VON TRIER ATACA COM RISOS E PIADAS FINAS
Em “O Grande Chefe” o artesão hollywoodiano usa da metalinguagem para debater teatralidades
Por Fernando de Albuquerque

Lars Von Trier já provou, por A mais B, que não é um cineasta de um gênero só. Ele já passou por várias vertentes como o didático Dogville/Manderley – em 2003 e 2005 respectivamente – pelo melodrama piegas e desalmado em Dançando no Escuro” e agora ataca com uma comédia desenvolta, em O Grande Chefe.

Inspirado no dramaturgo alemão Bertolt Brecht, Trier, criador do movimento Dogma 95, lança mão de um humor negro sem limites para contar a história do inescrupuloso Ravn (Peter Gantzler, de Italiano para Principiantes) que, para evitar o ódio de seus funcionários ao tomar medidas impopulares em sua empresa de informática, inventa um superior, que lhe daria ordens por telefone e e-mail, dos EUA. Porém, quando decide vender a firma para um rico empresário islandês, precisa de alguém que finja ser o suposto dono do local. É quando Ravn contrata o ator Kristoffer (Jens Albinus, de Os Idiotas e Dançando no Escuro) para ser o Grande Chefe.

Na pele do manda chuva, Kristoffer passa a Ravn uma procuração dando-lhe direitos para vender a empresa. Mas o comprador islandês, muito desconfiado, não topa negociar com procuradores. Nesse exato momento o papel do ator se amplia e ele começa a conviver com os gerentes. Na medida em que as pessoas passam a ter com ele um convívio real, as relações se transformam.

O Grande Chefe é um filme que vai de encontro ao personalismo que Trier coloca em todos os seus trabalhos anteriores. Se em seus outros filmes a imitação da realidade simplesmente inexistia, nesse novo ela é o grande “x” da questão.

As marcas mais profundas da visualidade do diretor ainda ficam muito bem incrustadas como o esforço para não compor imagens mais cuidadosas, cortes muito ostensivos dentro de um único plano. Chega a incomodar o espectador com a desorganização da ordem formal da narrativa e mesmo a interpretação dos atores. O papel principal é de um personagem inexistente que só existe na imaterialidade do signo. Nesse exato momento – quando Albinus encarna Kristoffer e logo depois Svend – é que a relação entre espectador se reformula e se questiona a todo instante.

Nos filmes anteriores, loucuras e insanidades estavam presentes no roteiro de forma a levar o espectador à refletir a condição-filme. Ou mesmo instaladas dentro do âmago de personagens insólitos e pouco funcionais. Mas agora essas insanidades estão deslocadas. Mostram um Trier que faz o público, hoje, rir com o que fazia chorar anos atrás.

É o incomodo e mesmo o inesperado das falas e atitudes de um personagem principal inexistente que faz de “O Grande Chefe” uma comédia de fino trato.

O GRANDE CHEFE
Lars Von Trier
[Direkøtren For Det Hele, DIN/EUA, 2006]

NOTA: 9,0

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