Gengoroh Tagame aborda o preconceito da sociedade japonesa a partir das diferenças culturais em um drama familiar de amor e aceitação

é um delicado e poderoso mangá anti-homofobia
NOTA8

O mangá O Marido do Meu Irmão, de , é um belo exemplar de como a tolerância precisa ser exercitada, incentivada. Em tempos de tanto ódio e em um Brasil mergulhado no preconceito institucionalizado contra os , essa série curta de mangá é um alento. É, ao mesmo tempo, delicada e poderosa ao lidar com a homofobia.

Lançada pelo selo Planet Manga, da Panini, a série em dois volumes mostra o cotidiano de um trio inusitado de personagens. O irmão gêmeo do dono de casa Yaichi se mudou para o Canadá há 10 anos e se casou com o engenheiro Mike. Após o falecimento de seu marido, Mike decide viajar pela primeira vez ao Japão para conhecer seu cunhado e sua filha, Kana.

A chegada de Mike a essa típica casa japonesa de classe média vai desestruturar a rotina de todos. E isso tem um motivo bem claro: a homofobia. É que o preconceito muitas vezes se comporta de maneira não-combativa, menos virulenta, mas igualmente danosa. Fica como uma neblina tênue, da qual se fala muito pouco, mas que também tem seu impacto. Yaichi se depara com seus medos e preconceitos, mas se vê em conflito com a conhecida hospitalidade do Japão. Já Mike se depara com um mundo diametralmente oposto ao seu seu estilo de vida livre fora do armário. Vindo do Canadá, um país reconhecidamente aberto em relação aos direitos gays, ele começa a perceber um mundo mais fechado e rígido. Essas diferenças culturais geram estranhamento em ambos e tiradas engraçadas.

Vivendo em sua casa por algumas semanas, Mike coloca Yaichi em xeque com seus demônios internos e o faz refletir sobre a forte homofobia que existe na sociedade japonesa. Seu irmão gêmeo decidiu emigrar para o Canadá justo após sair do armário e a relação entre os dois nunca mais foi a mesma. A culpa de tê-lo abandonado e não poder ter se despedido após sua morte também é algo que volta a assombrá-lo após a chegada de seu cunhado.

Quem fura essa neblina de resignações, preconceitos e medo é a menina Kana, que rapidamente cria um forte laço com seu novo “tio”.

A história se concentra bastante em Yaichi e nos vemos em diversos momentos dentro de sua mente. Conforme a história avança, ele começa a verbalizar seus preconceitos e a se livrar de receios em relação aos gays. A inocência de Kana, que não consegue enxergar problemas no amor homossexual, deixa ainda mais explícito o absurdo da homofobia.

O modo como o entendimento de Yaichi muda é bastante orgânico e bem construído dentro da trama. Com a ajuda da linguagem do mangá, a obra prende a atenção pela dedicação aos detalhes, às cenas domésticas. Os personagens vão ganhando nuances com o passar do tempo, o que é bem legal. Dividido em dois volumes, a obra se delonga um pouco na metade do segundo capítulo, sendo repetitiva em algumas abordagens, mas nada que atrapalhe a leitura.

Gengoroh Tagame é um mangaká importante para a literatura queer no Japão e tem entre seus trabalhos vários outros mangás com temática LGBTI+. Ciente do impacto que sua obra teria no mercado japonês, ele inseriu um tom didático em alguns momentos, incluindo aí alguns extras entre os capítulos explicando detalhes da comunidade, como as paradas da diversidade, datas importantes, etc.

A obra deve ser lida por todo mundo, mas terá um impacto bem maior em quem ainda possui algum traço de preconceito, ainda que não assumido. É como se Tagame tivesse consciência disso ao escrever a obra. O seu intuito de normalizar o amor, de militar por aceitação, chega a ser singelo, porém chega despido daquele tom “apaziguador”. Não encontrei nada que sugerisse uma “invisibilidade” ou uma “conformidade” perante padrões heteronormativos. Pelo contrário, o orgulho é evidenciado em Mike e sua nova família.

O livro é realista ao tratar de questões importantes no Japão, que ainda vê a homossexualidade como algo anômalo aos seus costumes. O país é hoje uma das poucas nações industrializadas que não tem leis para o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo e nem uma legislação anti-discriminação. ONGs com a AllOut e a Anistia Internacional denunciam diversas violações contra as pessoas gays e lésbicas no país. O Marido do Meu Irmão, dentro desse contexto, é uma obra contra a desinformação.

A edição da Panini chega caprichada, apesar de simples. A única coisa que não faz sentido é a classificação da obra para 18 anos. Sem cenas de sexo, violência ou qualquer outro conteúdo que justificasse essa classificação etária, fica o questionamento do por que um livro sobre o amor entre dois homens não poder ser lido por adolescentes.

O MARIDO DO MEU IRMÃO VOL. 1 E 2
De Gengoroh Tagame
[Planet Manga/Panini, 368 páginas, R$ 37,90 / 2019]
Tradução de Caio Suzuki

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