta Venegas no hit “Eres Para Mi” e em seguida ao conquistar o reconhecimento com um álbum independente chamado Kaos, indicado a dois prêmios no VMA Latino da MTV. Mas ela estourou para o mundo a partir de 2009 com o lançamento do álbum 1977 — disco que marcou a volta de Anita à suas raízes no rap, que acabou sendo lançado nos Estados Unidos, fazendo com que o single homônimo fosse indicado por ninguém menos que Thom Yorke e acabasse integrando trilha de séries como a badalada Breaking Bad e Broad City.

No entanto, nada disso afastou a cantora de suas convicções. “Não consigo fazer arte que não seja transgressora”, declarou à revista Noize durante sua passagem pelo Brasil este ano, onde apresentou dois shows em São Paulo e um no Rio de Janeiro. E o discurso não é da boca pra fora. Filha de exilados da ditadura de Pinochet, Anita é engajada e em seu segundo álbum, La Bala (2012)gravou “Shock”, música que trata dos protestos dos estudantes chilenos (Tudo se criminaliza/Tudo se justifica na notícia,/Tudo se acaba, tudo se pisa,/Tudo se ficha e classifica) cujo clipe em formato de mini-documentário foi dirigido pela própria Anita, em apoio ao ato. Sobre o assunto, a cantora rejeitou o título de “madrinha” (“me parece uma palavra grande demais”), mas reafirmou seu compromisso nas questões políticas, como artista: “Não sou porta-voz de ninguém, mas como disse Fela Kuti, a música é uma arma, e estou numa posição muito interessante de quem tem sensibilidade e pode falar do que acontece em meu país.(…) E o que aconteceu com os estudantes, esta revolução de um despertar social, também foi um despertar social transversal, e nós músicos não estamos alheios a isso, somos parte de uma comunidade. Se critica um sistema completo que já não são democracias, mas são ditaduras corporativas instauradas que nem sequer se tratam de direita ou esquerda, mas de ambições políticas, que deixaram totalmente de lado a necessidade de um povo, que é a educação.”

Sua consciência social também a mantém afastada de gêneros como o gangsta rap, que considera “o resultado de um sistema”: “O sistema constrói o grotesco no gueto também, e parte desse grotesco também é como o gangsterismo — construir inimigos entre as pessoas de um mesmo bairro. Nesse sentido não o julgo, mas não me reconheço nele porque sinto que o inimigo é outro, não é o irmão da sua comunidade”, disse ela, que também considera o machismo como sintoma de um sistema capitalista: “Quem tem uma postura machista frente ao mundo também tem uma postura capitalista. Não há nada mais capitalista que o machismo e a ideia da mulher submissa, da mulher calada, da mulher objeto”, acredita. Em Vengo Anita bate de frente contra esse sistema patriarcal na faixa “Antipatriarca”, onde canta versos como “Não vou ser aquela que obedece/ porque meu corpo me pertence/Eu decido meu tempo,/ como e onde quero/Independente, eu nasci/Independente, decidi”, mais uma das músicas combativas do disco, que além de defender o erro, a volta às origens (“Venho, como um livro aberto, ansiosa por aprender a história não contada de meus ancestrais”, canta na faixa-título), também fala, entre outras questões, sobre a infância moderna em “Los peces gordos no pueden volar” (Com as poucas horas que tenho contigo/Devo brigar com os peixes que se fazem de amigos/Que falam ao ouvido, através de comerciais/E que seduzem mediante os canais); pós-colonialismo, em “Somos Sur”, que conta com a participação da rapper palestina Shadia Mansour e traz versos como “Todos os calados,/todos os submetidos/ todos os invisíveis(…)/a menina María não quer seu castigo/Será liberto como o solo palestino/Somos africanos, latino-americanos/Somos este sul e as mãos nos damos” e capitalismo, no mais recente single “Todo lo sólido se desvanece en el aire” (Como seria esse mundo sem capital?/Em que a humanidade fosse fundamental,/Onde todos fôssemos iguais, universal/sem patrões, nem amos, nem a nova ordem mundial).

Aos 37 anos e mãe de uma menina de 1 ano, Emilia, para quem compôs a canção de mesmo nome em Vengo, Anita coleciona elogios em toda parte — a despeito do recente incidente ocorrido no Lollapalooza Chile, em que a cantora foi chamada de “cara de empregada” pela ala rockista da plateia, ao que respondeu de maneira firme “Para os que acreditam que me insultam ao me chamar de cara de empregada, [sinto] tremendo orgulho por todas as mulheres trabalhadoras [que são] exemplos de valor!” e finalizou: “Eu sou essa cara de empregada, essa cara parecida com a sua. Pequena, de cabelos escuros. Eu sou essa cara com marcas que parece incomodar a sua classe sem classe”. Tal declaração reforça uma afirmação que Anita fez ao Globo este ano: “Hoje tudo já nasce meio como lixo, não é? (…)”Não é o agora que me interessa, é o para sempre. O corpo muda, o rosto muda, nós mudamos. E eu acredito que essa é a grande experiência da vida: sentir e aceitar que tudo muda sempre como algo com viés positivo e produtivo”.

Descrita pelo New York Times como “a resposta Sul-Americana a Lauryn Hill”, Anita Tijoux gravou um dos melhores álbuns do ano — sendo indicada a três categorias no Grammy Latino e a Melhor Álbum Rock/Urbano/Alternativo no Grammy — e é uma artista que merece ser acompanhada com atenção.

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