Rourke: Ator tentou recuperar a dignidade em Chamas da Vingança e Sin City, mas a redenção só veio mesmo com este novo longa (Foto: Divulgação)

ENTRE O CINEMA E A VIDA REAL
O Lutador transcende a história de superação para se transformar no mais importante papel do ressuscitado Mickey Rourke
Por André Azenha

O LUTADOR
Darren Aronofsky
[The Wrestler, EUA, 2008]

No bacana Rocky Balboa (2006), Stallone entregou ao público uma história sobre um homem que havia sido um grande campeão de boxe e precisava enfrentar a chegada da velhice, a vontade em voltar aos ringues – colocando em risco sua saúde – e a tentativa de reaproximação com o filho. Tudo embalado num clima de esperança, e ao final da projeção a plateia deixava o cinema com a sensação de que o protagonista havia alcançado a superação, e encontrado sua paz.

Estreia nos cinemas brasileiros outra produção que retrata um veterano dos ringues, que tenta se reaproximar da filha, e após sofrer um infarto causado pelos excessos ao longo da carreira, decide enfrentar um último desafio. O Lutador, adaptado do livro que Robert Siegel escreveu sobre Randy “The Ram” Robinson, astro ficcional da luta livre nos anos 80, lembra até certo ponto o último filme sobre o garanhão italiano. Mas o longa do talentoso diretor Darren Aronofsky (Réquiem para um Sonho e Fonte da Vida) transcende a história sobre superação. A dramaticidade e a autocomiseração do personagem principal são elevadas à enésima potência em trama melancólica e extremamente real.

Vinte anos após seu auge, The Ram (Mickey Rourke, de 9 e ½ Semanas de Amor) segue fazendo a única coisa que sabe: lutar. Mas os tempos mudaram, ele envelheceu, os fãs são poucos e o dinheiro menor ainda. Mesmo assim ele segue se apresentando. Até o infarto.

Forçado pelos médicos a interromper a longa carreira, Ram começa a trabalhar no balcão de frios de um supermercado. Enquanto isso, tenta refazer o contato com a filha (a linda e aqui morena Evan Rachel Wood, de Across The Universe, que estaria saindo com Rourke na vida real) e procura algum alento romântico em uma stripper (Marisa Tomei, ousada como jamais havia sido). Só que tentação pouca é bobagem. E eis que surge, então, a proposta para uma revanche com o seu maior rival, o Aiatolá (Ernest Miller). Difícil resistir…

Mas diferente de Rocky, Randy não tem qualquer interesse em superar-se. Tentar não repetir os erros do passo já seria uma vitória.

Curioso que essa motivação do personagem se assemelha às experiências pessoais de seu intérprete. Mickey Rourke, também um astro oitentista, que desapareceu do cinema durante anos, tentou carreira profissional do boxe, chegou a ser relegado a pontas ou projetos medíocres, se envolveu com drogas, ficou com o rosto deformado e quase se perdeu tentou resgatar um pouco da dignidade em filmes recentes. Uma oportunidade de retorno surgiu em Chamas da Vingança. Outra em Sin City. Mas não decolou. E sua redenção acontece aqui, em uma atuação que sensibiliza o espectador.

O lutador/ator se entregou de corpo e alma ao filme. E a entrega merece mais destaque, se verificarmos que Ram tem problemas com drogas, fato remete à vida real do ator. Corajoso, não teve receio de se expor e o esforço não foi em vão, rendendo ao artista os prêmios de Melhor Ator no Globo de Ouro, no BAFTA e sua primeira indicação ao Oscar.

Diferente do Jake LaMotta que Robert de Niro viveu no clássico Touro Indomável, cuja paranoia contribuiu para sua derrocada pessoal, Randy não age por maldade, tenta se acertar na vida, mas acaba cometendo erros que nem ele mesmo saber porque cometeu. É a velha história: errar é humano. E é essa fragilidade inerente a todos nós que o aproxima do público.

Já as atrizes que dividem a tela com Rourke não fazem por menos. Marisa Tomei, vencedora do Oscar de Atriz Coadjuvante por Meu Primo Vinny, foi novamente indicada pela Academia por encarnar com ousadia o papel de stripper. E Evam Rachel Wood se sai bem como a filha esquecida que tenta dar uma segunda chance ao pai.

Somadas à qualidade do elenco, estão a ambientação da época irrepreensível, a verossimilhança como as lutas são mostradas e a excelente trilha sonora, que mistura clássicos do heavy rock com as músicas incidentais tocadas por Slash (ex-Guns) e compostas por Clint Mansell – que devem fazer a alegria de muito marmanjo que foi adolescente naquele período.

Todos esses ingredientes fazem de O Lutador um dos grandes filmes do ano, e o projeto que fez o ser humano Mickey Rourke voltar à vida – ao menos, a cinematográfica.

NOTA: 9,0

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